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sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Blade Runner - Recensão


Um dos aspectos que acho curioso quando me deparo com filmes de ficção científica dos anos 70 e 80 é a forma como as pessoas imaginavam que o futuro iria ser. Carros voadores, robôs hiper realistas, hologramas, tudo no então longínquo ano de 2007 (por exemplo). Dito desta forma, as expectativas que haviam parecem quase absurdas, mas é interessante reflectir o que motivou as pessoas a fazerem este tipo de previsões, e mais assustador, o que é que acertaram sobre o nosso presente. Assim, falemos Blade Runner. 

Dirigido por Ridley Scott, é baseado no romance Do Androids Dream of Electric Sheep? de Philip K. Dick, e conta com actores como Harrison Ford, Rutger Hauer ou Sean Young. Apesar de não ter sido muito popular quando saiu, Blade Runner tem vindo a ganhar popularidade ao longo dos anos, atingindo o status de cult classic e tornando-se um paradigma da ficção científica, que ainda hoje inspirou obras como, por exemplo série a série de manga Ghost in the Chell.

O filme original saiu em 1982 mas o ano passado saiu uma sequela, Blade Runner 2049, que contra as expectativas, achei um filme bastante bom, talvez um do melhores que vi em 2017. Apesar de ser uma sequela, aguenta-se muitíssimo bem individualmente e expande o mundo do primeiro filme sem destruir o que este conseguiu. Ainda assim, se tivesse que escolher entre os dois, seria uma luta renhida, mas optaria pelo primeiro.

A narrativa passa-se em Los Angeles no ano de 2019, onde carros voadores, colónias espaciais ou andróides virtualmente idênticos a seres humanos, a que chamam Replicant, são uma realidade. A serie mais recente, Nexus 6, a mais avançada é mais forte e tão inteligente quanto um ser humano. Estes são utilizados como escravos em trabalhos diversos, e após um motim, são proibidos na Terra. Equipa de polícias especais, com o nome Blade Runners, tem a função de “retirar” todos os replicant que desobedecem a ordens.

Esta é sensivelmente a informação que nos é dada antes do verdadeiro início do filme, nos opening titles, ao estilo clássico dos anos 80, num pequeno texto. Imediatamente a seguir cortamos para primeira vista da da cidade de Los Angeles em 2019, uma das minha cenas favoritas. Não possível ver onde começa ou acaba a cidade e a sua silhueta parece infinita. Não é possível ver detalhes nos edifícios, apenas as suas luzes que se estendem como um tapete de estrelas. O que mais se destaca são estas chaminés de onde saem nuvens de fumo e de fogo e enquanto espécie de veículo que atravessa o céu. A música que acompanha é por um lado clama e surreal, mas em conjunto com a imagem da cidade ganha um caracter triste e algo monótono. Ao longe vemos um edifício com uma silhueta diferente, quase uma pirâmide, mais alto e com uma silhueta claramente diferente dos restantes arranha céus. A grande estatura faz com que pareça que vigia toda a cidade. Enquanto nos aproximamos a música ganha uma intensidade diferente, dando a impressão que algo não está bem.

Na minha opinião, isto é o que destaca Blade Runner como filme: a atmosfera. O conjunto entre aquilo que vemos e ouvimos submerge-nos na história que pretende contar. Basta apenas a primeira cena para conseguirmos perceber perfeitamente o caracter do filme. 

A personalidade por detrás da música, o compositor grego Vengelis utiliza uma mistura de sintetizadores e instrumentos de cordas para criar o característico zumbido recorrente ao longo do filme, que pretende recriar o ruído permanece da cidade e dos seu habitantes. Melancólico mas misterioso. 

