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terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Her, de Spike Jonze

É um futuro próximo. Tão próximo que não temos como o negar. Vai ser impossível lutar contra isso. Nem sequer vamos tentar. Vamos lidar com issoE por mais estranho que pareça, vai ser com uma certa facilidade. Face it!




Her, é o pensamento de muitos nós. É o desvendar de um segredo comum. É um pedaço de filme da vida de cada um de nós. Este precisamente acompanha a vida de Theodore Twombly, um homem complexo, emotivo, que está ligado diretamente à escrita de cartas pessoais. A curiosidade passa pelo facto de Theodore ter o coração nas mãos, após o final de um relacionamento. Intrigado com um novo sistema operacional, tem o prazer de conhecer Samantha. A voz que precisava de ouvir. Uma voz feminina. Perspicaz. Sensível. Engraçada. Vai ser ela a fonte de necessidades que partilham os dois. A amizade. O amor. A paixão.

Spike Jonze, diretor e roteirista observa o personagem que criou com um olhar afetuoso, colocando-o também em conflitos afetivos, éticos e morais. 
O roteiro magnífico explora não só o amor, como o ciúme, o sentimento de posse, o sexo, a distância. Adaptado aos amores contemporâneos, fala-se de uma longa metragem com um clima fluído, imagens de pouco contraste, uma banda sonora agridoce, construindo assim, uma viagem linear, sem a necessidade de reviravoltas para despertar a atenção do espectador.

O drama Her funciona como uma ficção científica, no sentido em que faz uso de fantasmas humanos na tecnologia para questionar o presente e o futuro. O mais curioso deste filme, é que não só faz uso de pouco contraste, como tanto as cores como os figurinos, nos levam aos anos 60 e 70, enquanto os espaços não remetem para nenhuma cidade em específico. Mas remete-nos para um futuro. Um futuro do pretérito, um mundo anónimo, sem personalidade. Fruto da globalização.

O futuro imaginado por Jonze é individualista. Triste. Melancólico. Onde a tecnologia estabelece meios para encontrar o amor pela internet, desde as palavras mais simples, ao sexo virtual. Jonze não investe única e exclusivamente a um tradicional conflito entre a tecnologia e os humano. Investe sim, numa fusão entre estes dois mundos, em que é necessária a interação humana com o sistema virtual. 




Theodore namora com um sistema operacional. A sua vizinha Amy, constrói uma amizade com outro sistema operacional. Para os personagens, o virtual é visto como algo a alcançar. Como um modelo de perfeição. 

“O amor é uma forma de insanidade socialmente aceitável”, diz o personagem Amy.


O Personagem

Joaquin Phoenix faz de Theodore. Um homem inteligente, solitário, mas longe de ser um “loser” deprimente típicos de filmes independentes. Este personagem é, acima de tudo, um homem com quem todos se poderiam identificar. Já Samatha, o sistema operacional, é a voz de um personagem complexo criado apenas por uma tela de um smartphone. Scarlet Johansson permite a Samatha que a sua evolução se torne cada vez mais humana, concreta e até palpável, mas sem o sonho de se poder tornar real. 

Este filme é uma reflexão profunda sobre alguns aspetos que ligam os homens às máquinas. À projeção que fazemos dos nossos amores numa inviabilidade do meio virtual.





É nesta história que se cruza a exploração da natureza evolutiva. Os riscos. Os problemas. As soluções. A intimidade. O nosso mundo. É assim que os filhos dos nossos filhos vão crescer, porque a tecnologia não vai parar, e à velocidade que ela corre nos dias de hoje, tão rápido como a velocidade que o sangue corre nas nossas veias, vai ser esse o desfecho no nosso futuro. 


As aparências iludem

Às vezes deixamo-nos enganar por uma bela embalagem, sem saber o que há por dentro. Às vezes deixamos o pior de nós “sair à rua”, em vez do que temos de melhor. Estamos 24 sob 24 horas preocupados com isto e aquilo. Aquilo que pensam de nós. Aquilo que queremos que pensem de nós. Aquilo que realmente somos. 

A culpa disto não é de ninguém em particular, nem daquele nem deste. A evolução da sociedade trouxe, um termo muito peculiar, uma massificação do comportamento humano. A beleza. O corpo. O eu. Sendo as únicas coisas primordiais, e o que é preciso para se ser alguém. 

As relações ficaram artificiais. As pessoas preferem valorizar coisas, objetos, para assim se sentirem alguém, para se sentirem valorizados, pensando que esse seja o caminho a seguir. 
Outras pensam que a essência é o que realmente conta.

As aparências enganam.
Mas a essência não. 

