Mostrar mensagens com a etiqueta 11133. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 11133. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

A Cena do Ódio, de Almada Negreiros



Li pela primeira vez estes versos, na ténue e até frágil sensibilidade dos meus 15 anos. Admito que na altura, pouco consegui extrair do poema que me fosse concreto; havia algumas “buzzwords” que mais me chamavam à atenção: “Sou Vermelho-Niagára dos sexos escancarados nos chicotes dos cossacos!” 
Sabia lá eu o que eram sexos escancarados, cossacos, ou um Pan-Demonio-Trifauce, mas a maneira com que Negreiros escrevia cada verso apelava-me de uma maneira incontornável, a sua escrita falava-me tão intimamente que apenas lia, pois soava tão erradamente bem. 

“A Cena do ódio”, bem como vários outros títulos de poemas de Almada Negreiros, apela à revolta e inadmissão de valores conservadores perante a revolução de 14 de Maio de 1915, paralelos à receção e crítica d’Orpheu enquanto publicação legítima e inovadora. A data é referida na mesma introdução do poema, assim como a menção de que se tratam de “excertos de um poema desbaratado escrito durante os 3 dias e 3 noites” que a mesma revolução durou.

“Tu arreganhas os dentes quando te falam d’Orpheu
e pões-te a rir, como os pretos, sem saber porquê.
E chamas-me doido a Mim
que sei e sinto o que Eu escrevi!
Tu que dizes que não percebes;
rir-te-hás de não perceberes?”

A pluralidade quase megalómana da expressão que se apodera da obra de Almada Negreiros nunca passa despercebida, a riqueza expressiva dos inúmeros vocativos, de pontuação, da indignação demarcada para com o presente com o qual se deparou, todas estas características da sua obra podem ser (re)visitados através deste poema. De uma maneira quase irónica, observo o quão universal e intemporal a raiva e angústia de Almada Negreiros é para com o mundo; para com “pindéricos jornalistas”, “robertos fardados”, “beleza canalha” e ““sanfona-saloia do fandango dos campinos”, para nomear alguns.

É expressamente revoltado porque não o deixam ser, ou porque lhe “ladram a vida” apenas por fazer o expectável e a viver. Há uma tremenda sobeja nele quando endereça todas as entidades que não ousam deixá-lo ser; 
Curiosamente foi essa mesma “crítica” que esgotava todas as publicações de Orpheu, edição após edição, pois apesar de degenerados, loucos ou apenas iludidos, estes homens revelaram-se uma força definitiva na arte da palavra, e quanto a Negreiros, na Arte, ponto final.

Este poema foi descrito pelos seus contemporâneos enquanto sendo definidor da vanguarda da época, e um verdadeiro “grito de raiva atávica”. Apesar do mesmo, e da violência que o marca, poder ser de alguma forma legitimado pelas circunstâncias de cariz bélico, denota-se que a mesma agressividade com que Negreiros se dirige à dita “revolução”, da mesma maneira pode ser aplicada somente aos seus contemporâneos atacantes que insistiam nas suas acusações e reforças de que o artista era apenas louco. 

Perante a leitura de qualquer um, ou a plenitude de todos estes versos, é-nos impossível não refletir no quão arrebatadora a mensagem presente é. Há um misto de emoções ligadas à paixão efervescente e raivosa de Almada enquanto afirma ser quase omnipotente no que faz e diz, no que é; uma multiplicidade de matéria e alma como se fosse uma força que ainda não foi legitimamente reconhecida pelos seus pares. 

“Sou ruinas razas, innocentes como as azas de rapinas afogadas. Sou reliquias de martyres impotentes sequestradas em antros do Vicio e da Virtude. Sou clausura de Sancta professa, Mãe exilada do Mal, Hostia d'Angustia no Claustro, freira demente e donzella, virtude sosinha da cella em penitencia do sexo! Sou rasto espesinhado d'Invasores que cruzaram o meu sangue, desvirgando-o.”

