O poder da palavra é contínuo à história do homem. Desde o
aprofundar da arte de utilizar a linguagem para comunicar de forma eficaz e
persuasiva na Grécia Antiga, à afirmação da retórica como uma das três artes
liberais ensinadas na universidade medieval, ao nascimento da linguística com
Ferdinand Saussure no inicio do século XX, a palavra tem sido discutida e
pensada suficientemente para produzir consciência coletiva sobre a sua
importância. Em maior ou menor grau, a humanidade está ciente de um sem número
de palavras: a palavra propagandística, a sensacionalista, a comercialista, a
enganosa, a política, a jornalística, a novelesca, a literária, a poética, a
cientifica, a livresca, a popular, a musical, a romântica, a rude, a
terapêutica,... Enfim, um sem número de significados que encerram outros tantos
significados, sendo que alguns são concorrentes simultâneos em categorias
distintas, sendo cotados com valores diversos, por vezes até contraditórios,
consoante a categoria em que se dizem. Saussure frisou-o na ideia de valor.
Para o autor, este é um elemento da significação, sendo o conteúdo de um signo determinado pelo
concurso do que existe fora dele. Dito de outra forma, um signo só adquire
valor na medida em que não é um outro signo qualquer.
Somos construídos pela linguagem, e analisado ao limite,
pode-se mesmo afirmar que a linguagem é a minha mãe, o meu pai, o meu marido, o
meu filho, o meu vizinho, o meu colega, como Fry & Laurie afirmam em tom
cómico no vídeo colocado no inicio deste post. Nada existe ao certo fora do
sujeito que observa. Certos são os conceitos construídos dentro dele mesmo
sobre o que é observado. Já afirmava Descartes o único conhecimento do qual não
se pode duvidar é o de “eu sou uma coisa pensante”.
Também construímos pela linguagem, sendo este processo, em
principio, mais óbvio, dado que se circunscreve numa ação consciente e visível
que produz uma reação. Pese embora muitos indivíduos existam numa postura de
vitimização perante a vida (i.e., aos quais a vida acontece), e que não abraçam
a própria responsabilidade no que dizem e no que constroem com o que dizem
(i.e., como é que fazem a vida acontecer), este post não é sobre isso, visto
que daria de certo direito a uns cinco ou seis scrolls, e não é o pretendido
(embora o entusiasmo de escrever reclame direito a dois ou três scrolls).
O presente post pretende ir além da linguagem que dizemos e
da linguagem com que somos ditos, e realçar a linguagem do que não dizemos, a
linguagem do que pensamos e a linguagem do que sentimos. Pretende-se destacar o
não-dito, o pensado (e simultaneamente o que não se pensa) e o sentido (e
simultaneamente o que não se consegue sentir) como o material significante
necessário a priori para fazer significar seja o que for,
parafraseando Jacques Lacan. Ou dito de outro modo, como a nebulosa onde nada
está ainda necessariamente delimitado, porém não na original asserção
sausseriana circunscrita ao pensamento, mas numa conceção contemporânea
psicológica e metafisica do ser humano.
A linguagem é o Eu Sou. Um pensamento deriva de uma emoção.
A palavra proferida advém de um pensamento. A frase expressa reflete-se de
volta em termos duma experiência. As palavras são os alicerces de tudo o que
continuamente criamos nas nossas vidas, inclusive como nos construímos a nós
mesmos enquanto pessoas. E se é verdade que a cultura em que nos inserimos
condiciona a linguagem com que falamos e com que somos falados, o facto é que
as palavras e as frases que proferimos são meras extensões do nosso pensamento.
Neste sentido, se residem em primeira instância dentro de nós, poderíamos estar
em situação de melhor vantagem para as modificarmos? Não será o continuo
despojamento do poder pessoal, e a perpetuação da culpabilização do que é
externo (a sociedade, os políticos, os mass media, a mãe, o pai, o
professor, o colega,…), uma estratégia de sobrevivência da linguagem
conveniente e confortável. Aquela linguagem que não nos faz mossa, que nos
deixa iguaizinhos ao que eramos ontem. A linguagem que não abana Quem Eu Sou e
que remete o livre arbítrio a uma mera liberdade de expressão, quando este é,
de facto, uma responsabilidade de expressão.
Se a teoria psicanalítica de Freud popularizou o não-dito,
designado como inconsciente, e evidenciou um jogo de intenções (por exemplo,
lapsos, sonhos, negações, interrupções, pausas) que, embora desconhecidas para
o sujeito, revelam um descompasso entre o que o sujeito quer dizer e o que de
facto diz (compreendendo uma outra ordem de produção de sentidos estranha à consciência
do próprio), o pensado e o sentido só actualmente começam a ganhar algum
destaque como motores da linguagem, com a popularização de paradigmas
metafísicos na concepção do ser humano e da sua relação com o meio envolvente.
Como pensado entende-se a consciência que o sujeito tem de
si, dos outros e do mundo. Ou seja, quais são as crenças subjacentes ao seu
modo de estar consigo e com os outros? Qual é a quantidade e a qualidade do seu
diálogo interno? Acredita num mundo benevolente ou num mundo cruel? Acredita
que é suficientemente bom, que tem valor intrínseco ou que por muito que se
esforce nada será como deseja? Como sentido entende-se as emoções que, como
água num rio, fazem o sujeito fluir na vida. A razão é habitualmente tida como
o epifanário humano, de onde emergem as criações mais surpreendentes e
entusiasmantes, mas em verdade, em verdade vos digo que a emoção é a real
nebulosa. Fry & Laurie afloram superficialmente a função das emoções na
linguagem, questionando-se se estas lhes são intrínsecas ou extrínsecas. Eu
digo que é o verdadeiro motor de tudo o que é. Prova é que todos estamos
aqui e agora por causa de uma emoção. O sentir confere o sentido.
É necessário, então, aprender a compreender o não-dito, o
pensado e o sentido para que sejam reveladas outras linguagens dentro da
linguagem. A mutabilidade do emocional condiciona a linguagem a uma maior
inconstância do que a compreendida percetivamente. O que é hoje não é igual ao
que foi ontem. As condições, embora possam parecer análogas, são de certo
sentidas distintamente. Como diz Alice, na famosa obra de Lewis Carrol “ –
Posso contar-vos as minhas aventuras... a começar por esta manhã – disse Alice,
um pouco a medo -, mas não vale a pena contar o que se passou ontem, porque eu
ontem era uma pessoa diferente.” (p.116)
Não será este o motivo que criou no homem a necessidade de
arte? A arte enquanto dicionário do não-dito, do pensado, do não-pensado, do
sentido e do não sentido para auxiliar a compreensão de linguagens paralelas
dentro de uma grande linguagem. A arte enquanto mestria humana, subterfúgio da
intuição, para reclamar a possibilidade de percecionar concomitantemente
distintas linguagens impossíveis de serem contidas na racionalidade dualista da
mente humana. A arte como o Flash, que pelos poderes conferidos pela sua
velocidade supersónica consegue visitar e conhecer outras versões simultâneas e
paralelas de si mesma, em que as não escolhas foram as escolhas, o não sentido foi o vivido e o não dito foi o falado.
Bem hajam!
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