Mostrar mensagens com a etiqueta 10226. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 10226. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Dexter - Recensão



As séries americanas evoluíram bastante nos últimos tempos, tanto em aspetos técnicos como em termos de conteúdo e assuntos abordados. Estas promovem debates e discussões importantes sobre assuntos complexos da vida humana na forma de entretenimento que, muitas vezes, as pessoas recusam a comentar, mas a sua essência baseia-se em muitos conceitos filosóficos. Uma série que exemplifica estes aspetos é a série Dexter, que conta a história de um serial killer que mata outros assassinos e que tenta manter uma vida comum para encobrir os seus crimes.

Dexter é uma adaptação do livro Darkly Dreaming Dexter, de Jeff Lindsay, e o seu sucesso foi crescente, sendo bastante elogiada pela crítica e ganhando vários prémios. No entanto, a questão é como é que uma personagem principal tão violenta e cruel como Dexter Morgan conseguiu fazer tanto sucesso e despertar tanto interesse?

Este é um exemplo de como as séries americanas possuem uma estrutura muito forte e trabalham temas universais que fazem parte da vida de todos. A vida de Dexter é apresentada através de narrações e de flashbacks, e a sua sinceridade com o público permite estabelecer uma ligação entre ambos que leva os telespectadores a compreender o objetivo de Dexter de punir aqueles que merecem.

A busca pela identidade pessoal da personagem principal é algo presente em todas as temporadas. Este procura sempre entender qual é o seu “eu” verdadeiro para poder aplicar o Código de Harry (conjunto de regras que lhe indicam como deve agir no dia a dia e a forma como deve executar o assassinato) da forma mais perfeita possível para que o seu lado oculto não seja descoberto e para continuar a agir como um “justiceiro”. Enquanto a história se desenvolve, vemos um Dexter que tem certeza de quem é realmente, pois identifica-se como um serial killer e tem noção disso. Dexter cresceu com a consciência de que era um psicopata com desejo de destruir outras vidas. O seu pai adotivo, que era policia e via todos os dias a injustiça do sistema judicial, criou o filho de forma a redirecionar esse desejo para quem realmente fosse perigoso para a sociedade. Daí surge o Código de Harry.

Um psicopata não obedece a nada, a não ser aos seus próprios desejos. A meio da série, Dexter começa a questionar todos os seus valores à medida que se depara com situações limite, levando a sua confiança a acabar em dúvida. Desta forma, Dexter, e os telespectadores, entram num conflito entre as ações de Dexter e ações de ética, que existe justamente na tentativa de conter a violência entre pessoas. Dexter apenas mata quando tem a certeza que a vítima é perigosa para a sociedade, mas se isso torna a sua ação correta é uma questão controversa. Será que o seu comportamento é correto porque ele apenas castiga o criminoso que fugiu à justiça, ou é errado porque ele viola as leis que nos protegem a todos?

Alguns podem argumentar que os fins justificam os meios, no entanto de forma a criar uma regra ou teste para saber em que situação o comportamento é moral, o filósofo Kant (1724-1804) projectou o imperativo categórico, que diz “age de tal maneira que possas querer que a tua máxima se torne uma lei universal”, que, basicamente, questiona “e se toda a gente o fizesse?”. Um defensor de Dexter poderia dizer que o seu comportamento satisfaz o teste kantiano: Dexter mata assassinos psicopatas a fim de prevenir que estes matem novamente. Será possível dizer que toda a gente nesta situação deveria agir desta maneira? Por outro lado, o imperativo kantiano pode visto de outra maneira. Se alterarmos a pergunta e dissermos que Dexter infringe a lei para punir pessoas que ele tem a certeza de que são culpadas mas os tribunais consideraram-nas inocentes, algumas pessoas mudariam de opinião e deixariam de concordar que toda a gente deveria seguir as ações de Dexter. 

Dexter não afirma que o seu comportamento é correto, descrevendo-o como uma condição necessária para a sua sobrevivência. Este mata porque algo no seu consciente o leva a tomar essas ações, ao contrário, por exemplo, do Super-Homem que combate "pela verdade e pela justiça”, o objetivo de Dexter é movido por interesses pessoais, cujo princípio orientador é “não ser apanhado”.

