sábado, 9 de dezembro de 2017

O não-dito, o pensado e o sentido, línguas sem dicionário





O poder da palavra é contínuo à história do homem. Desde o aprofundar da arte de utilizar a linguagem para comunicar de forma eficaz e persuasiva na Grécia Antiga, à afirmação da retórica como uma das três artes liberais ensinadas na universidade medieval, ao nascimento da linguística com Ferdinand Saussure no inicio do século XX, a palavra tem sido discutida e pensada suficientemente para produzir consciência coletiva sobre a sua importância. Em maior ou menor grau, a humanidade está ciente de um sem número de palavras: a palavra propagandística, a sensacionalista, a comercialista, a enganosa, a política, a jornalística, a novelesca, a literária, a poética, a cientifica, a livresca, a popular, a musical, a romântica, a rude, a terapêutica,... Enfim, um sem número de significados que encerram outros tantos significados, sendo que alguns são concorrentes simultâneos em categorias distintas, sendo cotados com valores diversos, por vezes até contraditórios, consoante a categoria em que se dizem. Saussure frisou-o na ideia de valor. Para o autor, este é um elemento da significação, sendo o conteúdo de um signo determinado pelo concurso do que existe fora dele. Dito de outra forma, um signo só adquire valor na medida em que não é um outro signo qualquer.

Somos construídos pela linguagem, e analisado ao limite, pode-se mesmo afirmar que a linguagem é a minha mãe, o meu pai, o meu marido, o meu filho, o meu vizinho, o meu colega, como Fry & Laurie afirmam em tom cómico no vídeo colocado no inicio deste post. Nada existe ao certo fora do sujeito que observa. Certos são os conceitos construídos dentro dele mesmo sobre o que é observado. Já afirmava Descartes o único conhecimento do qual não se pode duvidar é o de “eu sou uma coisa pensante”.

Também construímos pela linguagem, sendo este processo, em principio, mais óbvio, dado que se circunscreve numa ação consciente e visível que produz uma reação. Pese embora muitos indivíduos existam numa postura de vitimização perante a vida (i.e., aos quais a vida acontece), e que não abraçam a própria responsabilidade no que dizem e no que constroem com o que dizem (i.e., como é que fazem a vida acontecer), este post não é sobre isso, visto que daria de certo direito a uns cinco ou seis scrolls, e não é o pretendido (embora o entusiasmo de escrever reclame direito a dois ou três scrolls).

O presente post pretende ir além da linguagem que dizemos e da linguagem com que somos ditos, e realçar a linguagem do que não dizemos, a linguagem do que pensamos e a linguagem do que sentimos. Pretende-se destacar o não-dito, o pensado (e simultaneamente o que não se pensa) e o sentido (e simultaneamente o que não se consegue sentir) como o material significante necessário a priori para fazer significar seja o que for, parafraseando Jacques Lacan. Ou dito de outro modo, como a nebulosa onde nada está ainda necessariamente delimitado, porém não na original asserção sausseriana circunscrita ao pensamento, mas numa conceção contemporânea psicológica e metafisica do ser humano.

A linguagem é o Eu Sou. Um pensamento deriva de uma emoção. A palavra proferida advém de um pensamento. A frase expressa reflete-se de volta em termos duma experiência. As palavras são os alicerces de tudo o que continuamente criamos nas nossas vidas, inclusive como nos construímos a nós mesmos enquanto pessoas. E se é verdade que a cultura em que nos inserimos condiciona a linguagem com que falamos e com que somos falados, o facto é que as palavras e as frases que proferimos são meras extensões do nosso pensamento. Neste sentido, se residem em primeira instância dentro de nós, poderíamos estar em situação de melhor vantagem para as modificarmos? Não será o continuo despojamento do poder pessoal, e a perpetuação da culpabilização do que é externo (a sociedade, os políticos, os mass media, a mãe, o pai, o professor, o colega,…), uma estratégia de sobrevivência da linguagem conveniente e confortável. Aquela linguagem que não nos faz mossa, que nos deixa iguaizinhos ao que eramos ontem. A linguagem que não abana Quem Eu Sou e que remete o livre arbítrio a uma mera liberdade de expressão, quando este é, de facto, uma responsabilidade de expressão.

Se a teoria psicanalítica de Freud popularizou o não-dito, designado como inconsciente, e evidenciou um jogo de intenções (por exemplo, lapsos, sonhos, negações, interrupções, pausas) que, embora desconhecidas para o sujeito, revelam um descompasso entre o que o sujeito quer dizer e o que de facto diz (compreendendo uma outra ordem de produção de sentidos estranha à consciência do próprio), o pensado e o sentido só actualmente começam a ganhar algum destaque como motores da linguagem, com a popularização de paradigmas metafísicos na concepção do ser humano e da sua relação com o meio envolvente.

Como pensado entende-se a consciência que o sujeito tem de si, dos outros e do mundo. Ou seja, quais são as crenças subjacentes ao seu modo de estar consigo e com os outros? Qual é a quantidade e a qualidade do seu diálogo interno? Acredita num mundo benevolente ou num mundo cruel? Acredita que é suficientemente bom, que tem valor intrínseco ou que por muito que se esforce nada será como deseja? Como sentido entende-se as emoções que, como água num rio, fazem o sujeito fluir na vida. A razão é habitualmente tida como o epifanário humano, de onde emergem as criações mais surpreendentes e entusiasmantes, mas em verdade, em verdade vos digo que a emoção é a real nebulosa. Fry & Laurie afloram superficialmente a função das emoções na linguagem, questionando-se se estas lhes são intrínsecas ou extrínsecas. Eu digo que é o verdadeiro motor de tudo o que é. Prova é que todos estamos aqui e agora por causa de uma emoção. O sentir confere o sentido. 

É necessário, então, aprender a compreender o não-dito, o pensado e o sentido para que sejam reveladas outras linguagens dentro da linguagem. A mutabilidade do emocional condiciona a linguagem a uma maior inconstância do que a compreendida percetivamente. O que é hoje não é igual ao que foi ontem. As condições, embora possam parecer análogas, são de certo sentidas distintamente. Como diz Alice, na famosa obra de Lewis Carrol “ – Posso contar-vos as minhas aventuras... a começar por esta manhã – disse Alice, um pouco a medo -, mas não vale a pena contar o que se passou ontem, porque eu ontem era uma pessoa diferente.” (p.116)

Não será este o motivo que criou no homem a necessidade de arte? A arte enquanto dicionário do não-dito, do pensado, do não-pensado, do sentido e do não sentido para auxiliar a compreensão de linguagens paralelas dentro de uma grande linguagem. A arte enquanto mestria humana, subterfúgio da intuição, para reclamar a possibilidade de percecionar concomitantemente distintas linguagens impossíveis de serem contidas na racionalidade dualista da mente humana. A arte como o Flash, que pelos poderes conferidos pela sua velocidade supersónica consegue visitar e conhecer outras versões simultâneas e paralelas de si mesma, em que as não escolhas foram as escolhas, o não sentido foi o vivido e o não dito foi o falado.


Bem hajam!

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