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domingo, 7 de janeiro de 2018

Exposição Serralves: Daniel Steegmann Mangrané

























Ao entrar numa galeria, o espetador estabelece uma relação não apenas com as obras de arte, mas com todo o espaço expositivo envolvente, funcionando estes sempre em conjunto para uma experiência plena. 
Tive o privilégio de ao entrar no museu Serralves, há uns meses, ser absorvida pelo trabalho de Daniel Steegmann Mangrané, artista catalão e autor de “Uma folha translúcida no lugar da boca”. Uma obra que prima pela sua elevada complexidade tanto ao nível formal como conceptual.

Ao entrar no espaço é notória a presença de algo inusitado, uma paisagem dentro da própria paisagem, uma obra site-specific que parte das imagens do filme de 16 mm realizado pelo artista entre 2009 e 2011 na Amazónia, também estas expostas na sala central. A instalação resultaria em algo vivo que de certo modo exige uma certa atenção por parte dos espetadores, que contemplam uma natureza que os rodeia ao longo do dia, mas que porque foi colocada em exposição se olha de modo diferente. Centralizada no espaço e irradiando uma luz esverdeada, o projeto convida a uma aproximação. A relação do espetador com a obra exposta é alterada, é vista não como um artefacto protegido do exterior, mas como o próprio exterior, quebrando esta barreira a que estamos preparados. 

Após o confronto inicial com todo o panorama e ao percorrer a galeria, são visíveis na parede, as palavras da poetisa brasileira Stela do Patrocínio que nos remetem para um exercício de abstração, de questionamento da natureza humana, que potenciam inúmeras interpretações.

“Eu não queria me formar
Não queria nascer
Não queria tomar forma humana
Carne humana e matéria humana
Não queria saber da vida

Eu não tive querer
nem vontade pra essas coisas
E até hoje eu não tenho querer
nem vontade para essas coisas”

Percorrendo o espaço expositivo novamente e ao iniciar uma aproximação a este jardim de vidro com uma forma irregular e sinuosa, o espectador pode constatar que existe um ecossistema muito próprio que se desenrola à sua frente. Um ecossistema de plantas autóctones, provenientes do jardim de Serralves. Habitam neste pedaço de natureza, pequenos bichos-pau (Phasmida) e bichos-folha (Phyllium), insetos exóticos que fascinam pela forma tão perfeita como se misturam no meio envolvente, um mimetismo tal que o próprio movimento oscilante que realizam propicia uma fusão entre estes. O interessante nesta fusão não se prende apenas pelo seu impacto visual mas também pelo facto deste ecossistema ser auto dependente, algo que acaba por levantar questões em relação á relação que o próprio homem estabelece como o meio em que se movimenta e o circuito de dependências dos quais somos reféns no dia a dia.
A presença da janela, obra do arquiteto Siza Vieira, harmoniosamente integrada de modo a fazer comunicação com o parque, possibilitando a entrada de luz em todo o cenário enfatiza este contraste entre interior e exterior, entre o corpo e o espaço. 

Através destas interações realizadas pelo espetador com toda a instalação podemos referir que o autor realizou uma obra de arte total, na medida em que todos os componentes (espetador, espaço e obra) se relacionam, através de diversos meios de expressão artística. Dentro destes meios é de salientar a presença da escultura que terá um papel fundamental a representar a passagem ao meio natural, que através do uso de vidro confere um caracter de proximidade. Através da sua forma sinuosa, por sua vez, é transmitida uma leveza que contrasta com a grande dimensão e consequente imobilidade do objeto.

O que apreendi da obra de Daniel Steegmann Mangrané e esta sua paisagem viva foi um necessário questionamento, uma quebra de qualquer barreira física entre o espetador e a instalação que o envolve. É ainda de sublinhar a presença da dicotomia entre o espaço fabricado e o espaço natural, que não entrando em confronto, coexistem no mesmo local. 

Ao abandonar esta sala, e refletindo sobre a obra é possível apontar que Uma folha translúcida no lugar da boca, como resultado da multiplicidade de materiais, técnicas e estratégias a nível conceptual, propicia a que quem a vislumbra, inúmeras interpretações.

Esta exposição estará patente na Sala Central de Serralves até dia 7 de Janeiro de 2018.

Fotografia de Constança Babo

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Senso Comum

Para Karl Marx, ideologia é o meio pelo qual as ideias da classe dominante passavam a ser aceites na sociedade como naturais e normais. Daqui se depreende que esta normalidade passaria também a aplicar-se à classe trabalhadora e oprimida, contudo, através de ideias que não partiriam desta, resultando num estado permanente de falsa consciência.

Contudo, visto que algumas destas ações são praticadas por todas as classes, tratam-se de ideologias tão aceites que lentamente se fundem com o senso comum.
Entrando neste campo do senso comum, dos conhecimentos empíricos que se acumulam ao longo dos tempos numa sociedade, e deste modo concebido enquanto certo. Tendo este conceito em mente, que será o principal objetivo das ideias da classe dominante, deparamo-nos com o conceito de Hegemonia, introduzido por António Gramsci enquanto influência preponderante exercida sobre outros. 

