Exposição de Rosemarie Castoro, MACBA
[recensão]
"Na arte, funciono como um ser humano. Meu trabalho baseia-se fundamentalmente na expressão da minha vida... os meus painéis são os meus recipientes."
Rosemarie Castoro
Aquando da minha recente ida a Barcelona tive oportunidade e o privilégio de contemplar a exposição retrospetiva do trabalho de Rosemarie Castoro (entre o período 1964-1979), intitulada "Focar o Infinito" e presente no Museu de Arte Contemporânea desta cidade, até ao próximo dia 15 de abril.
Castoro (1939-2015) começou como artista nos Estados Unidos numa época em que o minimalismo e o concetualismo faziam parte da vanguarda de Nova York. A exposição mostra seu trabalho em detalhes, revelando a diversidade de uma prática artística que inclui pintura abstrata, concept art, ações performativas na rua e no estúdio, poesia, arte postal, escultura, instalações e arte terrestre. O contexto de seu trabalho, o seu ativismo na Coalizão dos Trabalhadores de Arte (Coalizão de Trabalhadores de Arte), que se reuniam no próprio sótão da autora, a sua associação com artistas contemporâneos como Carl Andre, Hollis Frampton, Sol LeWitt e Yvonne Rainer, entre outros, e sua relação com o feminismo.
Apesar do seu compromisso político, Castoro recusou-se envolver-se a fundo no feminismo, que considerava restritivo e uma forma de "segregação".
Castoro começou sua carreira nas artes gráficas. Também se interessou pela dança, enquanto estudava no Instituto Pratt em Nova York, coreografando e realizando as suas próprias criações. Embora mais tarde seu interesse se movesse para a pintura, o que marca o seu trabalho é precisamente o seu modo de ler o espaço a partir da perspetiva da dança e seu reconhecimento da inter-relação entre essas duas formas artísticas.
"Entre 1964 e 1965, Castoro produziu obras abstratas à base de formas gestuais encaixadas como peças de mosaico, que evoluiu para uma unidade básica de forma "Y" e depois em bandas de listras, como raios de luz que se cruzaram ou entrelaçam no espaço."
Lucy Lippard
As suas primeiras obras com maturidade, datam de 1964-1965, são pinturas executadas sobre telas quadradas, mosaicos pictóricos construídos com a forma "Y" e mais tarde com as formas "Y" dispostas geometricamente sobre um fundo monocromático: a composição mínima com o potencial de infinitas repetições (a primeira manifestação do tema do infinito na obra de Castoro). Estas pinturas caracterizam-se pela utilização de cores intensas dispostas em contrastes cromáticos. Uma utilização de cor que mereceu os elogios de Frank Stella. Castoro também estabeleceu amizade com Agnes Martin, cuja influência sobres estas pinturas minimalistas pode-se destacar a precisão da execução e o desenho a lápis.
À medida que a obra de Castor ia evoluindo a artista decompôs a forma "Y" em linhas, distrubuídas por toda a tela. Um distribuição aleatória e aparentemente caótica, ou pequenos grupos sobrepostos seguindo uma pauta gráfica.
Se entendermos que a figura "Y" como a representação do corpo, podemos estabelecer uma relação da pintura com a dança.
"A obra de Rosemarie Castoro põe em evidência o vínculo subtil que existe entre a mente e o corpo - gestual, mas acima de tudo, disciplinado. Seu maior ímpeto é cinestésico."
Lucy Lippard 1
A exploração simultânea de cor e estrutura na pintura foi a sua principal preocupação na sucessiva série dos anos sessenta. Mais tarde, depois de abandonar a cor, Castoro introduziu um novo elemento espacial em seu trabalho com séries de múltiplos painéis de gesso aplicado com escova e cobertos sombreando-os com grafite, suportados diretamente no chão. Exibidos pela primeira vez na Galeria Tibor de Nagy em 1971, são peças de escala arquitetónicas que, apesar de sua origem pictórica, estão mais próximas da escultura minimalista.
A importância da dança como referência é manifestada nos seus diários através de fotografias performativas das suas obras, descritas pelo próprio artista como "recipientes" e cenários para o corpo. Castoro transforma as suas explorações da superfície dos painéis em pinceladas escultóricas montadas na parede. Os seus projetos específicos incluem Galeria Cracking, intervenção arquitetónica de caráter criada para a série de exposições icônicas de Lucy Lippard, Numbers - desta vez 557.087 no Seattle Arts Museum em 1969. Por 955,000, na Vancouver Art Gallery, Castoro produziu o quarto Revelation (1970), um dos primeiros exemplos de instalação participativa.
