Mostrar mensagens com a etiqueta 10652. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 10652. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Exposição «Meus pequenos amores/my little loves», Sharon Lockhart — Recensão

Numa visita ao Museu da Coleção Berardo, tive a oportunidade de ficar a conhecer a obra de Sharon Lockhart, artista norte-americana que tem vindo a desenvolver trabalho — no âmbito da fotografia e do vídeo — sobre a temática da infância e da adolescência na Polónia. A exposição está alojada no piso -1, numa sala comprida, escura e de teto baixo. As fotografias emolduradas e projeções vídeo estendem-se pelo corredor compartimentado e, a meu ver, perdem força pela carência de amplitude expositiva e luminosidade.

O sugestivo título da exposição «Meus pequenos amores/my little loves» suscita, à partida, a existência de uma forte relação da artista com as crianças e adolescentes fotografados, como se as imagens em questão contassem não somente a história do retratado, mas também a de Sharon Lockhart, que se coloca atrás da câmera. De facto, o que me despertou interesse em visitar esta exposição foi o facto de, no passado, já ter trabalhado com crianças e de me ter ocorrido documentar essa experiência através de um registo fotográfico.
“Recentemente perguntaram-me como é que eu tinha feito a diferença na vida destas miúdas... Fiquei espantada, porque a pergunta devia ser ao contrário — foram elas que me mudaram, sou eu que já não sou a mesma.” [1]
As fotografias são visualmente sugestivas, devido aos seus fortes contrastes cromáticos e brilho intenso, que por vezes sugerem uma relação de semelhança com a pintura a óleo. Contudo, no decorrer da visita, o que me despertou mais a tenção no conjunto foi a qualidade de estudo e de encenação das obras. Isto é, a sensação de que os retratos, apesar de autênticos, foram altamente ponderados e que na sua composição não se equaciona o fator «acaso». De facto, a utilização da câmera fixa e as sequências narrativas sugerem o recurso à reencenação.

[2]

A personagem «Milena» é recorrente na obra de Lockhart, tendo sido ela quem a introduziu ao centro de Rudzienko, palco onde foram captadas grande parte das obras expostas. A observação da sequência de três fotografias, patente acima, foi para mim particularmente curiosa porque só num último momento, me é revelado o rosto da retratada, ainda que com alguma reticência.

Já no final da visita, na última sala, deparei-me com várias de cópias de uma folha de jornal polaca, que havia sido traduzida para português e que podia ser levada pelos visitantes. Só mais tarde, ao pesquisar, fiquei a saber que se tratava de reprodução do suplemento semanal «A Pequena Revista» escrito por crianças e publicado com o diário judaico «A Nossa Revista», entre 1926 e 1939. Saí da exposição com um exemplar na mão e de seguida, nos transportes, li alguns excertos. Na minha perspetiva, são pequenas subtilizas como esta — uma folha que pode ser levada para casa — que enriquecem a experiência do visitante, fazendo com que este tome a liberdade de fazer uma segunda reflexão acerca do que viu, ainda que já não se encontre no local.


[1] Lockhart, S. (Entrevista). Aqui Toda a Vida é Encenada. Canelas, L. Jornal Ípsilon. Acessível em: https://www.publico.pt/2017/10/25/culturaipsilon/noticia/aqui-toda-a-vida-e-encenada-1790060

[2] Milena, Jaroslay, 2013, 2014. Três provas cromogéneas com moldura.

Rita Russo | 10652 | Design de Comunicação

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Uma abordagem democrática à questão da Inteligência Artificial — «Do You Speak Human?»

No final do ano de 2017, o tópico «Inteligência Artificial» parece ter ressurgido no discurso das plataformas culturais atuais — em jornais, revistas, conferências e um pouco por toda a internet. Naturalmente, levantam-se preocupações generalizadas acerca da questão dos algoritmos tendenciosos, do desenvolvimento de uma economia cada vez mais automatizada e da imposição de uma cultura de controlo e vigilância abusiva, entre outras. Sublinhe-se, ainda, uma visão mais alarmista, que se questiona acerca da capacidade da AI de mimetizar a raça humana e de se tornar uma ameaça existencial para a humanidade.

Esta tecnologia emergente encontra-se a ser desenvolvida por um grupo muito restrito de pessoas, em laboratórios ou empresas que se situam maioritariamente na China, nos Estados Unidos da América ou em Inglaterra. Isto significa que o software e hardware que visa servir (ultimamente) a humanidade, se encontra de momento nas mãos de um diminuto grupo laboral e empresarial, de engenheiros, cientistas e economistas.

Posto isto, o laboratório SPACE10 — «laboratório da vida futura, numa missão de melhor projetar a vida e de um modo mais sustentável» — lançou o projeto «Do You Speak Human?». Este procura compreender, através de uma plataforma online interativa, o que é que o humano atual procura obter da Inteligência Artificial e subsequentemente dos seus assistentes pessoais, procurando a democratização da discussão.

