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terça-feira, 9 de janeiro de 2018

O Nascimento de uma Nação, 1915

   "O Nascimento de uma Nação" por David L. Griffith foi considerado por diversas revistas e editoras um dos melhores filmes de sempre. "O melhor filme da época" no ano da sua estreia, em 1915, o filme de Griffith surge como a maior revelação cinematográfica alguma vez experienciada no mundo do cinema. As panorâmicas, as fotografias nocturnas, os efeitos de íris, os close ups, os flashbacks e os fades contribuem em grande parte para a grande admiração da sociedade americana da época por este filme. 

  O filme divide-se em duas partes: o antes e o depois da morte de Lincoln. Na primeira parte do filme, assistimos à vida quotidiana dos Stoneman, uma família abolicionista da escravatura de Washington DC e dos Cameron, provenientes do sul dos EUA e donos de propriedades e escravos, ambas afectadas com o despoletar da Guerra Civil Americana (1861-1865). Das centenas de personagens presentes neste filme podemos destacar: Austin Stoneman, político abolicionista; a sua delicada filha Elsie; Margaret Cameron, a irmã mais velha e refinada; e Flora, a irmã mais nova de Margaret, sonhadora e inocente. As famílias vivem em harmonia, as crianças frequentam a mesma escola e surge o amor entre Margaret e Phil Stoneman. A Guerra é então a culpada da separação destas duas famílias quando uma delas regressa a casa, dirigindo-se para Norte.





   Ao adaptar dois livros e uma peça de Thomas Dixon Jr. (The Clansman: An Historical Romance of the Ku Klux KlanThe Leopard’s Spots e The Clansman, respectivamente), Griffith retratou a Guerra Civil como os brancos a viam e como queriam que fosse vista. Os desvios e as invenções ao longo da história denotam como havia uma necessidade imensa de apagar a derrota em prol do martírio, aproveitando para tornar o povo Africano o culpado da Guerra.

  Numa das cenas da família Cameron, os escravos dançam felizes para eles enquanto trabalham nos campos de algodão. Esta cena ridiculariza a situação de pobreza e exploração vivida pelos negros, pois estes jamais sentiriam vontade de dançar de felicidade. Mais tarde, já noutra cena, a pequena Flora foge de casa contra a vontade do pai e vagueia pela floresta. Gus, um dos escravos negros, vai atrás dela e pede-a em casamento. A rapariga grita por ajuda e corre desalmadamente. "Eu não lhe vou fazer mal, senhorita", diz o escravo, mas esta lança-se de um abismo tal é o pavor à ideia de ser violada por um negro. 


   Aquilo a que aqui se assiste é uma previsão tremendamente precisa de como a "raça" viria a funcionar nos anos seguintes nos EUA. A imagem da mulher branca vítima de uma violação por parte de um negro atormentou uma geração inteira e este filme contribuiu para esse feito. Ironicamente, tanto na época como até aos dias de hoje, as histórias de uma mulher negra violada por um homem branco são as que sempre aconteceram mais frequentemente.

  


Homicídio de Lincoln, Ford's Theatre, 1865


   O momento mais extremista surge na segunda metade do filme, a "Reconstrução". Esta mudança ocorre devido ao homicídio de Lincoln no Ford's Theatre, 5 dias depois deste ter recusado ao ancião Stoneman a impiedosa tomada do Sul, preferindo a restituição diplomática. Stoneman toma o poder e seguem-se inúmeras cenas de violência e racismo para com os negros (maioritariamente actores brancos pintados) deixando explícito que a abolição da escravatura tinha sido um um erro para o povo americano. Os negros jamais poderiam ser integrados na sociedade como seres humanos e é então que nasce o Ku Klux Klan, mais conhecido como KKK: um clã extremista que assassinou em massa a comunidade negra da época e que era visto como a salvação do país de cair numa "anarquia de negros". As mortes eram assinadas, marcadas por facas ou escritas com o próprio sangue da vítima, deixando as iniciais do clã na pele dos negros. Este grupo, correspondente ao primeiro clã KKK, activo entre 1865-1871, que tinha como base a supremacia branca e o terrorismo cristão, é retratado heróica e romanticamente, sendo as suas atitudes vistas como justificadas e altamente necessárias. 




   No filme, o clã tem um ritual de queima da cruz, algo que na realidade não era praticado por estes. Infelizmente, a vida imitou a arte e ocorre uma das maiores vagas de terrorismo alguma vez presenciadas nos EUA. A cruz é queimada, louvando a purificação da raça branca e celebrando a exterminação da raça negra. Milhares de afro-americanos são assassinados e deixados em locais públicos como afirmação de poder. Na convenção democrática nacional de Nova Iorque em 1924 estima-se que 350 delegados fossem membros do clã. O terror espalha-se e a geografia democrática do país é moldada por esta era, com os afro-americanos a fugirem das cidades para se refugiarem.