Posteriormente, Castoro explorou a abstração pós-minimalista, com instalações escultóricas de resina epoxi em 1974-1975, e uma série de intervenções efémeras na paisagem usando ramos. Entre os seus trabalhos localizados em locais urbanos, incluem Trap-a-Zoid (1978), criado para Creative Time, e Flashers, peças totémicas de aço ou betão iniciadas em 1979.
Segundo Tanya Barson, curadora da exposição, destaca-se o grande contributo de Castoro para o conceito de "intermediário", ou inter-relação entre pintura, escultura, desenho, linguagem e desempenho. A intenção é demonstrar como algumas das figuras mais relevantes do minimalismo não receberam a atenção que merecem, especialmente o grupo de mulheres artistas pertencentes a um movimento erroneamente identificado como essencialmente masculino, mas que, como diz Lippard, "subverteu o minimalismo em seu próprio terreno"2. Como consequência desta consideração do trabalho de Castoro, a exposição destaca a necessidade de repensar o minimalismo, expandindo-o para incluir um maior número de artistas e questionando as narrativas hegemónicas desse movimento.
1. Lucy Lippard: "Rosemarie Castoro: Working Out". Artforum (1975), p.60.
2. Lucy Lippard: "From Eccentric to Sensuous Abstraction: An interview with Lucy Lippard", en Susan L. Stoops (ed.): More Than Minimal: Feminism and Abstraction in the '70s. Waltham (MA): Rose Art Museum, Brandeis University, 1996, p. 30.
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quinta-feira, 11 de janeiro de 2018
quarta-feira, 3 de janeiro de 2018
Idealismo nacionalista
Este conceito ocorre quando irrompe nos países colonizados por uma potência imperial, que explora e discrimina os nativos e os encoraja a defender a sua língua, os seus usos e costumes, as suas crenças, impregnando-os de uma “consciência nacional”. Esse tipo de nacionalismo foi decrescendo com a descolonização e transformou-se numa ideologia ultrarreacionária com que várias ditaduras sanguinárias assenhoraram-se do poder, saqueando os seus países e banhando-os em sangue e cadáveres.
Todas as ditaduras que ocorreram, da esquerda à direita, justificaram-se com argumentos nacionalistas e conseguiram grandes apoios populares.
Presentemente, o nacionalismo já só é uma ideologia reacionária, anti-histórica, racista, inimiga do progresso, da democracia e da liberdade.
A Catalunha, onde o vírus nacionalista irrompeu com força, jamais foi uma delas. O nacionalismo é uma ficção ideológica e como tal pode permitir as manipulações históricas que forem necessárias.
A Catalunha, onde o vírus nacionalista irrompeu com força, jamais foi uma delas. O nacionalismo é uma ficção ideológica e como tal pode permitir as manipulações históricas que forem necessárias.
Muitos catalães estão convencidos que a Catalunha foi conquistada, ocupada e explorada pela Espanha, tal como a Argélia pela França, a América Latina pela Espanha e Portugal... Acreditam por serem a capital industrial e cultural da Espanha deve-se ao seu espírito de trabalho e à superior capacitação em relação aos outros espanhóis. Com a sua independência alcançariam e logo superavam a própria Alemanha!
O nacionalismo cresceu na Catalunha alimentado desde a escola por sucessivos governos locais. Este foi ignorado pelos governos centrais e restantes espanhóis, por acreditarem que a maioria catalã pretendia continuar espanhóla. No entanto, essa maioria foi decrescendo pelo desamparo e isolamento.
O nacionalismo cresceu na Catalunha alimentado desde a escola por sucessivos governos locais. Este foi ignorado pelos governos centrais e restantes espanhóis, por acreditarem que a maioria catalã pretendia continuar espanhóla. No entanto, essa maioria foi decrescendo pelo desamparo e isolamento.
A realização do referendo teve como consequência a perca de mais de 3.000 empresas, a redução do comércio e turismo e o aumento do desemprego. Além disso, assistiu-se a uma violência política que nos remete para uma transição franquista, não credível de existir numa Espanha moderna.
Se acreditamos na liberdade, na democracia e na civilização... não podemos ser nacionalista.
O nacionalismo é o oposto a todas essas instituições e categorias que nos tiraram da selvajaria e incutiram-nos o respeito aos demais, ensinando-nos a conviver e aceitar as diferenças. Fizeram-nos entender que viver na legalidade, na diversidade e na liberdade é melhor que na barbárie e anarquia.
