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quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

A experiência do sagrado


A Sociedade Nacional de Belas-Artes acolhe a exposição Memória do Sagrado de Graciete Rosa Rosa até 6 de Janeiro. Com formação superior e artística na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa e na Universidade de Aveiro, a autora apresenta um percurso nacional e internacional, com exposições individuais e coletivas, de quase trinta décadas, constituindo-se como seus meios artísticos de eleição a Tapeçaria e a Pintura. A presente mostra é constituída por quinze pinturas de técnica mista sobre tela, produzidas na sua totalidade no decurso do ano de 2017.
Ascender é existir
Técnica mista s/ tela (80x100cm)

Memória do Sagrado pode ser descrita, sucintamente, como um percurso místico-reflexivo sobre o(s) lugar(es) do sagrado e o posicionamento humano face a este(s). Graciete Rosa Rosa convida-nos a apreciar o símbolo místico de índole privado. A artista é aqui a visionária, detentora do símbolo à partida, lançando-o publicamente para que seja elaborado, significado e fixado, procurando exprimir o não expressável no mundo exprimível.

A galeria cúbica da Sociedade Nacional de Belas-Artes transmuta-se experiencialmente em esférica dada a narrativa oculta que sequencialmente tece as quinze obras expostas. O percurso de circularidade hegeliana recorda-nos que o principio só se encontra no fim e o fim é essencialmente a realização do principio. Formas humanas soltas, descontínuas, incompletas, entre planos predominantemente matizados em tons ocres térreos e azuis celestes, evocam inquietações, teatralizações, anunciações e ascensões, numa sucessão que remete para o ciclo vital humano. Fragmentos do espaço (e não no espaço), nenhuma forma é composta insularmente, recordando a poética de John Donne Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todos são parte do continente, uma parte de um todo. 

Entre a vida e a morte, ou entre vidas na sinuosidade de uma vida só, o ensaio visual proposto carrega-se misticamente não só pela expressão plástica selecionada, mas também pela modulação discursiva dos títulos. Ascender é existir, Lugar do paraíso deserto, Visão íntima no sono vigilante, Calvário de vidas, Inquietação na ascensão, No azul da anunciação o anjo espreita o sono eterno, ou Segredo do tempo divisível na anunciação, transportam-nos para o plano existencial aquém e além corpos. Corpos que assumem movimentos fluídos de emergência, voo ou imersão, movimentos quietos de contemplação ou sono, movimentos pesarosos de martírio ou elevação. A forma humana corporiza aqui a assunção junguiana de mística, conteúdo da derradeira experiência humana, fixando a vida como processo contínuo de ruína, no qual e do qual as formas emergem somente para serem apanhadas e dissolvidas.

A poética no apelo à luz na vida e na morte
Técnica mista s/tela (80x100cm)
Através do movimento reflexivo, no qual o Espírito se debruça sobre si e procede à rememoração do seu calvário, como diria Hegel, Memória do Sagrado é um convite à experiência numinosa. Laboratório alquímico de memórias para descobrir nelas centelha divina.

Colocado perante uma realidade de ordem diferente da das realidades naturais, o observador é conduzido para dentro, à própria experiência de sagrado. O observador religioso de certo colherá das telas elementos simbólicos que o remeterão para hierofanias familiares - anjos, mártires crucificados. O observador dessacralizado, mesmo partindo de uma existência assumidamente profana, encontrará valores que o recordarão da não-homogeneidade espacial. Trespassado pela obra, encontrará no percurso locais privilegiados do seu ciclo vital, qualitativamente diferentes de outros por velarem uma qualquer propriedade excecional única – a emoção de um nascimento, a consagração de uma união, o aconchego da pertença familiar. Lugares sagrados do universo privado, reveladores de uma outra realidade, experiencialmente diferente da proporcionada na vida quotidiana. O sagrado fala-se aqui por meio do recalcado.

Teatralização no espaço privado
Técnica mista s/ tela (80x100cm)
Libertação da força poética de padrão sensível
Técnica mista s/ tela (80x100cm)





















A proposta artística aparentemente diacrónica, dado o sentido narrativo, é dotada de natureza sincrónica. Embora o uso da palavra dolorosa pareça configurar um cenário de calvário, Memória do Sagrado abre-nos uma via sacralizante sem antes, agora ou depois. A união dos elementos e a totalidade da voz convocada torna identificável a plenitude. O figurativo encerra a polaridade típica do símbolo, permitindo a interpretação em dois sentidos, um virado para a ressurgência contínua das figuras que estão atrás, um segundo para a emergência das figuras que estão à frente. O inconsciente que se foi e o sagrado que se deve ser. Uma memória produto da rememoração, simultaneamente reflexo do desejo.

