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domingo, 7 de janeiro de 2018

Exposição de Escher, Museu de Arte Popular

A exposição presente no Museu de Arte Popular de Lisboa, do artista holandês Maurits Cornelis Escher, revelou-se uma das mais interessantes que vi nos últimos tempos. Apresenta uma retrospectiva dos esboços enigmáticos e projectos paradoxais de um dos artistas gráficos com mais impacto no mundo. 

É interessante perceber, através da exposição, o percurso do seu trabalho, que vai sofrendo influências e alterações marcantes ao longo da sua vida. O artista começa por criar muitas gravuras e desenhos realistas inspirados na natureza e em paisagens italianas. Apesar de estes não constituirem o auge da sua criação artística, não deixam de ser louváveis, a meu ver. Transmitiram-me um sentimento de adoração pelas realidades em questão, através de um traçado muito sensível e rigoroso, notável por exemplo na colecção de desenhos de Roma noturna, em que tomou um cuidado especial no contraste do preto e branco das gravuras, sugerindo a luz artificial das ruas da cidade à noite. 


Para além disso, nestas suas primeiras obras, apercebemo-nos desde logo do seu olhar científico, que vai crescendo no decorrer da sua carreira artística. São notáveis as suas observações meticulosas da natureza, tanto em paisagens e recantos campestres, como em gravuras com desenhos realistas de desenhos e flores. Revelava desde então a tradução do seu mundo envolvente numa grande regularidade geométrica. Apesar de ter criado muitas obras naturalistas é visível que o seu foco principal se tratava da análise da estrutura do espaço e de tudo o que envolvia a sua perspetiva, não da representação do pormenor e do pitoresco. 

Depois de abandonar Itália, que inevitavelmente marcou a sua vida e criação artística, e depois de conhecer influências mais geométricas, sobretudo depois de visitar Alhambra em Granada, começa a abordar o espaço de forma diferente. Passou a criar uma síntese que unia várias entidades espaciais numa obra com uma lógica e complexidade esmagadoras. 

Um dos pontos altos da sua obra, para mim, é o facto de reunir várias influências e criações muito distintas, que acabam por constituir uma arte de “metamorfose”, uma arte em que a geometria e fantasia confluem. Escher acaba por reunir dois mundos muito distintos que se completam numa arte enigmática e inteligente marcada por uma precisão e detalhe incríveis. 

Convexo e Côncavo, 1955

A exploração de princípios científicos nas suas obras também é um factor que em muito as enriquece. O princípio da boa forma (em que perante vários elementos a nossa percepção recolhe apenas os mais simples), a lei do cheio e do vazio, a lei da continuidade (em que o nosso cérebro assumo a continuidade de uma realidade que está tapada) e a lei do côncavo e convexo, dependente da incidência da iluminação, são princípios que tornam mais complexas e interessantes as suas perspectivas e divisões da realidade. Tudo parece ser verdadeiro e plausível à primeira vista, mas muitas estruturas são figuras impossíveis, que pretendem representar o infinito em fantásticas composições sem fim. 

Subindo e Descendo, 1960

O seu trabalho, por ser tão rico e genial, acaba por ser motivo de inspiração até aos dias de hoje. Muitos pintores e artistas contemporâneos tiraram inspiração do seu trabalho. Podemos também ver filmes que utilizam esta referência, como é o caso do “Inception” ou do “À noite no museu”, em que existem muitos jogos de perspetivas, bem como em capas de banda desenhadas e CD’s ao longo da história, como é o caso de “Yet Another Movie” dos Pink Floyd. É interessante perceber que esta tentativa de Escher de representar o infinito nas suas obras, acaba por ser transferida e reutilizada por muitos outros artistas, tornando-se ela mesma algo intemporal.

Não admira que o seu trabalho se tenha tornado um símbolo da relação da arte e da ciência. Apercebemo-nos inquestionavelmente, desde o início da exposição, do seu domínio na técnica da gravura e do desenho, bem como dos contrastes do preto e branco e da luz-sombra. Ao mesmo tempo, o que marca e distingue o seu traçado exímio é o que torna a sua arte tão fantástica - o seu conhecimento científico e matemático - fundamental na construção de mundos fantásticos em perspetiva.  

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

As Contradições Culturais

Depois da Revolução Agrícola, as sociedades humanas cresceram e tornaram-se mais complexas, ao mesmo tempo que se desenvolviam cada vez mais elaborados modelos idealizados que sustentavam a organização social. Os mitos e ficções habituavam desde sempre as pessoas a pensar de determinada forma e a cumprir determinadas regras. Criaram-se, assim, os “instintos artificiais”, que formam uma rede a que chamamos cultura. 