Assassínio de um negro por membros do KKK



Ritual da queima da cruz do KKK


   O seu conteúdo racista e extremista, as terríveis aplicações gráficas dos efeitos de vídeo e a duração do filme, de cerca de 3 horas, tornam o filme, na minha opinião, de qualidade medíocre. A sua construção cinematográfica é incoerente e os efeitos visuais excessivos tornam o filme menos rico. Como todos os filmes da época, este é a preto e branco e não tem qualquer tipo de guião; apenas cenas acompanhadas por uma partitura que se altera conforme o ambiente em cena.

  Em determinados aspectos da nossa sociedade somos o produto do nosso passado: os brancos são vistos como superiores aos negros; mulheres são tidas como inferiores aos homens. A escravatura foi abolida e simultaneamente culpada de deixar a economia de um país destruída. A guerra deixou marcas eternas na história: a grande vaga de presos, sem-abrigo e pobres que surgiu após este período reflecte-se na sociedade em que este país vive até aos dias de hoje. Diariamente são cometidos pequenos delitos e mais pessoas são presas pelo Estado.

  O que este filme provocou, ou pelo menos, incentivou, foi o crescente pensamento extremista e altamente racista de toda uma população. Em 1994, "a terra das oportunidades" criou a Three-Strikes Law ("Três vezes e estás fora") que exclui da sociedade qualquer pessoa que cometa mais do que dois crimes. O objectivo é agravar a punição atribuída aos criminosos, chegando-se a sentenciar prisão perpétua por crimes definidos como "não violentos". 

  Hoje, os Estados Unidos da América possuem a taxa mais elevada do mundo de população prisional. Em 1972, esta taxa equivalia a 300 mil reclusos. Actualmente, 2.3 milhões de pessoas encontram-se detidas em prisões estatais nos Estados Unidos da América.



  Como poderá um país que se auto-condenou levando ao extremo o racismo continuar a apoiar o mesmo?



  Há 6 meses atrás, pela quarta vez consecutiva o tribunal de Ohio não condenou um polícia pela morte de um negro - Sam DuBose, 43 anos. A 6 de Julho de 2016, Philando Castile foi mortalmente baleado por um polícia ao declarar que transportava consigo legalmente uma arma de fogo. Mark Dayton, Governador do estado do Minnesota, ainda questionou: isto teria acontecido se os passageiros fossem brancos? 


  A resposta é não. Apesar da crescente mudança da mentalidade anti-racista, ainda existem bastantes contrastes entre as diferentes etnias. Infelizmente em alguns países, preto é preto, branco é branco. Um negro sozinho na rua é um assaltante, um branco está apenas a caminhar em direcção a casa.



  Por fim, questiono-vos: Apesar de há 100 anos se terem passado desde o seu lançamento, como pode um filme destes ainda inspirar mentalidades dos dias que correm e influenciar jovens das novas gerações?


segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Sociedade de consumo


   "O trabalhador relaciona-se com o produto do seu trabalho como a um objecto estranho (...) quanto mais o trabalhador se esgota a si mesmo, tanto mais poderoso se torna o mundo dos objectos, que ele cria perante si, tanto menos pertence a si próprio." Marx, 1993.
 Vivemos numa sociedade de consumo, criada no século XX e arrastada até aos dias de hoje. Após a 2ª Revolução Industrial, a crescente urbanização na Europa e nos EUA começou realmente a fazer-se notar: a população europeia duplicou (apesar da emigração), o poder aquisitivo dos trabalhadores aumentou, as indústrias de bens de consumo ampliaram a sua produção.
 Em 1908, Henry Ford produz em massa pela primeira vez um produto considerado de luxo - O Ford T. Hoje em dia, poucos são os bens que não são produzidos em massa. 
  Actualmente, a nossa capacidade de produção de bens e serviços é tão elevada que o consumo massivo dos mesmos cresce exponencialmente a cada dia que passa. Economia, Mercado, Consumo, Negócio, Comprar, Profit, Target Market, Luxo. São estas algumas das palavras que regem o dia-a-dia da nossa sociedade, onde o equilíbrio é encontrado através da oferta e da procura da livre circulação de capitais, produtos e pessoas (sem intervenção do Estado) chegando por fim ao conceito de Capitalismo. 