Neste percurso místico-reflexivo não nos é oferecido um fim, nem um saber absoluto. A relação entre principio e fim é questionada (demonstrando-se assim a sua essência questionável). Não há a busca de uma verdade final, mas a busca da verdade como processo de significação. No fim encontra-se o principio, o fundamento, não só espacialmente, mas narrativamente. O ontológico supera e dispensa o lógico. E, no entretanto, Graciete Rosa Rosa ensina-nos que também é possível tecer com o pincel.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

O perfeito da imperfeição

«Nós sabemos não através do nosso intelecto, mas através da nossa experiência.»
Mearleau Ponty



Uma resenha aos quadradinhos, de autoria própria, que explora dois pontos de vista extremos sobre como podem ser encaradas as crenças ideológicas. Um assume a omnipotência do individuo, ele é livre de acreditar naquilo que quer acreditar. Outro assume a sua impotência, ou seja, o individuo nada tem a ver, a não ser ex post facto, com aquilo em que acredita. Assume-se a perspetiva fenomenológica como fonte do saber. Parte-se do postulado hegeliano de que o progresso do Espirito se faz por meio da superação da consciência representativa que assinala a exterioridade da substância, o em si ainda não desenvolvido. Do em si passa-se ao para si, a manifestação do Conceito, o «homicídio» do Tempo, e a efetivação do Saber Absoluto. Defende-se o retorno da diferença à identidade. Dito de outra forma, interpreta-se de uma forma light a diferenciação enquanto movimento de Outro de retorno ao Mesmo, como auto explicitação do Mesmo por meio de Outro. Avoca-se que todas as palavras são grandezas negativas, ou seja, é o que as palavras não são que as determina. A significação brota do entre palavras, diria Saussure. O valor emerge do intricado tecido das palavras alinhadas, diríamos nós. Tal como a palavra sozinha é vazia sem o sistema que a alimenta virtualmente, na doutrina saussuriana, acredita-se que o individuo partilha com a linguística o principio da vacuidade do sentido em si, ganhando valor não por aquilo que é (dado que tem a qualidade de não ser nada em si mesmo), mas por aquilo que os outros elementos do seu sistema não são. Nesta ótica, no entre cria-se abertura para o ente. Desmorona-se a construção ideológica das massas assente no juízo de valor (bom versus mau). Entende-se tudo o que é como o estritamente necessário para o que tem de ser.

sábado, 9 de dezembro de 2017

O não-dito, o pensado e o sentido, línguas sem dicionário





O poder da palavra é contínuo à história do homem. Desde o aprofundar da arte de utilizar a linguagem para comunicar de forma eficaz e persuasiva na Grécia Antiga, à afirmação da retórica como uma das três artes liberais ensinadas na universidade medieval, ao nascimento da linguística com Ferdinand Saussure no inicio do século XX, a palavra tem sido discutida e pensada suficientemente para produzir consciência coletiva sobre a sua importância. Em maior ou menor grau, a humanidade está ciente de um sem número de palavras: a palavra propagandística, a sensacionalista, a comercialista, a enganosa, a política, a jornalística, a novelesca, a literária, a poética, a cientifica, a livresca, a popular, a musical, a romântica, a rude, a terapêutica,... Enfim, um sem número de significados que encerram outros tantos significados, sendo que alguns são concorrentes simultâneos em categorias distintas, sendo cotados com valores diversos, por vezes até contraditórios, consoante a categoria em que se dizem. Saussure frisou-o na ideia de valor. Para o autor, este é um elemento da significação, sendo o conteúdo de um signo determinado pelo concurso do que existe fora dele. Dito de outra forma, um signo só adquire valor na medida em que não é um outro signo qualquer.

Somos construídos pela linguagem, e analisado ao limite, pode-se mesmo afirmar que a linguagem é a minha mãe, o meu pai, o meu marido, o meu filho, o meu vizinho, o meu colega, como Fry & Laurie afirmam em tom cómico no vídeo colocado no inicio deste post. Nada existe ao certo fora do sujeito que observa. Certos são os conceitos construídos dentro dele mesmo sobre o que é observado. Já afirmava Descartes o único conhecimento do qual não se pode duvidar é o de “eu sou uma coisa pensante”.

Também construímos pela linguagem, sendo este processo, em principio, mais óbvio, dado que se circunscreve numa ação consciente e visível que produz uma reação. Pese embora muitos indivíduos existam numa postura de vitimização perante a vida (i.e., aos quais a vida acontece), e que não abraçam a própria responsabilidade no que dizem e no que constroem com o que dizem (i.e., como é que fazem a vida acontecer), este post não é sobre isso, visto que daria de certo direito a uns cinco ou seis scrolls, e não é o pretendido (embora o entusiasmo de escrever reclame direito a dois ou três scrolls).

