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domingo, 7 de janeiro de 2018

RECENSÃO: ”20,000 days on Earth”


-Recensão- 

            O filme “20,000 days on Earth” é um drama/filme biográfico sobre Nick Cave. Apresenta-se como um filme bastante honesto, quase como uma entrevista longa ao artista. Começa com uma apresentação do dia a dia de Nick Cave, a partir da qual se vai sendo desconstruída a rede de ideias e ideais que dão forma à obra e ao pensamento do artista. Para além de abordar o lado mais banal da vida da personagem central, o filme dá também ênfase àquelas que são as questões base da existência de um artista/criador. Foi um filme que despoletou em mim algumas dúvidas em relação à criação artística e à realidade do artista para com a realidade que o envolve.


                                                                                           
                                                                                                                                               (Nick Cave)

            O filme foi lançado em 2014 no Reino Unido, e recebeu alguns prémios. Alguns artistas que trabalharam no filme foram o próprio Nick Cave, Jane Pollard, Iain Forsyth e Warren Ellis.
            Para além do valor que atribuo a este documentário pelo simples facto de permitir ao espectador compreender um pouco melhor uma mente tão complicada e tão fascinante, considero-o um ótimo catalisador de discussão e de debate em relação à arte e ao que à arte em si implica. Foi com a minha colega de casa, Alexandra Barbosa, que me vi debruçada sobre a arte como uma coletânea de experiências que são alheias ao autor da obra, e foi a partir deste filme que me vi dentro de uma conversa muito interessante, que penso que de certa forma posso traduzir aqui, no contexto da recensão. Surgiram questões como: até que ponto é que um artista tem o direito, ou deve sequer, utilizar as experiências que o rodeiam, as experiências de outros, na sua obra? É possível sequer não o fazer, sabendo que tudo o que passamos na vida implica outros (tendo em conta que mesmo a solidão implica a não presença de alguém)? Ao traduzir as vivências – e as memórias (algo que Nick Cave menciona também como uma das partes mais fulcrais do processo criativo) o artista cria um escape, um lugar onde a imaginação, ou pelo menos as limitações das capacidades sensoriais acabam por distorcer de certa forma a realidade a transmitir através da arte. Este distorcer acaba por proteger as experiências e identidades de terceiros à obra, mas observando a plataforma que existe na sociedade moderna, a arte é exposta de uma forma muito abrangente,e desta forma artistas como Nan Goldin, com as suas fotografias extremamente pessoais que acabam por mostrar, através da arte, aquilo que é o dia a dia dos amigos e conhecidos da artista. Pode dizer-se que a memória ativa a arte pela transposição. Será esta transposição de vivências completamente justa, tendo em conta a vida pessoal de cada indivíduo que está iminentemente interligada ao artista?
            Nick Cave fala também sobre o papel do artista enquanto Deus, e enquanto uma encarnação de algo maior. Fala da forma como a criação da arte nos aproxima de algo maior, e de como o processo da criação da arte transforma o artista. Para além desta auto-descrição do artista, atribui a si próprio o título de “canibal” – descreve-se como alguém que absorve as experiências que o rodeiam e as ingere, transformando-as em música. Este termo, tão agressivo e grave como é na realidade, acaba por representar de certa forma o tema desta recensão. Até que ponto é que a arte é justa para aquilo que representa, a forma crua como tantas músicas e filmes expõe histórias e pessoas, cujas vidas passam a fazer parte da memória do espectador? Será em forma de homenagem que as obras surgem, ou mais como uma forma egoísta do artista projetar a sua realidade sem ter atenção à explosão que causa ao seu redor e sem ter atenção à exposição que dá à vida de terceiros?

            A marca que este filme deixou em mim-para além do louvor que dou ao artista por ser uma pessoa tão culta e interessante de observar - foi uma grande dúvida em relação à transposição de vivências para a arte, ao ponto de olhar até para obras biográficas e me aperceber que toda a vivência de um ser humano implica dezenas de outras vidas, que por sua vez estão carregadas de escolhas e atitudes pessoais que se tornam arte, por meio de uma pessoa externa à vivência em si. No fundo, a criação implica a correspondência entre o mundo do imaginário e do real, e que a exposição ao mundo e a forma como o artista deixa nus aqueles que o rodeiam não é necessariamente má, porque daí cresce a partilha, e nasce empatia, algo que considero fundamental, e uma das principais qualidades que observo na arte – a criação de empatia entre o espetador/obra.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Em que situações do dia a dia moderno se pode encontrar o pequeno Bichon?