No início do século XX acreditava-se que cada cultura era formada por uma essência inalterável que a definiria para sempre. Segundo este ponto de vista as culturas não sofriam alterações. Existiam e avançavam à mesma velocidade e na mesma direção. A única forma de esta se alterar seria através de uma força do exterior, possivelmente o contacto com diferentes culturas.

Hoje em dia percebemos que as culturas também se vão moldando no seu interior, e é isso o que as faz avançar mais. Para além de alterações do seu meio ambiente e da interação com o exterior, as culturas também sofrem alterações devido a dinâmicas que nelas próprias acontecem. Tudo o que é criado pelo Homem é susceptível à contradição interna. O desenvolvimento cultural assenta no reconciliar dessas contradições, que faz acelerar o processo de mudança e evolução. 

Estes valores contraditórios tornam-se fundamentais à existência de qualquer cultura humana. Explicando-os através de um caso específico, podemos observar políticos contemporâneos que querem alcançar uma sociedade mais justa e com maior igualdade, e para isso criam um aumento de impostos, que permite financiar programas que ajudem os mais pobres. Sendo as intenções as melhores não deixam de, ao mesmo tempo, violar a liberdade dos indivíduos para gastarem o dinheiro da forma que considerarem mais pertinente. Acaba por existir um conflito entre igualdade e liberdade. O mundo moderno não parece conseguir resolver problemas como este, e ao longo da história deparamo-nos com muitos outros casos sem resolução. Contudo, estas contradições acabam por ser intrínsecas às culturas humanas. São elas que acabam por impulsionar mais a criatividade e o dinamismo cultural. 

É através de discordâncias que nos vemos obrigados a reavaliar situações, pensá-las e criticá-las novamente. “A coerência é o apanágio das mentes obtusas.” 



Referência: Harari, Yuval Noah, História Breve da Humanidade, Elsinore Editora, 2011.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

O Trabalho Alienado e a Indústria da Moda

Hoje em dia e cada vez mais podemos estabelecer sem dificuldade um paralelismo entre os princípios enunciados por Karl Marx em “O trabalho Alienado” e as condições de trabalho em indústrias de massas, como é o caso da indústria da moda. 
Por ser exigido um número tão elevado na produção de bens, que consiga servir a sociedade de consumo em que vivemos, os trabalhadores tornam-se “mercadorias” cada vez mais baratas. As grandes empresas procuram locais onde a mão-de-obra seja barata. Isto gera um efeito dominó em que as fábricas se vêm obrigadas a vender produtos por muito pouco dinheiro (caso contrário não serão contratadas) e os salários dos seus trabalhadores tornam-se inevitavelmente medíocres. 
Marx defende que valorização dos bens de consumo (do “mundo das coisas”) aumenta proporcionalmente com a desvalorização do “mundo dos homens”. Isto é perfeitamente visível na Indústria da moda, em que os trabalhadores das fábricas chegam a ter que se sujeitar a salários de 2$ por dia. Mais concretamente, podemos olhar para o desastre de Runaplaza, em Bangladesh no ano de 2013, em que o edifício de uma destas fábrica ruiu e cerca de 1000 trabalhadores morreram, depois de terem sido apresentadas e ignoradas várias queixas relativas às condições do edifício. 
Os trabalhadores dos países subdesenvolvidos vêm-se forçados a aceitar trabalhos com condições desumanas, com vista à sua sobrevivência. Assim ocorre a “culminação da servidão” enunciada por Marx: o sujeito só pode existir como sujeito físico enquanto trabalhador. Torna-se servo do objeto que produz. 
Nas condições apresentadas, o trabalhador precisa de produzir em massa, acabando por se esgotar cada vez mais a si mesmo, e tornando-se o produto do seu trabalho um objeto estranho e impessoal, exterior a si. Ao criá-lo torna-se mais pobre na sua vida interior. 
Quanto maior é o produto, quanto mais são as exigências da sociedade de consumo e quanto mais esta indústria aumenta, mais o Homem, neste caso principalmente os trabalhadores destas fábricas, se diminui. São forçados a viver e trabalhar em condições desumanas - “A realização do trabalho aparece como desrealização do trabalhador.”

Referências bibliográficas:
Marx, Karl. O Trabalho Alienado, 1993, Lisboa, Ed 70.