Mostrar mensagens com a etiqueta 10222. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 10222. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Gran Torino

“Gran Torino” tem como protagonista Clint Eastwood que interpreta Walt, um velho racista e reformado de Detroit, e que mantém sempre a sua espingarda pronta para usar, é um homem cheio de energia da qual maioria usa para se conter. Cada palavra, parece-me ter vindo de um lugar profundo.
Walt Kowalski chama aos seus vizinhos asiáticos do lado de "gooks" e "chinks" e tantos outros nomes. Quando ele conhece Thao, o adolescente Hmong que mora ao lado, ele leva-o ao seu barbeiro para lhe dar uma lição sobre como os americanos falam. Ele e o barbeiro chamam um ao outro de “Polack” e “dago” e assim por diante, na esperança que Thao entrasse nesse espírito. Pessoalmente achei esta cena longe de ser realista e perguntei-me o que Walt estava a tentar realmente a ensinar a Thao. Então ocorreu-me que o próprio Walt não sabia que não era um situação realista.
Walt é muito protetor do seu próprio território sentando-se no seu alpendre defendendo a ideia de que a o direito de andar pelo mundo acaba no momento em que se entra no seu quintal (“Get of my lawn”). Walt permanece no seu alpendre durante todo o dia, quando não está a reparar o seu premiado Gran Torino de 1972, um carro que ele ajudou a montar na linha de montagem da Ford.
A dada altura ele observa um grupo de gangsters Hmongs a tentar influenciar Thao e acabando por o pressionar a roubar o Gran Torino. Walt apanha-o a tentar roubar o carro e então a sua irmã Sue vem lhe pedir desculpas pelo irmão em nome da família e oferece-lhe os serviços do irmão em tarefas como compensação por ele lhe ter tentado roubar o carro que ele relutantemente acaba por aceitar. Quando Sue é ameaçada por alguns gangsters negros ele intromete-se para a defender porque esta na sua natureza ser protetor.
Devido a estes acontecimentos e pela ligação que ele ganha com Thao ao longo do tempo que ele está ao serviço de Walt ele acaba por ganhar uma ligação muito forte a esta família embora Sue tenha que explicar que os Hmong são pessoas da montanha de Laos e que eram aliados dos Estados Unidos e que acharam conveniente deixar sua terra natal.
Quando ela o convence a se juntar-se a uma reunião familiar, Walt inconscientemente chama-os de "gooks" e "dragon lady" a Sue, e eles parecem não se incomodar com isso, embora muitos deles não falarem inglês. Walt parece desconhecer que seu papel é aceitar a sua hospitalidade, embora gostar de quando o enchem de comida tradicional Hmong.
Walt não pede desculpas por quem ele realmente é e pela sua personalidade, por isso, quando ele decide que gosta mais dos vizinhos que a sua própria família, pessoalmente acho que é significante e que um momento de grande desenvolvimento por parte do personagem.

Eu acho que "Gran Torino" é principalmente a cerca de duas coisas. É sobre a maturação tardia da melhor natureza e caráter de um homem. E é sobre os americanos de diferentes raças crescendo mais abertos uns aos outros no novo século. Isso não envolve nenhum tipo de grande transformação. Implica apenas começar a ver os tais "gooks" como pessoas que podes amar.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

O valor do trabalho

Karl Marx afirma que “O trabalhador torna-se mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais a sua produção aumenta em poder e extensão.” Esta lógica pode ser aplicada atualmente ao desenvolvimento de peças de autor.
O movimento “Arts and Crafts” acreditava numa arte para o povo defendendo que a produção de objetos deveria ser artesanal utilizando as melhores matérias primas e através das melhores técnicas. Este processo de fabrico gerava objetos de alta qualidade que, consequentemente, tinham preços muito altos comparados com os outros produzidos industrialmente em grandes quantidades. Isto pode ser observado atualmente, comparando objetos de autor criados por designers aos objetos do quotidiano, em que os primeiros, devido à relação entre a sua forma e função e à grande qualidade dos materiais acabam por ser produzidos em menores quantidades e com preços mais elevados do que os segundos produzidos industrialmente. Esta cadeia de acontecimentos demonstra que os objetivos do movimento “Arts and Crafts” não passavam de uma utopia.