Somos indivíduos com direitos e deveres, não partes de uma tribo, porque fazer parte de uma tribo, ser apenas um apêndice dela, é incompatível com ser livre. Descobrir isso é o melhor que ocorreu à espécie humana.
Devemo-nos opor, sem complexos, com razões e ideais, mas também com convicções e crenças, aos que quiserem regressar a essa tribo feliz que inventamos porque nunca existiu.
sexta-feira, 22 de dezembro de 2017
SORTIDA CATALANA OU CATALANEXIT
Politicamente, a Catalunha constitui-se como uma das 17 comunidades autónomas que formam o Reino da Espanha, cujo governo central, em Madrid, pode conceder ou retirar poderes das autoridades locais. Os catalães possuem um presidente e um parlamento próprio, que podem aprovar leis e até constituir forças de segurança civis.
Embora existam causas históricas e económicas que ajudam a explicar a razão pela qual tantos catalães desejam a independência, estes sempre cultivaram uma cultura própria, especialmente assente na sua língua. Mesmo a oposição ao governo franquista passou por estes reprimirem a cultura e o idioma em locais públicos.
Nos últimos dez anos, porém, o separatismo voltou com força. Os líderes com discurso nacionalista foram ganhando espaço na política local. Leis e consultas públicas foram feitas para manifestar o desejo de independência, até que, em 2015, uma ampla coligação de partidos, liderada pelo destituído presidente Carles Puigdemont, elegeu-se com a promessa de fazer da Catalunha um estado independente.
Acabaram por proclamar essa independência assente num referendo não reconhecido por Madrid. O governo foi perseguido e destituído. Marcaram-se novas eleições.
Estas decorreram de forma intensa e histórica e após a contagem dos votos verificou-se que os não-separatistas tiveram a maioria dos votos, mas não a maioria no parlamento.
Um partido constitucionalista e pró-Espanha unida, o Ciudadanos, ficou à frente, mas os partidos separatistas podem formar governo e continuarem a alimentarem o movimento independentista.
Algo parecido com o que fez a "esquerda" portuguesa!
O processo de rutura unilateral era o modo de os separatistas compensarem o carácter autoritário do Estado espanhol, mas falta uma clara maioria e um amplo consenso na Catalunha a favor da separação.
Será difícil aos separatistas retomarem o mesmo processo golpista que estavam a seguir para tomar o poder na Catalunha. No entanto, este movimento não pode ser ignorado... metade dos habitantes da Catalunha deseja a independência.
As consequências da vitória de um movimento separatista pode encorajar outros nacionalismos europeus. A Escócia e a Córsega que desejam a independência do Reino Unido e da França, respetivamente, podem fortalecer as suas causas. O próprio País Basco, embora tenha deixado de lado a resistência armada, pode voltar a tentar uma separação.
Eventualmente haverá uma revisão profunda do estatuto das regiões autónomas, aliás já prometida em Madrid, no sentido de um maior federalismo e com enquadramento europeu, ambos a referendar pelos respetivos eleitorados. Assim, uma Europa das regiões, com a sua personalidade já hoje reconhecida, ganharia ao mesmo tempo uma visibilidade e um peso suscetíveis de responder às reivindicações autonomistas e mesmo soberanistas que nunca deixarão de existir num continente tão antigo, dividido e carregado de ideologias como é a Europa.
Não será um caminho curto nem imediato mas mostraria, superada a crise atual, as possibilidades europeias efetivas da subsidiaridade, bem como de um federalismo suscetível de superar enganosas exigências soberanistas, como aquelas que o Brexit tem vindo a revelar cada dia que passa para mal do «reino desunido». Por paradoxal que isso pareça, a Europa pode e deve ser o caminho mais curto para a União e não é por acaso que o alegado «soberanismo de esquerda», representado na Catalunha pela CUP e em Portugal pelos apoiantes do atual governo socialista, está disposto a aliar-se com o «diabo» para destruir a UE e reconduzir-nos ao isolacionismo.
Não será um caminho curto nem imediato mas mostraria, superada a crise atual, as possibilidades europeias efetivas da subsidiaridade, bem como de um federalismo suscetível de superar enganosas exigências soberanistas, como aquelas que o Brexit tem vindo a revelar cada dia que passa para mal do «reino desunido». Por paradoxal que isso pareça, a Europa pode e deve ser o caminho mais curto para a União e não é por acaso que o alegado «soberanismo de esquerda», representado na Catalunha pela CUP e em Portugal pelos apoiantes do atual governo socialista, está disposto a aliar-se com o «diabo» para destruir a UE e reconduzir-nos ao isolacionismo.
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