Por outro lado o aspecto da cidade de Los Angeles de 2019 conta com a colaboração de nomes como Syd Mead, também responsável pelo design de filmes como Tron ou Star Teck. A chave para criar um paisagem de ficção cientifica é o balanço entre elementos que existem na realidade e o que “vem do futuro”. Tudo tem um aspecto claramente futurista mas ao mesmo tempo familiar. No caso de Blade Runner, o futuro imaginado não é uma versão utópica, mas sim realista. A cidade está sobrecarregada, os edificamos altos dão uma sensação quase claustrofóbica às ruas, a chuva  permanente trás uma sensação de tristeza e reflete as luzes intensas da cidade. Todos os locais estão repletos de detalhes, mas não sobrecarregam a imagem, mostram uma sociedade estratificada 

Finalmente, não podemos passar sem abordar o tema filosófico da narrativa. Há questão da exploração dos Replicant, a forma como foram criados especificamente para servir a humanidade e que é que isso diz sobre a sociedade de 2019. Onde acaba a máquina e começa o homem? O que faz de nós verdadeiramente humanos? A melhor parte é que o filme nunca nos dá respostas específicas as estas perguntas. Não há uma moral da história definida. A única coisa que temos é uma sucessão de eventos que ocorre na narrativa em consequência das opiniões e respostas das personagens a estas questões. De resto, somos obrigados a tirar as nossas próprias conclusões.

Finalmente só me deixa recomendar que dêem uma vista de olhos ao filme. Há muitos mais aspectos interessantes que eu não pude abordar. O meu objectivo foi tentar revelar o menos possível em relação à história e às personagens, tentando focar-me nos aspectos visuais. Recomendo também que vejam também o novo que saiu o ano passado. O nosso presente pode não ser o futuro idealizado de muitos dos filme retratavam nos anos 80, mas já estivemos mais longe. Quem sabe se corresponderemos ao futuro de 2049.








quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Marketing por Género em Brinquedos

Para dizer a verdade, eu não tinha planos de abordar este tema. É claro que acho
 que é um tema importante e do qual devemos dialogar, eu apenas estava a planear falar de consumismo nesta época natalícia. Mas no dia 24, quando estávamos todos a abrir presentes, o meu primo recebe um novo carinho, daqueles de montar, incluindo os circuitos eléctricos. Quando eu perguntei se ele queria ajuda minha para montar o carrinho ele responde com o clássico: “Mas as meninas não gostam de carros. Isso é coisa para rapazes.” 

Provavelmente eu não me deveria ter me sentido tão insultada com esta frase. Ele disse isto sem intenção e no final ele aceitou a minha ajuda e montámos o carro os dois. No entanto a forma como ele falou deu uma ideia de certeza, ou de facto. Tal como refere John Fiske: “A naturalização da ordem existente faz com que ela pareça universal e, consequentemente, imutável (como a natureza);” Ou seja, o meu primo apenas estava repetir aquilo que lhe tinham ensinado como sendo verdade.

Eu tenho sorte de ter tido pais que nunca restringiram com que brinquedos deveria brincar enquanto crescia, mas tenho noção que isto não é o normalmente acontece. A sociedade tem expectativas para aquilo que uma rapariga, ou um rapaz, deviam ou não fazer, com o que devem ou não brincar. Ainda me lembro dos anúncios de brinquedos que passavam na televisão na altura do Natal. Eram sempre o mesmo formato: Para rapazes explosões, movimento e azul. Para meninas suavidade, florzinhas e cor de rosa.

Marketing destinado ao género não é nada de novo e sem dúvida acontece para além de brinquedos, mas a verdade é que dá lucro. Separar os consumidores em parcelas mais pequenas, faz com que possam vender mais versões do mesmo produto. Para tal, os produtos utilizam a cor, o formato e textura do packaging, o logo e as fonts letra utilizadas e até as secções das lojas em são colocados. Este tipo de separação de consumidores chega até ao ponto em que as pessoas chegam a recusar comprar um produto se este não for publicitado para o seu género. Isto acontece mais frequentemente com homens. É ainda mais ridículo quando alguma das varrições de produto destinado a um determinado género custa mais do que o outro. Por exemplo giletes para mulher que são mais cara do que as dos homens  

Agora voltemos ao carrinho que causou toda esta questão. Na caixa e no manual de instruções não especifica o género da criança a que é destinada, mas as ilustrações demonstram sempre rapazes a brincar com o produto. Depois de pesquisar pela marca
 do brinquedo e observar, de uma forma geral, a restante linha modelos é possível ver 
com facilidade a separação por género. Por exemplo toda a secção a que eles chamam “brinquedos de cosmética" mostra claros sinais de marketing para meninas. É suposto os rapazes não gostarem de sabão, pasta de dentes ou de velas?

