Mostrar mensagens com a etiqueta 11164. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 11164. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Sobre "Stalker" de Andrei Tarkovsky


 O realizador do filme sobre o qual escrevo, Andrei Tarkovsky, escreveu um dia que "o cinema é o esculpir do tempo". Esta crença reflete-se ao longo de todos os filme de Tarkovsky, mas é, na minha opinião, particularmente forte em "Stalker" cuja melhor descrição seria de facto uma grande escultura do tempo.  A história é misteriosamente simples, lenta. O filme passa e é uma autentica experiência visual, sonora, textural e conceptual, mas no fim perguntamo-nos se de facto aconteceu alguma coisa. 
Numa realidade ela própria misteriosa, três homens fazem uma viagem a um local interdito, “a zona”, local este aparentemente rural e florestal onde algo aconteceu, talvez a queda de um meteorito ou talvez um acidente nuclear ou algo sobre natural, que fez daqueles sitio simultaneamente tóxico e incrivelmente fértil, com um energia vibrante que se sente ao longo do filme. 
Um escritor, o artista intelectual que procura inspiração e um professor, um cientista racional e empírico são guiados através da zona por um guia local, um stalker, uma espécie de profeta da “zona” que os leva a uma sala, a sala onde os desejos mais íntimos do homem são cumpridos. 
Os três homens viajam através da zona, cumprindo uma serie de regras e rituais aparentemente aleatórios impostos pelo guia.
Acho interessante a relação que se pode estabelecer entre a zona e a viagem que estes homens fazem e a questão da arte e do processo criativo. A zona é um local onde nunca se segue o mesmo caminho, onde nunca se pode voltar atrás , onde tudo parece mudar, seguir um caminho e simultaneamente dar a lado nenhum. 
O stalker, o guia, diz algures no filme que a zona é um local apenas para os infelizes, os sem esperança. Mas é também um local de fé onde só vale a crença. E os dois visitantes céticos acabam por entrar nesse jogo de crença, e todos os rituais e caminhos parecem fazer sentido enquanto se acredita. 
Toda a viagem, lenta, é uma espécie de odisseia onde os homens se questionam a si próprios e uns aos outros, a suas intenções e as suas crenças, questionam a legitimidade do local, a legitimidade do desejo e da crença, na zona e no mundo para lá da vedação. 
Como viver num mundo de descrença? Como poderá o homem continuar? E que papel pode a arte ter neste mundo? 
Serão os desejos mais valiosos quando não realizados, será essa a própria natureza do desejo, da verdade? a sua incessibilidade? 
Estas interrogações estão muito presentes através dos diálogos entre personagens mas também através da poética cinematográfica de Tarkovsky, planos lentos  e extremamente intensos, imagens que nos parecem quase impossíveis mas tão verdadeiras que nos invadem, que inundam o espectador, ou, como Tarkovsky preferiria, a testemunha. 




“Stalker" é de certa forma uma parábola de fé que, no entanto, não oferece qualquer resposta. Mesmo quanto aos poderes místicos da “zona”  ficamos incertos se de facto existem ou são apenas um devaneio dos homens que procuram desesperadamente algo em que crer. 
A viagem termina com os três homens sentados de costas para a tal sala, nenhum deles entra. 
O escritor porque receia a natureza do seu desejo mais intimo, talvez queira permanecer infeliz para continuar a escrever, ele próprio afirma “O Homem escreve porque está atormentado, porque duvida”.  O professor, cientista, revela o seu plano de destruir a sala, talvez para se proteger do desconhecido mas também por uma impossibilidade de viver com  aquilo que é incapaz de conhecer, de explicar. Acabou por não o fazer. Estes comportamentos acabam por ser de certa forma uma aceitação da  incapacidade do homem perante a verdade, restando apenas a rendição e, mais uma vez, a possibilidade de crença. 
O guia demonstra-se também incapaz de entrar na sala, atormentado, ele revela que os stalkers nunca podem entrar na sala que estão destinados a deambular eternamente, a guiar os outros mas nunca a si próprios. Para mim, é esse o paradigma do Artista e também o seu maior tormento, o de mostrar o caminho mas nunca chegar ao destino.

Este é um filme que se revela fenómeno, que nos inunda de questões e imagens mas também um filme de divagação pura que acaba por não afirmar definitivamente nada, um pouco como a natureza apodera-se de tudo e não oferece qualquer explicação.  