Esta tentativa de trazer a arte para o povo veio em resposta à primeira exposição universal devida à falta de qualidade nos objetos produzidos industrialmente pelas máquinas que apesar de possuírem um bom valor estético falhavam na qualidade dos materiais e na sua função, dai exaltarem a produção artesanal e o valor do artesão em relação às máquinas. Com a utilização das máquinas, o artesão passava a ser apenas um operário, como diz Karl Marx “com a valorização do mundo das coisas aumenta em proporção direta a desvalorização do mundo dos homens”, o movimento “Arts and Crafts” defendia que o artesão durante o processo de criação do objeto deixava um pouco de si dentro no objeto contribuindo para a aura do objeto. Atualmente, nas peças de autor, o artesão é tao importante como a peça, exatamente pela individualidade que o objeto ganha ao ter sido concebido por esse designer, o que contrasta com o método de produção industrial em que quem é valorizado é a marca que o produz e o trabalho de todos os operários que o construíram é desvalorizado, corroborando o pensamento de Marx de que “Quanto mais o homem atribui a Deus, tanto menos guarda para si mesmo.”

domingo, 24 de dezembro de 2017

Yeezy 350 V2, o Citroen DS do Streetwear



     Em 1957, Roland Barthes classificou o automóvel Citroen DS como um «objeto perfeitamente mágico», «um objeto superlativo» caído «manifestamente do céu», como se de uma divindade se tratasse, ao ponto de lhe chamar déesse (divindade, deusa). Comparou o mesmo automóvel às catedrais góticas e considerou-o o novo Nautilus, dada a novidade e excecionalidade para a época. Estes objetos, cada um no seu contexto, tornam-se quase divindades na sua área, símbolos de poder e estatuto social, garantindo ao seu portador quase que um pedestal perante os seus pares. Na sociedade atual, baseada maioritariamente em aparências, em que a cultura do Streetwear reina, os ténis Yeezy 350V2 acabam por atingir um estatuto similar ao que o Citroen DS alcançou na sua época. 
     Em dezembro de 2016, a Adidas lança os Yeezy 350V2 numa vibrante parceria com o repper Kanye West. A carismática marca desportiva veio a somar pontos com estes originais sapatos de streetwear fruto do namoro entre o ícone musical e a moda e que se tornaram rapidamente num topo de gama do calçado desportivo. Do design aerodinâmico e arrojado aos materiais confortáveis e leves, os Yeezy são inovadores até no nome, por serem batizados com a alcunha do repper norte americano que influencia milhares de fãs com a sua não menos icónica companheira Kim Kardashian. Os ténis Yeezy fazem parte do seu invejável look
     Os Yeezy 350V2 são o resultado do apuramento dos Yeezy 350, lançados meses antes, em 2015, só que muito mais bonitos e atrativos. O público cobiçou-os desde logo, deixando cair lenta e gulosamente o queixo sempre que vão surgindo novos esquemas de cores, tornando-os um grail para muitos sneakerheads por esse mundo fora. Das lojas Adidas ao site da Yeezy Suply estes sapatos são tão procurados que esgotam num intervalo de tempo certamente menor do que algumas das músicas do repper que lhes dá o nome. 
     Estes Yeezy 350V2 estão para a moda do calçado como o Citroen DS esteve para o mundo do automóvel, «uma criação que faz época» e, por isso mesmo, deles se fizeram já inúmeras imitações. Quem os consegue obter alcança um certo status entre os apreciadores. Tal como os possuidores do Citroen DS, também os donos de uns Yeezy 350V2 sentem que têm algo especial, um «objeto superlativo». Cada Yeezy 350V2 é constituído apenas por três elementos - sola, tecido e atacador. E se «o liso é sempre atributo da perfeição», como disse Barthes, os Yeezy são perfeitamente «lisos», sem uma ruga, um vinco ou uma dobra, feitos de uma só peça de tecido implantada numa base única, sem branding visível, apenas com a inscrição invertida « Sply – 350». O tecido tem uma única junção, ao centro, da biqueira à língua, uma única costura discreta. A língua dos Yeezy 350V2 está incorporada, sem cortes laterais, graças ao mágico tecido de primeknit (malha ultra leve e flexível da Adidas) que permite um impecável ajustamento, formando uma segunda pele que envolve o pé num conforto quase divino. A sola de boost é leve e macia devido à sua constituição esponjosa o que permite caminhar sobre este calçado o dia inteiro sem se pensar no assunto…é como andar sobre uma nuvem! Estes ténis são “objetos perfeitamente mágicos” como se fossem meias perfeitas em que os pés se acomodam para cumprir as suas funções. 
     Tal como Barthes notou no Citroen DS «um certo aerodinamismo», também nos Yeezy 350V2 se encontram certas linhas aerodinâmicas que os tornam ainda mais inovadores. A propósito do famoso Citroen DS, Barthes referiu que até então “o automóvel superlativo fazia parte do bestiário do poder”, como atualmente fazem os Yeezys, devido sobretudo à sua exclusividade e por estarem diretamente relacionados à figura de Kanye West. Quer os Yeezys, quer o Citroen DS parecem completamente caídos do céu, destinados à população com o objetivo de conjugar perfeitamente a sua forma e função, tornando-se, assim, um ícone da cultura em que estão inseridos.




Referências
Barthes, Roland (1957/1988) «O Novo Citroën» In Mitologias. Lisboa: Ed. 70.