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quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

The Matrix



The Matrix é um fenómeno cinematográfico que marcou uma inteira geração. Esse fenómeno pode ser compreendido se considerarmos a quantidade de influências, ideais filosóficos e a qualidade revolucionária de efeitos visuais, que impregnam ou se concentram no filme de acção e ficção-científica lançado em 1999 pelos Wachowski Brothers.
    A história inicia-se com Thomas A. Anderson, um simples programador de software que leva uma vida dupla. À noite é um hacker que assume uma identidade diferente sob o apelido de Neo. Neo sente que há algo de errado com a sociedade e depara-se com uma pergunta constante: "O que é o Matrix?". Essa pergunta irá conduzi-lo as duas personagens que determinam o resto do seu percurso: Morpheus e Trinity, dois dos representantes daquilo a poderíamos chamar uma subcultura, membros de uma resistência que procuram revelar as ilusões que têm vindo a ser perpetuadas sobre o mundo.  Morpheus revela-lhe então que o mundo que ele conhece na realidade não existe, consiste apenas numa simulação virtual à qual é dada o nome de Matrix e oferece-lhe dois comprimidos: um azul, que o fará manter-se na sua vida quotidiana ou um vermelho, que lhe permitirá perceber finalmente o que é o Matrix.
    Após abrir a porta desse novo mundo, Neo descobre que a humanidade encontra-se num futuro pós-apocalíptico: as máquinas, dotadas de Inteligência Artificial superaram os humanos quando eles as tentaram destruir, passando a cultivá-los como fonte de energia e criando o Matrix para poderem controlar as suas consciências. Os poucos humanos que conseguiram libertar-se criaram a resistência.  Ao início, Neo entra em choque e recusa-se a acreditar, mas finalmente percebe que o mundo que conhecia não é real e que não pode voltar atrás, por mais que queira. Morpheus fala então a Neo sobre a profecia de que um dia um humano denominado o Escolhido (the One) iria liderar a resistência e ganhar a guerra contra as máquinas e libertar o resto dos humanos. Ele acredita que Neo, cujo o nome é curiosamente uma anagrama de One, é o Escolhido.
    Ao longo do filme insinuam-se uma série de questões filosóficas, como por exemplo, a alusão feita à "Alegoria da Caverna" de Platão, na cena em que Neo renasce e pergunta porque é que os seus olhos doem. Esta é uma clara referência ao mito de Platão: Neo tem estado aprisionado durante toda a sua vida até ao momento em que renasce; a dor que sente é uma dor metafórica  que resulta da imposição da verdadeira realidade, que o liberta da cegueira em que vivia, permitindo-lhe ver a verdade para lá do matrix; a verdade é aqui comparada a um sol que tudo ilumina.

    Morpheus diz-nos, “Unfortunately, no one can be told what the Matrix is. You have to see it for yourself.” Esta afirmação não faria qualquer sentido se o Matrix fosse um simples programa virtual, como tal é necessário considerar outras afirmações que a personagem faz acerca do Matrix:

“The Matrix is everywhere. It is all around us. Even now, in this very room. You can see it when you look out your window or when you turn on your television. You can feel it when you go to work, when you go to church, when you pay your taxes. It is the world that has been pulled over your eyes to blind you from the truth. … [Y]ou are a slave, Neo. Born into a prison that you cannot smell or taste or touch. A prison for your mind.”;  “What is the Matrix? Control. The Matrix is a computer-generated dream world built to turn a human being into a battery.”;  “The Matrix is a system, Neo. That system is our enemy. When you’re inside, you look around, what do you see? Businessmen, teachers, lawyers, carpenters. The very minds of people we’re trying to save, but until we do, these people are still a part of that system and that makes them our enemy. You have to understand that most of these people are not ready to be unplugged. And many of them are so inured, so hopelessly dependent on the system that they will fight to protect it.”.