   Esta necessidade permanente de consumo de bens, provém de factores sociais e principalmente culturais. Desde cedo somos ensinados a "armazenar" dinheiro para o gastar em coisas de que realmente não precisamos; somos obrigados a estudar desde cedo determinadas áreas do conhecimento, especialmente as científicas, visando um futuro promissor num curso superior bem cotado. São deixadas de parte as áreas pouco lucrativas, pouco "comercializáveis" como é o caso da Pintura e da Música. Trabalhamos desalmadamente por um objectivo, a estabilidade financeira, e esquecemos por completo a nossa estabilidade emocional. Trabalhar, Ser promovido, Trabalhar, Ganhar dinheiro. A felicidade torna-se secundária ao Homem. O trabalhador produz-se como mercadoria.
    Um dos mais representativos exemplos do supra-consumismo de que hoje se fala são as chamadas "Black Fridays". Black Friday é o nome que se dá, desde 1952, ao dia após o Dia de Acção de Graças, devido à enorme afluência de compradores nas lojas. Na altura, tal foi o caos, os acidentes e a violência que ocorreram, que passou a ser visto como um "dia negro", tal como a Black Thursday (24 de Outubro de 1929, dia em que se iniciou a Grande Depressão). Em 2017, segundo o The Balance, a média de gastos por comprador na Black Friday ronda os 967 dólares, um aumento de 200 dólares em relação à edição de 2007. 
    O excesso de oferta e o consecutivo excesso de procura criaram o mundo caótico em que vivemos, especialmente na época natalícia. O Natal, inicialmente um feriado religioso cristão, marca o início do Ciclo de Natal (tendo este 12 dias de duração) que termina no Dia de Reis. A troca de presentes e cartões, a Ceia de Natal, as músicas natalícias, as decorações, e principalmente, a partilha deveriam diferenciar este feriado dos outros. Actualmente, o Natal destaca-se pela época de maior consumo de bens, chegando esta época a representar entre 30 e 40% das vendas anuais na maioria das empresas.  Multidões invadem as lojas e atropelam-se em busca do presente perfeito, mais caro ou mais raro. As crianças fazem listas intermináveis de brinquedos de que "precisam" e pelos quais, caso não os recebam, têm o direito de chorar. Há uma diferença entre o produto consumível e o não consumível (ex: caixa de chocolates Vs saco de pano): mesmo que a intenção de quem dá seja igualmente boa, o produto consumível é sempre inferiorizado pois é finito. Existe uma necessidade insaciável de obter bens materiais e de os comparar com os de quem nos rodeia. 
    O Homem encontra-se alienado, absorvido pelo capitalismo. Põe a sua vida nos objectos. Torna-se mais pobre quanto mais riqueza produz, isto é, quanto mais ele produz menos pode possuir, submetendo-se assim ao domínio do seu próprio capital. Como poderíamos inverter este crescente processo de Alienação?

  A educação e a consciência dão-se no berço, portanto, um exemplo prático para alterar este pensamento seria a renovação dos valores transmitidos às crianças. No Natal, a pergunta a fazer-lhes seria "o que queres dar este ano?" e não "o que queres receber?". Assim, uma pequena alteração na palavra poderia fazer uma notável diferença. Mais uma vez, surge como solução o valor da Língua.


terça-feira, 19 de dezembro de 2017

O significado da Língua

  Segundo Saussure, a melhor forma de entender que a Língua é, de facto, imaterial, é comparando-a com uma partida de jogo de xadrez.

 A abstração surge então como condição sine qua non para o total entendimento desta relação metafórica. Isto é, aqui encontramos analogias entre a perspectiva da língua e o jogo de xadrez enquanto partida, e não enquanto objeto coisificado no conjunto tabuleiro e peças.
Surge então o valor da língua, que apenas existe porque há relações estabelecidas entre as partes. Logo, se num jogo de xadrez o cavalo branco for retirado do tabuleiro e como seu substituto for colocado um anel, a partida dar-se-á de igual forma; basta haver concordância entre os jogadores. O mesmo podemos afirmar sobre a Língua: os elementos que a constituem não têm valor nenhum em si, não fazendo sentido serem considerados isoladamente. 


  Assim, o tabuleiro de xadrez é o mundo, as peças são os fenómenos do Universo e as regras do jogo são as leis da natureza. Se não houvesse regras, de nada serviriam o tabuleiro e as peças. Ou seja, independentemente do valor do tabuleiro como objeto, são as peças que sobre ele adquirem valores numa dinâmica de movimentos previamente convencionados.
   Se considerarmos apenas a imagem de um pequeno cavalo branco de marfim (o aspecto material do signo), vemos que não existe nela nada de intrínseco que remeta para aquilo que reconhecemos como uma peça de xadrez. O conceito "peça de xadrez" resulta de uma relação contratualmente estabelecida pelos falantes da língua.
  Também no nosso dia-a-dia podemos encontrar diferentes exemplos de conceitos estabelecidos entre a sociedade em que vivemos: uma meia, tanto pode ser usada como uma peça de roupa como pode ser um fantoche, se assim o fizermos dela. Um peão, "todo o ser humano que se situa ou se desloca na via de domínio público ou privado" só se torna num ao circular na via pública porque o Código da Estrada assim o estabeleceu.