Roland Barthes escreveu diversas “crónicas” e pequenos textos sobre diversas temáticas. No seu texto “Bichon entre os pretos”, presenta na coletânea “Mitologias”, aborda um artigo de uma revista da época, que reportava a viagem a África feita por Bichon e pelos seus pais, dois artistas que viajavam em busca de inspiração. Na revista, o pequeno Bichon é descrito como um aventureiro, ídolo, alguém bastante corajoso, por estar a enfrentar os pretos vermelhos, seres sanguinários e violentos. Esta descrição, que nos parece ridícula em pleno século XXI, era na altura do artigo uma realidade evocada quando se pensava em África, era todo um preconceito infiltrado na sociedade, normalizado, não sendo por isso visto como escandaloso. Em paralelo com esta situação, décadas mais tarde e em pleno século XXI, os preconceitos raciais continuam a existir, e apesar da repulsa que nos é causada pelo artigo em si, estão ainda infiltrados na sociedade diversos comportamentos que são também incriminatórios de uma mentalidade por desenvolver. Estes comportamentos podem ser observados sobretudo em sociedades mais fechadas, mas também em grandes cidades e estados, como nos Estados Unidos, onde a criminalidade e brutalidade da polícia e dos órgãos de estado para com as comunidades POC (people of colour) é algo “natural”, que acontece com demasiada frequência. Para além de isso, existem também diversos preconceitos xenófobos ainda infiltrados na sociedade, e falta de solidariedade em relação a refugiados políticos e de guerra. A divisão entre as pessoas e a “superioridade” da raça branca continuam a ser algo em que muitas pessoas infelizmente acreditam. A mentalidade de que nos devemos separar e dividir é bastante retrógrada, para além de escandalosa. Seria interessante observar as reações das gerações futuras perante a nossa realidade agora, e perceber que muitas das nossas ações serão provavelmente tão indignas como o artigo sobre o glorificado pequeno Bichon.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017


A arbitrariedade com que cada cultura decide expressar as experiências  vividas  e a atribuição de palavras a determinados conceitos é um sinal de cultura, visto que não é inato. Pode dizer-se que o conhecimento deriva e é também um sinal do domínio dos recursos. Recursos como a inteligência e as capacidades emocionais e intelectuais do ser humano, assim como de recursos naturais que o ser inteligente usa para seu favor, construindo uma cultura e todo um leque de costumes e hábitos que fazem parte do seu valor enquanto seres inteligentes e culturais. Este uso de recursos e a sua tradução para uma capacidade linguística e para uma capacidade de raciocínio avançado, assim como para a construção de uma vida melhor denotam que existe realmente inteligência no ser humano, e que a situação ecológica e política da sociedade se deve ao egocentrismo e à cultura das massas, ao invés de se dever à falta de inteligência individual. Atualmente, existem dois “polos” que podem vir a ser fatais à raça humana, ambos fruto de comportamentos ditos racionais. Entramos numa época de extinção em massa, onde o nosso sistema ecológico se mostra evidentemente incapaz de sobreviver ao nosso consumo de produtos de origem animal, ao consumo de combustíveis fósseis e no geral ao consumo em massa que se instaurou na sociedade ocidental e oriental. Apesar de toda a evolução mental, e de o ser humano ser agora mais inteligente do que alguma vez o foi, as escolhas das massas incriminam a nossa inteligência do prejuízo que fazemos à vida e à biodiversidade no geral. Algo que contrasta também com a dita inteligência e com o civismo do ser humano são os conflitos políticos da atualidade. Tão evoluída como se apresenta, a sociedade acaba por cair em conflitos de crença, religião, sexualidade, económicos, etc, provocando toda uma eminência de um conflito nuclear para vir. Será que cada um de nós contribui arbitrariamente para a deterioração das condições básicas inerentes à nossa existência- a paz, a saúde, o clima- sem sequer pensar nisso? É possível considerar inteligente um ser que voluntariamente vive regrado pelo prazer em prol da sua saúde e da saúde do seu planeta? Será inata esta vontade de auto-destruição que influência o comportamento humano década após década?