    Quando Morpheus nos fala do ser humano como uma "bateria", torna-se bastante claro que o Matrix é um sistema que transforma os humanos em fontes de trabalho e energia para as máquinas. Esse sistema é o capitalismo que subsiste através da religião, dos governos e empresas: “when you go to work, when you go to church, when you pay your taxes”. Concluímos então que o "Matrix is all around us" mas não o vemos. Porquê? Porque existimos dentro dele, pois ele é ideologia, ou seja, um sistema dominante que conforma o nosso pensamento sem que nos apercebamos. Um sistema do qual somos escravos ("a prison for your mind"), mas pelo qual estamos dispostos a sacrificar-nos para o proteger, ainda que isso signifique a alienação ("You have to understand that most of these people are not ready to be unplugged. And many of them are so inured, so hopelessly dependent on the system that they will fight to protect it.”.

    Alienação é viver num estado de falsa consciência, onde o consumo substitui aquilo que está em falta e representa uma ideia de felicidade, mas na verdade esta é uma experiência abstraída da realidade porque a ideologia é tão mais poderosa quando invisível, isto é, a ideologia tem tanto mais poder quanto mais entranhada está na sociedade como uma coisa óbvia e que ninguém questiona, e a alienação dissimula a ideologia e os mecanismos de poder. Para citar Karl Marx: "O trabalhador relaciona-se com o produto do seu trabalho como a um objecto estranho (...) quanto mais o trabalhador se esgota a si mesmo, tanto mais poderoso se torna o mundo dos objectos, que ele cria perante si, tanto menos pertence a si próprio." (1993)

É o conforto da cultura hegemónica, característica da ideologia que faz com que avancemos na vida sem nunca assumir uma perspectiva crítica sobre a sociedade contemporânea, vivendo numa cegueira colectiva que nos convém: relembremos que no filme, foi o humano que criou as máquinas para depois delas se tornar refém, alimentando sempre a ilusão de que não é controlado pelo sistema.

“Os homens tornaram-se reféns da produção técnica e tecnológica ao tornarem-se reféns de um desejo de totalização- a felicidade completa, o amor completo, o prazer ou o lucro totais- desejo do Um como perfeição em que os limites da finitude, com o permanente desajustamento que eles implicam, seriam ultrapassados.” (1)


(1) Silvina Rodrigues Lopes, O nascer do mundo nas suas passagens, in Intervalo n.6

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018


A ideologia é uma instância do poder que se reforça e se reproduz, servindo-se de ardis para que essa reprodução se dê sem que o seu alvo, as pessoas, se apercebam. Deste modo, a ideologia torna-se um componente fulcral na forma como as marcas e os objectos, bem como as entidades que os produzem, são caracterizadas pelos Media. Marcas que integram os mais diferentes tipos de consumíveis, tais como bebidas, brinquedos, produtos tecnológicos, artigos para casa, entre outros, são frequentemente retratadas através de determinados métodos ou esquemas publicitários de modo a atrair a atenção do consumidor. Muitas das campanhas publicitárias socorrem-se de esquemas ou estratégias que enfatizam uma ideia, em que o consumo ou lucro surgem ligados um lado moral. Assim, associando o consumo a uma causa moral, as empresas procuram associar a sua ideologia a algo positivo e solidário, conquistando com maior facilidade o apoio do consumista, que assim mitiga o seu remorso. Essas ideologias são disseminadas através de diferentes suportes, tais como a televisão, os jornais, as rádios, entre outros, de modo a espalhar a mensagem  o mais plena e unanimemente possível.

No filme, The Pervert's Guide to Ideology, Slavoj Žižek desperta-nos para uma empresa e acção publicitária onde esta situação se verifica: na  Starbuck’s Coffee, à semelhança do que acima foi descrito, a empresa procura evidenciar que, apesar dos seus produtos serem mais caros que outras marcas de café, parte do lucro que fazem reverte para causas morais, de cariz humanitário e ambiental. Žižek diz-nos: When you enter a 'Starbucks' store - it's usually always displayed in some posters there, - their message which is: Yes our cappuccino is more expensive than others - but - and then comes the story: We give one percent of all our income to some - Guatemala children to keep them healthy. For the water supply for some Sahara farmers, - or to save the forests, to enable organic growing coffee...Now I admire the ingeniosity of this solution. In the old days of pure simple consumerism - you bought a product and then you felt bad. My God, I'm just a consumerist - while people are starving in Africa.