A vigorosa e quase destemida atitude com que Almada declama cada verso entranha-se-me nos olhos, ouvidos e poros. Não há como não sentir a fúria permear cada centímetro do eu poético que se depara com tão inderrogável maneira de ser, de se revoltar, de se negar a conformismos e insistir em contrariar pelo seu próprio bem e futuro da Arte como a conhecemos. Que não iria ser uma qualquer calúnia ou ataque à sua sanidade mental que o iria parar, que ele é tão mais colosso do que qualquer praga que lhe possam rogar. 

“Hei-de, entretanto, gastar a garganta a insultar-te, ó bêsta! Hei-de morder-te a ponta do rabo e pôr-te as mãos no chão, no seu logar! Ahi! Saltímbanco-bando de bandoleiros nefastos!”

“A Cena do Ódio” é, pessoalmente, um ponto de choque e viragem na perceção contemporânea de Negreiros sobre as reformas do pensamento e criação artística; da negação aos que negam a própria mudança, “Uma bofetada na cara do gosto público”, um chuto nas noções deveras ultrapassadas do que é legítimo na era literária que o rodeava, um pêro em quem o duvidava.
Negreiros não receia invocar nomes horripilantes cujas sílabas carregam tragédia, sede sanguinária ou um puro apetite por destruição, tal como Átila e Nero; temas como Pompeia, Sodoma, “corrente com suores do Brazil”, e “sete pragas sobre o Nilo”.

“Larga a cidade masturbadora, febril, rabo decepado de lagartixa, labyrintho cego de toupeiras, raça de ignobeis myopes, tysicos, tarados, anemicos, cancerosos e arseniados! Larga a cidade! Larga a infamia das ruas e dos boulevards, esse vae-vem cynico de bandidos mudos, esse mexer esponjoso de carne viva, esse sêr-lêsma nojento e macabro, essess zig-zag de chicote auto-fustigante, esse ar expirado e espiritista, esse Inferno de Dante por cantar, esse ruido de sol prostituido, impotente e velho, esse silencio pneumonico de lua enxovalhada sem vir a lavadeira!”


Há uma certa unanimidade na categorizarão deste poema enquanto uma obra esteticamente futurista, pelos motivos violentos e sensuais que carrega em si, havendo menções explícitas de masturbação, inferno, tarados, chicotes, entre outras expressões que demarcam, sem dúvida, a agressividade pelo progresso e não conformismo que o movimento futurista tanto apregoa. Também me salta desde sempre à atenção o próprio espírito destemido de Almada Negreiros em denunciar os seus antepassados e contemporâneos e o desleixo em relação às artes, mencionando que o mesmo povo que se regozija e vangloria por ter criado Camões no seu berço (o próprio país), foi o mesmo que o deixou, em carreira desmoronada, morrer à fome. 

E inda há quem faça propaganda disto: 
a pátria onde Camões morreu de fome 
e onde todos enchem a barriga de Camões! 

É-me dificílimo analizar escrupulosa e meticulosamente esta obra, que tanto me dizia na altura sobre o tempo em que o artista viveu, como me diz sobre o tempo em que agora me deparo. Enquanto jovens, a formarmos-nos numa Academia que preza gerar novos e hegemónicos movimentos artísticos, considero indispensável não deixar de olhar para artistas e poemas como estes, e que haja sempre alguém com tal destemido, que nunca deixe o palco artístico de Portugal cair sobre si próprio, por aparências ou falta de resiliência, que nunca deixemos o panorama das artes em que participamos cair em desuso, aborrecimento, hábito ou ferrugem.





poema aqui
ou poderá decarregar/consultar o arquivo do Projeto Gutenberg sobre as obras Almada Negreiros (em específico) aqui




sábado, 23 de dezembro de 2017

A deusa

Debruço-me sobre a exaltação da tecnologia, do caloroso abraço ao metal, sobre o quão indispensável nos é algo que é, de facto apenas um carro; de como tratamos um objecto ou algo material, por vezes melhor do que tratamos a singela essência de um ser humano.

