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quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Ex Machina // Alex Garland



Quando vi pela primeira vez o filme Ex Machina de Alex Garland, fiquei um pouco desapontada. O meu desconforto em relação ao desfecho devia-se ao facto de estar apenas a refletir sobre a máquina e o meio envolvente da Inteligência Artificial (AI), em vez do verdadeiro propósito do filme: a ambição humana.

Este gira à volta de três personagens. Natham, um alcoólico e CEO brilhante, que convida Caleb, o programador da maior empresa de pesquisa na Internet do mundo, para testar a consciência de um robot com Inteligência Artificial com o nome de Ava.

A partir do momento em que Caleb se apercebe que Ava está a tentar seduzi-lo, pergunta a Nathan se a programou para o fazer. Ele explica que apenas a programou para ser mulher e que o objetivo é relacionar-se com o seu próprio corpo, ser auto consciente e heterossexual.

Caleb: Did you program her to like me, or not?
Nathan: I programmed her to be heterosexual. Just like you were programmed to be heterosexual.
Caleb: Nobody programmed me to be straight.
Nathan: You decided to be straight? Please of course you were programmed, by nature or nurture, or both. And to be honest Caleb youre starting to annoy me now because this is your insecurity talking, not your intellect.

Naturalmente, o observado assume a posição de Caleb, que defede escolher como é. Mas a perspetiva de Nathan é difícil de contra-argumentar. Apesar de todas as nossas escolhas, somos influenciados por tudo o que nos rodeia. Caleb não escolheu ser heterossexual e o mesmo serve para todos os tipos de sexualidade: somos programados pela natureza. Desta forma, ela estaria interessada em Caleb apenas como uma consequência “natural” do seu programa e existência enquanto mulher, que apenas viu dois homens em toda a sua vida.

Nathan tenta manipular Caleb de todas as formas que encontra: acede ao seu histórico de pesquisa, ao seu passado, à sua história enquanto órfão. Apesar de Caleb se ter apaixonado por Ava, juntos tentam usar os defeitos de Natham para fugir. Afinal, o que se pode observar aqui é um caso semelhante ao do Pinóquio: um robô que quer ser humano.

No fundo, as três personagens principais estão constantemente a desafiarem-se entre si de acordo com as suas capacidades para prever e reprogramar os seus próprios programas, também com base nas próprias ambições. Mas uma máquina de alto desempenho não conseguiria utilizar toda a informação da internet para saber como solucionar o problema sem falhar? É isso que faz com que ela consiga fugir. Ava sabe que não é completa como um ser, principalmente quando Caleb argumenta que ela pode saber tudo sobre o que quiser, por ter acesso a todas as bases de dados da Internet. Mas ela não viveu, não teve experiências. E de acordo com Caleb, é isso que faz de nós humanos. Era isso o que lhe faltava como ser, por estar fechada numa gaiola de vidro.

Podemos pensar que Ex Machina é apenas mais um filme que mostra como a Inteligência Artificial pode tirar proveito dos humanos. Mas, acredito que o objetivo de Garland seja o retrato da ambição, ou seja, a ambição do Homem de dominar por completo a sua vida. Criada de acordo com o modelo de um humano, é natural que Ava queira usar qualquer meio para atingir os seus objetivos. Da mesma maneira que Nathan invadiu a privacidade dos outros para alcançar o sucesso do seu projeto.


Afinal, tudo o que o Homem faz é, acima de tudo, sobre o próprio Homem.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Ideologias - "O novo Citröen"

Roland Barthes foi um escritor, crítico literário, sociólogo e professor de retórica clássica na Universidade de Sorbornne em Paris, nascido em 1915 dedicou parte dos seus estudos à linguística de Ferdinand Saussure. Aplica todos os seus princípios na descrição e na análise de todos os objetos da sociedade, denominando esta análise de semiologia.

A criação do Citroen DS em 1955, funciona como mote a uma das suas famosas crónicas, “O novo Citroen”, introduzido no seu livro “Mitologias” que é uma compilação de diversas narrativas sobre a sociedade.

Barthes coloca uma grande interrogação as ideologias chaves da sociedade de 50, uma sociedade marcada pela pequena-burguesia, que fazia com que existisse um elevado interesse por parte da sociedade em determinados objetos, um deles os automóveis.

A comparação entre uma grande catedral gótica e o automóvel vem ao encontro da sua critica a sociedade no ponto em que a construção do carro tem a simples função de cativar pela sua forma e grandeza, tal e qual a construção megalómana das catedrais góticas.

A criação deste novo Citroen é acompanhada pela inovação na construção automóvel, marcado por um maior aerodinamismo e uma nova técnica de soldar as componentes estéticas do automóvel. Tudo isto ligado a um aumento de velocidade e de potência derivada pela inovação tecnológica.

Dito isto, a mudança com o aparecimento deste novo Citroen vem dar uma nova dinâmica ao automóvel, separando-o apenas da velocidade e juntando-o a uma nova experiência ligada à condução.

A título de contextualização e para finalizar a abordagem deste tema, França estava mergulhada numa recuperação económica e social de dois pós-guerras, que tiveram um grande impacto a nível de destruição de indústrias e da sociedade. Agravando ainda mais a situação, França estava a contas com diversos conflitos derivados da descolonização de países como Costa do Marfim e Argélia. Assim dito, o aparecimento deste automóvel tem como papel a reafirmação da indústria francesa. 

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Indústria Cultural e Alienação


A alienação define-se pela perturbação de mentalidades, onde ocorre uma anulação e erradicação da personalidade individual de um ser. Theodor Adorno explora bastante este tema em diversos livros escritos por ele e pelo seu colega da escola de Frankfurt, Max Horkheimer.

Apesar de Carl Marx já ter explorado e explicado este conceito, o mesmo foi mais direcionado para a alienação no âmbito do trabalho, obrigando o sujeito a seguir determinadas normas, erradicando a possibilidade de se expressar e de desenvolver ideias fora do ordinário. Os pontos divergentes entre Marx e Adorno são que para encetar o assunto, a alienação deriva mais de um estado social e menos relacionada com a sensibilidade artística, ou seja, Adorno defende que existe alienação infligida por entidades superiores ao Homem e que através da manipulação cultural tem como meio de veiculação a arte e os meios de comunicação enquanto Marx diz que o fenómeno da alienação foi criado pelo Homem, por pertencer a uma sociedade totalmente capitalista, alienando trabalhos formatado mentalidades da população em geral.

A aparência torna-se total na fase em que o irracionalismo e a falsidade se escondem por trás do racionalismo e da objetiva necessidade. () a ideologia, que confirma a vida, cai na contradição com a vida pela força imanente do ideal. O espirito, (descobre] que a sua realidade não se assemelha.[1]

Adorno encontra no cinema o maior meio de alienação existente na sociedade da sua época e a melhor forma de veicular mensagem, ajudando o desenvolvimento de uma industria cultural. Afirma ainda que, a erradicação do processo de pensamento e o standartizar das mentalidades é estruturada e planeada pelas grandes potencias político-económicas do mundo que utilizam esta cultura industrial para veicular e coagir o ser humano com as suas ideias e ideais.

Resultante disto existe uma perca de identidade por parte do sujeito, com uma subsequente perca de conteúdo critico e cognitivo, formatando-o conforme a restante sociedade.

Referências
[1] Essay on Music, Adorno, T. “Films tend toward a high degree of referentiality – plot, narrative, settings, bodies in gestural relationships, not to downplay the indexical photographic as such. Movies in short were sufficiently “like life” that their reception no longer required rapt contemplation. They could be received by viewers as already familiar” (p. 241)