Žižek destaca ainda o efeito que a campanha da Starbuck's tem nos seus consumidores, que ao adquirirem os seus produtos segundo esta contrapartida, ressalvam assim as suas consciências, pois deixam de estar numa posição de puro consumismo, ou seja, as causas humanitárias, acabam por surgir como manobra de distracção para o ato de consumo. No passado, a aquisição de um produto não teria este efeito secundário de reverter em favor do mais desfavorecidos, enquanto que agora o consumidor se pode libertar de qualquer sentimento de culpa, pois ao consumir está simultaneamente a contribuir para algo maior que ele mesmo. Este ponto de vista é partilhado por Žižek quando nos diz: What Starbucks enables you is to be a consumerist and - be a consumerist without any bad conscience - because the price for the counter measure, - for fighting consumerism - is already included into the price of a commodity. Like you pay a little bit more and you are not just - a consumerist but you do also your duty towards environment - the poor starving people in Africa and so on and soon. It's, I think, the ultimate form of consumerism.

Por tudo quanto ficou exposto, verifica-se assim o modo como a ideologia impregna o nosso dia a dia e a forma como ela se move, ardilosamente, e se instala nas coisas mais simples do nosso quotidiano, fortalecendo-se e multiplicando-se quanto mais nebulosa é a sua visibilidade.

Excerto do filme "The Pervert's Guide to Ideology":
https://www.youtube.com/watch?v=P18UK5IMRDI&t=1s 


quinta-feira, 21 de dezembro de 2017



 A capa escolhida para edição de janeiro de 2015 da revista ELLE encena, em linhas muito claras, uma figura maternal de aparência cuidada e profissional, que amamenta um recém nascido. A edição em questão incide sobre um dos grandes temas da actualidade: o tabu que persiste relativamente à amamentação em público. Esta edição inscreve-se assim numa campanha que pretende consciencializar e normalizar este acto tão natural e biológico, que é ainda visto com grande preconceito. Esta consciência tem-se vindo a fazer sentir em diversas áreas, nomeadamente alguns artistas e fotógrafos têm vindo a mostrar preocupação e solidariedade para com este tema.
  
Este preconceito parece ter várias origens, sendo uma delas a permanente sexualização do corpo feminino, particularmente dos seus seios. Esta ideia deriva claramente de uma construção cultural ou por outra palavras, de uma ideologia, que não é nada mais do que uma percepção transformada pelo ambiente cultural em que nos inserimos. Para Karl Marx a ideologia mascara a realidade, mostrando apenas sua aparência e escondendo suas demais qualidades.
Se pensarmos, que no sexo oposto, a exposição dessa zona erógena (essencialmente os mamilos) está absolutamente aceite e normalizada e que no entanto, para uma mulher chega a ser ilegal essa exposição, até mesmo quando ela serve apenas necessidades biológicas e maternais como as da amamentação, isto revela o abismo que existe entre a forma como os géneros são encarados na nossa sociedade.
Isto acontece devido à constante sexualização e objectificação do corpo feminino na sociedade. Contudo, essa mesma sexualização é paradigmática: a mesma sexualidade que é usada, aceite e até desejada como objecto de marketing e propaganda nos mais diversos meios, como por exemplo na indústria da música, não é socialmente aceite para servir fins tão básicos e universais como os da amamentação. Esta dicotomia parece ser reveladora das desigualdades existentes entre o sexo feminino e masculino. A sexualidade da mulher parece ainda ser vista como uma ameaça, como algo a ser contido, excepto quando essa função lhe é previamente atribuída. A ideia de "sex sells" é subliminar a diversas campanhas de venda e é assumidamente uma estratégia de marketing, ela está presente nos mais diversos anúncios televisivos de perfumes, carros, gelados, e é essencialmente protagonizada pelo sexo feminino. A publicidade é apenas um subterfúgio, um processo dinâmico através do qual a sociedade procura introduzir uma realidade, o que nos faz invocar o conceito de incorporação. No entanto, e contrário ao que é habitual, nesta campanha ela rema contra a maré e procura incorporar uma questão delicada e ainda pouco falada.