Ao ler o texto de Roland Barthes, entitulado de “O novo Citroen“, o meu pensamento é inundado com uma espécie de impressão no fundo de minha cabeça, uma dormência da qual não me consigo livrar. Após reler algumas das passagens do artigo, começo por me aperceber que qualquer possível trecho deste texto seria passível de adornar um outro qualquer parágrafo de uma carta de amor à máquina, de uma dedicatória a uma engrenagem qualquer; enfim, a palavra que quero de facto introduzir de modo a desenvolver a questão é mesmo a de “ode”. Ode esta que me leva à mesma associação que a minha cabeça tanto quis fazer ao ler o texto de Barthes: A exaltação que é feita de um, agora, mero chaço em rodas, é a mesma que outrora li, numerosas vezes, presentes em versos de Álvaro de Campos, mais especificamente na emblemática Ode Triunfal. 


Recordo-me algo chocada ou apenas perplexa pela quantidade de emoções que o poeta transpunha para papel acerca de algo que me parecia, mesmo na sua quinta-essência, ser meramente útil, mas nunca digno de toda aquela euforia, idolatria ou adoração. Após uma mais cuidadosa e até madura reflexão, apercebi-me de que o que ambos estes autores descrevem, na panóplia de escritos futuristas em que já consegui tocar, é algo tão maior que nós, mas simultaneamente um prolongamento do ser humano. 

O próprio nome do automóvel, figura nele um wordplay: D-S, lido em francês, onde o modelo nasce; Déesse, deusa. Será algo problemático associar a feminilidade ou dar a uma máquina algo que transcende, na etimologia das coisas, uma mulher mortal? Será escárnio ou desdém, experienciar uma peça de literatura que descreve uma pilha de engrenagens, metais, locomotivas, o mesmo futuro e progresso da indústria, com a formosura de uma mulher esbelta? Há espaço para comparações e analogias, no entanto há também um ponto fulcral sob o qual refleti, relativamente ao artigo de Lucia Re "Futurism and Feminism" em que é abordada a questão sexual e feminina implícita na literatura futurista, que se revela, sem qualquer apologia ou ressalto contraditório, como sendo uma doutrina abertamente misógina, que não tem qualquer problema em excluir as mulheres da sua narrativa ou expansão enquanto movimento artístico e humano. 
Sendo possível observar a esporádica participação da mulher enquanto artística, mas a sua figuração presente em inúmeras obras, pergunto-me qual é o valor do feminino neste movimento, e será que o mindset de que é aceitável a feminilidade figurar na Máquina, mas não no estandarte artístico ainda se apresenta como uma realidade? 
Barthes refere-se a esta deusa enquanto arte humanizada, e uma "metamorfose na mitologia automobilística", ao ler o mesmo artigo na língua inglesa é-me possível sentir com mais intensidade, até, o que Barthes e o mundo sentem aquando da observação desta deusa:

        "it is the great tactile phase of discovery, the moment when visual wonder is about to receive the reasoned assault of touch (for touch is the most demystifying of all senses, unlike sight, which is the most magical). The bodywork, the lines of union are touched, the upholstery palpated, the seats tried, the doors caressed, the cushions fondled; before the wheel, one pretends to drive with one's whole body. The object here is totally prostituted, appropriated: originating from the heaven of Metropolis , the Goddess is in a quarter of an hour mediatized, actualizing through this exorcism the very essence of petit-bourgeois advancement." - Roland Barthes, O Novo Citroen - in Mitologias, 1957

Concluo esta reflexão por reafirmar que revejo a essência do progresso e a mesma euforia de ver o mundo a eclipsar o passado desnecessário ou negro, e a pavimentar para todos nós um universo onde o triunfo da tecnologia pode continuar a metamorfosear-se neste movimento. No entanto, sublinho que todos nós temos direito a um lugar no progresso, e que ao prezarmos manter um "sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho", continuemos a manter no nosso íntimo a nossa qualidade crua e humana que veio antes de qualquer locomotiva ou cilindrada.


beatriz neto, pintura, 11133