A primeira cena do filme é um plano de um copo a vibrar mexendo-se sobre uma mesa e depois o som de um comboio a passar. A ultima cena é o plano de uma criança, a filha do stalker, um espécie de mutante devido à sua exposição à “zona”, a mover três copos numa mesa através de telecinésia (poder da mente) e depois, depois o som de um comboio a passar. O milagre, o místico,  e o fenómeno natural, explicável, acabam por ser praticamente iguais, ambos misteriosamente quase nada.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

O que anteriormente nos iluminava agora apenas ofusca

As consequências de viver numa sociedade niilista.
Quando Nietzsche mata Deus deixa na sociedade ocidental um buraco disforme e infinito. As pessoas já não vivem tentando seguir certos valores, numa constante preparação para a morte ou o que poderá vir depois mas vivem, ao invés, com um tremendo medo da morte, da insignificância, do vazio, do silêncio. Procuram então em tudo uma distração. Na televisão, na música, nos seus telemóveis, as suas vidas virtuais, tudo distrações. A linha entre a arte e o entretenimento cada vez mais ténue. Imagens, luzes, sons, ilusões visuais, tudo a mil à hora. A quantidade é qualidade.
O que anteriormente nos iluminava agora apenas ofusca. “Enfeitamos a caverna com televisões LCD, Wifi, e música de fundo . Como se está bem nesta caverna!” Pensar é coisa do passado. O silêncio de Deus foi ocupado pelo ruído dos carros e das televisões. Ninguém parece ter consciência das consequências deste niilismo colectivo. Do peso deste vazio, da ausência de sentido. 

E como podemos nós viver com esta ausência? Poderá o Homem viver sem acreditar? 
Será a a essência da vida apenas o movimento da vida? 
E que papel tem a arte neste mundo de descrença? Afinal criar é sempre um ato de crença, por mais ínfima e momentânea que seja.  Esta questão persegue-me. Deus, o vazio ou a arte ? Poderá a arte ainda ser a salvação, ocupar o lugar de Deus? 
Gostava de acreditar que sim que a arte pode ainda ter esse poder.  

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Sobre a linguagem e os seus limites

Wittgenstein escreveu “ O limite da minha linguagem é o limite do meu mundo”. A linguagem está sempre limitada ao pensamento. É impossível descrever algo impensável mas será possível pensar algo indescritível? Até que ponto é que a linguagem enquanto manifestação do pensamento tem poder sobre o próprio pensamento, a influência da língua sobre a parole. 

E esta ideia do possível do imaginável, do descritível é também ela própria cultural. Afinal não são só os significantes que variam arbitrariamente de cultura para cultura mas os próprios significados variam também. Na língua portuguesa existe a palavra “saudade”, cujo conceito, o significante não entra no paradigma da língua inglesa ou alemã. Em alemão, no entanto, existe o termo “Lebensmüde”, que se pode traduzir para um cansaço de viver, esta é uma palavra muito associada ao romantismo alemão, inerente à própria cultura alemã, tal como saudade é inerente à cultura portuguesa, daí a impossibilidade da tradução. E acaba por ser assim com tudo, acredito que ninguém fala a mesma língua, que nunca ninguém fala do mesmo ou  pensa o mesmo. Quando duas pessoas pensam na cor azul é quase inevitável que pensem em tons diferentes, mas indo mais longe é- me impossível saber que quando outra pessoas pensa no azul, está realmente a pensar no azul, olhamos os dois para o céu e eu não sei se ela não está a ver um verde, que sempre associou ao termo azul. Se a linguagem é arbitrária e a linguagem limita o pensamento, então estes limites são também arbitrários. (Até que ponto é que não será o próprio pensamento arbitrário?). Assim acredito que quanto mais linguagens entendemos menos limitado é o nosso pensamento, e com linguagem quero dizer todo o tipo de manifestação arbitrária ,desde a música, à pintura, ao xadrez, e até a política. Para terminar com outra frase de Wittgenstein “O que se pode dizer pode ser dito claramente; e aquilo de que não se pode falar tem de ficar no silêncio”. Acredito que arte acontece neste limite tão ténue entre a linguagem e o silêncio, sobre aquilo que não pode ser dito mas que também não pode permanecer em silêncio.