“A hegemonia é necessária e tem que ser muito actuante pois, a experiência dos grupos oprimidos (seja por motivos de classe, sexo, raça, idade ou qualquer outro fator) contradiz constantemente a imagem que a ideologia dominante faz deles e das suas relações sociais.”

Transpondo este conceito para a reflexão de John Fiske, no primeiro capitulo da sua obra Understanding popular culture, o autor começa por dizer que dos seus 125 alunos, 118 estariam a usar calças de ganga e os outros 7, apesar de não estarem de momento a utilizar, também as tinham no seu armário. Fiske poderia ter enumerado variadíssimos exemplos para expor uma tendência contudo, olhando para o impacto desta peça de vestuário, será de senso comum pensar que todos os estudantes a devem possuir?
Se alguém é popular utilizando calças de ganga, não prescindiremos de adquirir as mesmas calças de modo a conferir-nos esta sensação de inclusão.

Hoje em dia, e dentro das diversas classes sociais enfrentamos uma padronização a nível dos indivíduos devido ao consumo de determinados produtos enquanto forma de integração social. Existe uma necessidade  geral de “aprovação” incontornável pois, qualquer tipo de diferença que se distancia dos padrões estabelecidos terá um impacto negativo. Feita esta observação, entendemos que onde existem fatores diferenciadores, está também presente a intolerância humana, que se prende com esta recusa de tudo o que foge às ideologias pré-estabelecidas na sociedade.

Assim que nascemos, é esperado um determinado comportamento e aparência e é através destes que somos julgados. São variadíssimos os fatores que hoje em dia dão lugar à discriminação contudo um dos mais debatidos será mesmo a igualdade de gênero.
Percorrendo as redes sociais, tão usadas nos dias que correm, deparei-me com um video intitulado, 'Open your Eyes',resultado de uma parceria entre Hollie McNish e Jake Dypka que já alcançou cerca de 49 334 visualizações. A peça explora a diversidade e joga com a ideia de que tudo nas nossas vidas é de alguma forma condicionado pelo género. Apesar de nunca ser revelada a verdadeira identidade de blue e de pink podemos dizer que é de senso comum que blue se refere ao rapaz e pink à rapariga. Mas porque razão?





         "Blue is told: This makes a man
Pink is told: This makes a girl 
Babies born in naked flesh, welcome to the world"

Fontes:
John Fiske (1993) Introdução ao Estudo da Comunicação, Porto Edições
John Fiske, Understanding popular culture  

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

A atividade humana enquanto sujeito da própria história

Contrariamente à filosofia alemã, que desce do céu para a terra, aqui parte-se da terra para atingir o céu. 


Karl Marx juntamente com Engels opõem-se à perspetiva formada pelos jovens hegelianos, visto que esta justificaria as transformações vividas na sociedade apenas através do plano de pensamento e da imaginação, das palavras e representações.  

Com Marx, a filosofia já não deve interpretar o mundo, mas transformá-lo, numa reconciliação entre o ideal e o real. A dialética, “revolucionária por excelência”, deixa de ser uma questão espiritual (da ideia), para ser social e política (da realidade empírica). Existe uma necessidade de nos afastar-mos deste mundo das ideias para retornar à terra, à linguagem da vida quotidiana caracterizada pela atividade humana praticada por indivíduos reais, uma supremacia da materialidade sobre a ideia.

Ao pensar na evolução da sociedade, libertos de quaisquer pressupostos, o ponto de partida deverá sempre ser a existência humana, que se revela e separa da animal primordialmente pela criação de meios de existência. Esta produção, segundo Marx e Engels será a condição fundamental de toda a história.
  
Os aspetos de produção, estão desde o início da história diretamente relacionados com o trabalho, visto que é neste que se centra a atividade humana. Através da análise do produtor, do modo como é feita a produção e o papel assumido no processo é possível proceder a uma análise de toda a ordem social. Assim, percebemos que a história estará sempre ligada ao mundo dos homens enquanto produtores.

Olhando para a sociedade em que vivemos hoje, em pleno século XXI, não poderia ser mais pertinente esta análise, visto que o trabalho terá uma importância fundamental nas formações sociais. Desde o trabalho do agricultor, que incidindo no campo, nos traz alimento para a mesa, até ao papel essencial dos professores ao formarem um futuro adulto.  

Esta divisão de trabalho, determina as relações entre os indivíduos e é dependente das mesmas. Uma força produtiva que se caracteriza por uma necessária cooperação. No trabalho que praticamos vemos um conjunto de atividades, produtivas ou criativas que nos possibilitam uma realização a nível pessoal, interação e acima de tudo um meio de subsistência. 

Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina a sua consciência.

Nesta perspetiva, o ser humano nunca poderá ser pensado sozinho e as suas relações sociais definem a própria sociedade. É este facto do homem ser primordialmente social que determinará a sua consciência, visto que esta não pode ser pensada enquanto produto de uma verdade absoluta, mas antes determinada pela relação com os outros. 


Fonte:
MARX, K. & ENGELS, F. A Ideologia Alemã. Trad. Castro e Costa