O presente post pretende ir além da linguagem que dizemos e da linguagem com que somos ditos, e realçar a linguagem do que não dizemos, a linguagem do que pensamos e a linguagem do que sentimos. Pretende-se destacar o não-dito, o pensado (e simultaneamente o que não se pensa) e o sentido (e simultaneamente o que não se consegue sentir) como o material significante necessário a priori para fazer significar seja o que for, parafraseando Jacques Lacan. Ou dito de outro modo, como a nebulosa onde nada está ainda necessariamente delimitado, porém não na original asserção sausseriana circunscrita ao pensamento, mas numa conceção contemporânea psicológica e metafisica do ser humano.

A linguagem é o Eu Sou. Um pensamento deriva de uma emoção. A palavra proferida advém de um pensamento. A frase expressa reflete-se de volta em termos duma experiência. As palavras são os alicerces de tudo o que continuamente criamos nas nossas vidas, inclusive como nos construímos a nós mesmos enquanto pessoas. E se é verdade que a cultura em que nos inserimos condiciona a linguagem com que falamos e com que somos falados, o facto é que as palavras e as frases que proferimos são meras extensões do nosso pensamento. Neste sentido, se residem em primeira instância dentro de nós, poderíamos estar em situação de melhor vantagem para as modificarmos? Não será o continuo despojamento do poder pessoal, e a perpetuação da culpabilização do que é externo (a sociedade, os políticos, os mass media, a mãe, o pai, o professor, o colega,…), uma estratégia de sobrevivência da linguagem conveniente e confortável. Aquela linguagem que não nos faz mossa, que nos deixa iguaizinhos ao que eramos ontem. A linguagem que não abana Quem Eu Sou e que remete o livre arbítrio a uma mera liberdade de expressão, quando este é, de facto, uma responsabilidade de expressão.

Se a teoria psicanalítica de Freud popularizou o não-dito, designado como inconsciente, e evidenciou um jogo de intenções (por exemplo, lapsos, sonhos, negações, interrupções, pausas) que, embora desconhecidas para o sujeito, revelam um descompasso entre o que o sujeito quer dizer e o que de facto diz (compreendendo uma outra ordem de produção de sentidos estranha à consciência do próprio), o pensado e o sentido só actualmente começam a ganhar algum destaque como motores da linguagem, com a popularização de paradigmas metafísicos na concepção do ser humano e da sua relação com o meio envolvente.

Como pensado entende-se a consciência que o sujeito tem de si, dos outros e do mundo. Ou seja, quais são as crenças subjacentes ao seu modo de estar consigo e com os outros? Qual é a quantidade e a qualidade do seu diálogo interno? Acredita num mundo benevolente ou num mundo cruel? Acredita que é suficientemente bom, que tem valor intrínseco ou que por muito que se esforce nada será como deseja? Como sentido entende-se as emoções que, como água num rio, fazem o sujeito fluir na vida. A razão é habitualmente tida como o epifanário humano, de onde emergem as criações mais surpreendentes e entusiasmantes, mas em verdade, em verdade vos digo que a emoção é a real nebulosa. Fry & Laurie afloram superficialmente a função das emoções na linguagem, questionando-se se estas lhes são intrínsecas ou extrínsecas. Eu digo que é o verdadeiro motor de tudo o que é. Prova é que todos estamos aqui e agora por causa de uma emoção. O sentir confere o sentido. 

É necessário, então, aprender a compreender o não-dito, o pensado e o sentido para que sejam reveladas outras linguagens dentro da linguagem. A mutabilidade do emocional condiciona a linguagem a uma maior inconstância do que a compreendida percetivamente. O que é hoje não é igual ao que foi ontem. As condições, embora possam parecer análogas, são de certo sentidas distintamente. Como diz Alice, na famosa obra de Lewis Carrol “ – Posso contar-vos as minhas aventuras... a começar por esta manhã – disse Alice, um pouco a medo -, mas não vale a pena contar o que se passou ontem, porque eu ontem era uma pessoa diferente.” (p.116)

Não será este o motivo que criou no homem a necessidade de arte? A arte enquanto dicionário do não-dito, do pensado, do não-pensado, do sentido e do não sentido para auxiliar a compreensão de linguagens paralelas dentro de uma grande linguagem. A arte enquanto mestria humana, subterfúgio da intuição, para reclamar a possibilidade de percecionar concomitantemente distintas linguagens impossíveis de serem contidas na racionalidade dualista da mente humana. A arte como o Flash, que pelos poderes conferidos pela sua velocidade supersónica consegue visitar e conhecer outras versões simultâneas e paralelas de si mesma, em que as não escolhas foram as escolhas, o não sentido foi o vivido e o não dito foi o falado.


Bem hajam!