A ideia presente na capa aborda uma perspectiva feminista cujo objectivo é construir condições de igualdade entre os dois géneros e não, como muitas vezes ela é interpretada, de supremacia feminina. O feminismo defende o acesso a direitos iguais para homens e mulheres, direitos universais que não remetam ou restrinjam nenhum dos géneros a concepções culturais que têm vindo a ser perpetuadas: por exemplo, a ideia que a mulher está destinada a ser mãe e dona de casa, enquanto que o homem é aquele que trabalha e sustenta essa vida doméstica. Este entendimento do papel da mulher permite-nos evocar o conceito de hegemonia introduzido pelo marxista António Gramsci: a hegemonia é um pensamento dominante que conforma a realidade, uma convenção tão unanimemente partilhada culturalmente que não é nunca questionada e cuja massiva adesão pode conduzir a uma cegueira ou a uma falsa consciência da realidade. Simone de Beauvoir, uma escritora com forte influência na teoria feminista diz-nos, numa das suas obras mais contundentes, "O segundo sexo", o seguinte: "a experiência vivida, a condição feminina e masculina que parecem estar numa ordem das coisas, não trata o corpo como o corpo em si, mas submetido a interferências, tabus, valores, costumes, o que significa que o corpo é um fruto social e não natural." 

A mudança no entendimento da mulher inicia-se no pós-segunda guerra mundial com a crescente industrialização e urbanização, a inserção da mulher no mercado de trabalho e a criação de um medicamento contraceptivo que permitia o controlo da fecundidade. No entanto, existiam ainda forças conservadoras que defendiam o determinismo  biológico que reservava às mulheres um destino social de mães, confinando-as inevitavelmente à maternidade. Por oposição à concepção que circunscreve a mulher ao papel de mãe, a capa da revista surge como uma resistência a essa concepção hegemónica: nela observamos uma mulher perfeitamente capaz de conciliar estes dois lados, de mãe e profissional, sem ter de abdicar de nenhum deles. Este dois lados são representados pela presença do bebé e pela aparência profissional e informação adicional da profissão da figura feminina. A figura assume ainda uma posição frontal, no sentido em que não tenta esconder o peito, assume o momento de amamentação com naturalidade, a naturalidade de um direito.

    Sobre o mesmo tema, o sociólogo francês Pierre Bourdieu , diz-nos que o que justificaria naturalmente a diferença social e a divisão do trabalho entre os géneros seria a visão social em que a própria diferenciação anatómica entre os sexos segrega os indivíduos, isto é, a própria condição física da mulher, que naturalmente faz a gestação do bebé e o alimenta antes e após a gravidez, fez com que ela fosse relegada o plano da maternidade. Esta ideia de "destino biológico inevitável" levou à dominação e sobrevalorização do sexo masculino, o sexo forte. Foi esta ideia que permitiu chegar à conclusão de que as diferenças de género não eram perpetuadas por condições físicas ou biológicas, mas sim por construções sociais. A nossa actualidade (ainda que não plenamente) e própria capa da revista ELLE vêm mostrar como a mulher é um ser igualmente plural e capaz. Esta perspectiva de género, fortemente influenciada por Beauvoir e a sua célebre frase que a figura feminina "não nasce mulher, mas torna-se mulher", permitiu observar a maternidade segundo várias facetas, ela tanto pode ser um símbolo de poder e realização feminina, como um símbolo de opressão, quando utilizado para diminuir o seu valor e capacidades enquanto ser humano. A faceta dependerá sempre da perspectiva ou ideologia a partir do qual a realidade é percepcionada.

Referências bibliográficas:

FISKE, John (1993), Introdução ao Estudo da Comunicação, Porto, Edições Asa.

Scavone, Lucila, A maternidade e o feminismo: diálogo com as ciências sociais, cadernos pagu 16 (2001): 137-­‐150

http://sociology.about.com/od/Current-Events-in-Sociological-Context/fl/Why-Breastfeeding-in-Public-is-Taboo.htm
https://ensaiosdegenero.wordpress.com/tag/clarice-lispector/