Este tipo de separação ajuda a perpetuar as expectativas sexistas que a sociedade tem de nós, gender roles, começando desde crianças com brinquedos e mantendo-as ao longo da nossa vida com uma imensidão de outros aspectos.


Finalmente, para fechar a questão, existe alguma forma de combater estes hábitos? Sim. É muito simples na verdade: basta ignorar ao máximo o que o marketing nos tenta impingir e tentar perguntarmo-nos de vez em quando “Será que estou a comprar isto especificamente porque é destinado ao meu género?” E deixem as crianças brincar com o que elas quiserem, bonecas ou carrinhos, cor de rosa ou azul. No final do dia brinquedos são brinquedos.

Referências:
John Fiske (1993) Introdução ao Estudo da Comunicação, Porto Edições: Asa
The Checkout | GENDERED MARKETING, publicado a 17/04/2014 (link)

sábado, 23 de dezembro de 2017

A Durabilidade de um Mito

“Creio que o automóvel é hoje o equivalente bastante exacto das grandes catedrais góticas: quero dizer, uma criação que faz época, concebida com paixão por artistas desconhecidos, consumida na sua imagem, senão no seu uso, por um povo inteiro, que através dela se apropria de um objecto perfeitamente mágico.”

Dos temas que abordámos ao longo das nossas aulas, um dos mais me interessou foi a Mitologia abordada por Barthes, especialmente o excerto sobre o Citroën D.S. Quando o lemos pela primeira vez, pareceu-me apenas bizarro que um simples carro pudesse ser comparado a uma catedral, quanto mais um mito, e no entanto é o exemplo perfeito.

Segundo Barthes, uma mitologia é uma forma de fala, e por isso vai para além de objectos, ou até de conceito ou ideias. É uma mensagem que se transmite. O mito nunca foi o Citroën, mas sim o que este significava na altura em que Barthes escreveu sobre ele: símbolo de uma nova era, na sociedade da Europa após a Segunda Grande Guerra. O Citroën era apenas o mensageiro. Tal como as catedrais Góticas, que sugiram para reafirmar a fé no mundo católico a seguir às reformas protestantes do século XVI.

No entanto, subiu uma nova pergunta: porque é que eu não reconheci imediatamente o Deésse como um mito? Será que os mitos têm durabilidade, ficando obsoletos à medida que o tempo passa? Depois de pensar bem no assunto e fazer alguma pesquisa, eu acho que não. Os mensageiros é que ficam obsoletos e vão sendo substituídos, mas os mitos permanecem. É por isso podemos comparar o Citroën a uma catedral, porque, na sua essência, são o mesmo mito e transmitem a mesma mensagem: o espelho de uma sociedade que acabara se sofrer uma grande mudança.

Então, tendo isto em conta, será que existe algum objecto que no presente carregue o mesmo significado mitológico semelhante ao do Deésse ou uma catedral?

Provavelmente sim, vários até. O primeiro que consigo pensar são os computadores pessoais. Não importa marca, qualquer um serve. Está sempre connosco, são construídos por artistas anónimos com paixão e são o espelho perfeito da nossa sociedade. Talvez a televisão ou o rádio também servissem, mas como já todos nos apercebemos, estes encontram-se neste momento em declínio de popularidade. Estes têm a vantagem de ainda nos conseguir surpreender e seduzir com novas capacidades e aspectos (aponto o exemplo dos recentes avanços em relação à Inteligência Artificial), que os torna objectos de culto. Isto traz-me à memória a última vez que a Apple lançou um novo produto e as multidões se reuniram para a poder ver e experimentar, tal como o Deésse atraiu multidões para si foi lançado ou as catedrais Góticas outrora repletas de crentes.

Isto, é claro, quer dizer o computadores pessoais não serão mensageiros para sempre. Tal como a televisão, que sucedeu ao rádio, e que por sua vez foi sucedida pelo computador pessoal, um dia surgirá um novo mensageiro que perpetuará o mito, enquanto os outros caem no esquecimento. 



Referências: 
Barthes, Roland (1957/1988) «O Novo Citroën» In Mitologias. Lisboa: Ed. 70.