We launched «Do You Speak Human? » to start a conversation and encourage more people to think about the kind of relationship we should establish with this emerging technology. [1]

Algumas das perguntas que se colocam são as seguintes: Um assistente AI deve ser masculino, feminino ou neutro em género? Deve responder às suas emoções e satisfazer as suas necessidades, mesmo sem que lhe seja pedido? Deve mimetizar o humano, ou comportar-se como um robô? [1]

Figura [1] — Resultados às perguntas do estudo no website Do you speak human? — Acessível através do seguinte link: http://www.doyouspeakhuman.com/



Os resultados — que estão em constante atualização no website — demonstram uma tendência preferencial à humanização da Inteligência Artificial: 73% dos inquiridos respondeu que gostaria que o seu assistente se assemelhasse a um humano, contra 23% que manifestou preferência por um comportamento robótico. As restantes respostas são acessíveis através do link supramencionado.

Conclui-se que este é um tópico que continuará a dividir opiniões e a gerar um certo alarme na vida atual (e que em muito se relaciona com questões identitárias e culturais). Contudo, e terminando numa nota positiva, é particularmente interessante verificar que se combinam esforços para que esta nova tecnologia seja democratizada e projetada tanto à medida do humano como do planeta.

Rita Russo | 10652 | Design de Comunicação

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

O Mundo em Diáspora — Uma Leitura de Arjun Appadurai

O meu primeiro contacto com a obra de Arjun Appadurai surge através da Bienal Experimenta Design 2017 Before & Beyond, que marcou o fecho da mesma. Assumindo um carácter retrospetivo, esta última edição visou revisitar algumas temáticas lançadas em anos anteriores. Appadurai marcou presença com o tema No Borders (Sem Fronteiras). O seu discurso sobre a globalização centra-se, sobretudo, numa tentativa de compreensão de como este fenómeno tem afetado e influenciado a vida humana na modernidade, acreditando que o seu maior impacto se tem exercido na cultura. O sua obra despertou-me interesse devido à sua originalidade e tremenda atualidade, mais especificamente, na sua definição de cultura e subsequentemente na sua relação com a cultura visual e com os estudos culturais marxistas. 

Ao definir cultura, urge a necessidade de fazê-lo num contexto atual, caracterizado por um constante fluxo de pessoas e mercadorias, onde o rompimento de fronteiras tem vindo a impedir que a cultura esteja confinada a um espaço físico e geográfico delimitado. Appadurai propõe cinco dimensões (paisagens) de fluxos culturais a nível global, que se caracterizam da seguinte forma:

etnopaisagens: migração de pessoas entre culturas e fronteiras que se constituem num mundo em constante deslocamento;
tecnopaisagens: interações e intercâmbios culturais através do poder da tecnologia — que permite transpor fronteiras antes impenetráveis — ocorrem agora a velocidades sem precedentes;
financiopaisagens: trata-se da paisagem mais imprevisível, a disposição do capital global e local (mercados e bolsas) altera-se mais rapidamente do que nunca;
mediapaisagens: aproxima-se da noção de cultura visual, i.e., constituem-se enquanto vastas coletâneas de imagens e narrativas que são disseminadas por espectadores de todo o mundo;
ideopaisagens: fortemente relacionadas com as mediapaisagens, são repertórios de imagens utilizados pelas nações para construir um discurso ideológico.

Apreende-se, portanto, que estas cinco fluídas paisagens — intrinsecamente conectadas entre si —contribuem para a construção de múltiplas realidades, uma vez que uma narrativa ou imagem se altera segundo o contexto do seu espectador. Estas múltiplas narrativas sugerem, ultimamente, a existência de um "mundo imaginado”. Questiona-se então: De que modo actuam estas construções imaginárias e virtuais sobre a produção de localidade? De que forma é que a identidade do humano se molda na sua relação com a emergência de “bairros virtuais”?
“A imaginação está agora no centro de todas as formas de ação, é em si um facto social e é o componente-chave da nova ordem global. (…) Vivemos em mundos imaginados, e não apenas comunidades imaginadas.“

Lista de Referências

[1] Appadurai, A. 2004. Dimensões culturais da globalização: a modernidade sem peias. Lisboa, Teorema. 304 pp.

[2] M. Hogan, A. (2010). Appadurai's 5 -scapes. Amherst College. Disponível em: https://www.amherst.edu/academiclife/departments/courses/1011F/MUSI/MUSI-04-1011F/blog/node/229354

[3] Robinson, A. (2011). An A-Z of theory Arjun Appadurai. CeaseFire. Disponível em: https://ceasefiremagazine.co.uk/in-theory-appadurai/


Rita Russo | 10652 | Design de Comunicação