Esta é uma das principais reflexões que a série procura despertar no seu público, se vale a pena ser ético e seguir as normas e regras estabelecidas, ou se, em certas ocasiões, os fins justificam os meios. Se o correto é ser ético, como é que se deve lidar com as injustiças que existem? E, se for o caso, o melhor é infringir as normas, como é que se deve lidar com as consequências das nossas ações?



segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Consciência

Karl Marx e Friedrich Engels abordam o tema da consciência fazendo uma separação entre o material e o intelectual. Afirmam que a produção de ideias, representações e da própria consciência está conectada com a atividade material dos homens, que esta é a linguagem da vida real, a origem do comportamento material. No entanto, esta não origina apenas a produção material, mas também produção intelectual, tal como a linguagem, a política, ou a moral de um povo. Esta produção acontece também com factores históricos que a condicionam, surgem como consequências de um processo de vida.

Também afirmam que “A consciência nunca pode ser mais que o Ser consciente; e o ser dos homens é o processo da vida real.” Ou seja, esta afirmação parte dos homens e da sua atividade real. É a partir do desenvolvimento da vida que se observa as consequências da consciência moral. Assim, a produção intelectual (moral, religião, e qualquer outra ideologia) torna-se dependente, perde toda a autonomia, pois não tem passado nem desenvolvimento; são formas de produção material que transformam a realidade que é própria aos homens, o seu pensamento e os seus produtos.

O conceito de consciência está intimamente relacionado com o “eu” e “existência”, sendo uma conexão entre a consciência pessoal e a consciência moral. “Não é a consciência que determina a vida, mas sim a vida que determina a consciência”. A consciência vive connosco e todas as ações que tomamos irão refletir-se para o resto da nossa vida; parte das próprias pessoas reais e vivas e considera-se a própria consciência como sua.


Referência: Karl Marx e Friedrich Engels (1932/1976) - “A ideologia Alemã, vol. I”, Lisboa: Presença.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Déesse

Roland Barthes, na sua obra Mitologias, escreve sobre a perfeição dos objetos. Começa por descrever como as antigas catedrais góticas eram o expoente máximo da perfeição. Notava-se nas mesmas a paixão dos artistas que as construíam, e o povo glorificava-as como sendo de outro mundo. Na sua época, Barthes compara essa perfeição de uma construção humana ao novo modelo da Citroën, o modelo DS, o qual descreve “O novo Citroën cai manifestamente do céu, na medida em que se apresenta, antes de mais, como um objeto superlativo.” 


Desta forma, este objecto particular consome em si mesmo a perfeição e a “transformação de vida em matéria”, sendo que Barthes considera esta última como mais mágica do que a própria vida. O que torna este objeto perfeito, são os olhos do público que, unanimamente, tornam a sua construção perfeita. Esse público não quis saber da sua substância, consideraram mais importante as suas junturas lisas, as quais desenvolvem um atributo de perfeição. Isto é, a sua superfície lisa dava uma ideia de transcendental, enquanto que o oposto atrai uma ideia de algo pensado e trabalhado por humanos. A perfeição não está ao alcance dos humanos e sendo um objeto considerado perfeito atribui-se a ideia de outro mundo. Torna-se num ponto de viragem no qual se passa de um “mundo de elementos soldados a um mundo de elementos justapostos, que se aguentam pela virtude exclusiva da sua forma maravilhosa” de tal forma que o público lhe atribui o trocadilho com a palavra “Déesse”, que neste caso é uma ambiguidade fonética com o nome do modelo (DS) e pelo significado de entidade mitológica de “Deusa”. Desta forma, trata-se de uma arte humanizada, pois a “Déesse” representa uma mudança na arte automobilística, que deixa para trás o automóvel que simbolizava o poder, o bestiário, tornando-se mais espiritual e objetivo.

Referência: Roland Barthes (1915-1980), "Mitologias", Rio de Janeiro: Bertrand Brasil 2001, 11ºEd.