Para muitos filósofos, a aparência é algo a ser superado, justamente pelo conhecimento que se pode construir a partir daquilo que há de mais essencial, aquilo que nos dá identidade. Alguns filósofos nem falavam em “essência”. Platão falava em ideias ou em formas. Já Aristóteles preferia outro termo. Para ele, a substância é que faz com que uma coisa não seja confundida com as outras. Assim, é a substância de uma cadeira que faz com que ela seja cadeira. O facto é que a aparência pode ser enganosa, mas a substância nunca. 

Mas como chegaremos às essências sem passar pelas aparências?

Apesar de algumas dificuldades em decifrar o que está na cabeça de uma sociedade tão influenciada pelas imagens, há alguns exercícios que nos fazem pensar e nos fazem tornar, as relações que temos com todos, relações verdadeiras. Todos nós também já partimos de um julgamento fixo, e devemos pensar na posição que tomamos perante assuntos delicados como este. A priori todos são preconceituosos, só vemos a aparência, única e exclusivamente o que está por fora. Devíamos parar para refletir. Parar para termos consciência do que fazemos involuntariamente, se torne voluntária. É preciso ter uma visão crítica sobre o que acontece constantemente ao nosso redor. Conseguir distinguir o que é relevante para a nossa realidade versus aquilo que é visto como um padrão para a sociedade. 


A ideia é aproveitar o que de bom e de mau traz a vida. Aceitarmo-nos tal e qual como somos, sem segundas intenções. Termos consciência que falta ao mundo um pouco de compreensão, compaixão, e até de entrega. 

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

As faces da ideologia


Ideologia — compêndio das ilusões através das quais os homens pensavam a sua própria realidade de maneiras enviesada, deformada, fantasmagórica.
Uma das abordagens a este termo é a ideia de que esta possui uma panóplia de significados. Uma vez que, no senso comum é tido como algo ideal, contendo um conjunto de ideias (pensamentos e visões) do mundo de um indivíduo.

Uma segunda interpretação vem do pensamento marxista, em que o termo é visto sob uma concepção crítica, considerando que a ideologia é um instrumento de dominação que age por meio de persuasão, alienando a consciência humana. 


“É a linguagem da vida real. As representações, o pensamento, o comércio intelectual dos homens, surge aqui como emanação direta do seu comportamento material.” Karl Marx e Friedrich Engles, 1932-1976.

Parte-se da ideia de uma linguagem da vida real. Da representação e da produção de ideias ligada à atividade material dos homens. Assim, os componentes ideológicos de uma superestrutura seriam formados por julgamentos, necessariamente enganadores através da distorção da compreensão da realidade. Continuando na lógica do pensamento marxista, a superestrutura deriva de um conflito de interesses das diferentes classes da sociedade, e dos seus modos de pensar.

Trata-se de uma falsa consciência. Consciência de um mundo material, como uma imagem distorcida. E quanto maior for a capacidade de omitir a luta de classes, mais eficaz é a ideologia, e é desse modo que a ideologia atua como uma falsa consciência, impedindo o desenvolvimento de uma outra consciência. 

“Não é a consciência que determina a vida, mas sim a vida que determina a consciência."  Karl Marx e Friedrich Engles, 1932-1976.

Isto parte para a ideia que todos temos aquilo que somos. Daquilo que mostramos de nós e de como se reflete nas nossas ações. Daquilo que pensamos, daquilo que temos. Da representação que fazemos do que está "debaixo do nosso nariz”. Esta é a linguagem da vida real. Da nossa vida, da nossa consciência. Parte de nós, enquanto indivíduos reais, vivos, ocupantes de um corpo, considerarmos a consciência unicamente com uma consciência, desenvolvendo produções e relações com uma realidade que nos é própria. 

Partimos do princípio que isto é assim. Que não existe qualquer resposta, ou questão. É sempre assim? Sempre a mesma coisa? Os anos passam e as questões não surgem, porque é algo que já nos é inato. Como o “Eu tenho uma ideologia própria.”, e nada se questiona. 


Um exemplo concreto é o do ensino. O que aprendemos. O que nos ensinam. Um mundo onde as ideias e pensamentos são milhares, expressas por todos os docentes. Vem tudo de citações como, “A escola dá oportunidades a todos os alunos de aprenderem as coisas da vida”, ou “A função do professor é ensinar e a do aluno aprender”. O que realmente demonstram estas frases são os pensamentos disseminados, não só na escola, mas como fora dessa caixa. Quem disse que os alunos não possuam qualquer conhecimento e o professor é o único dono da verdade? E as nossas experiências pessoais? Todas estas ideias prescrevem as normas, generalizam um discurso e invertem a realidade ao naturalizar os factos. Sem esquecer que tudo passa a ser uma norma, uma ordem, dita como “normal”.

Referências:
MARX, K. & ENGELS, F. A Ideologia Alemã. Trad. Castro e Costa
MARX, K. (1993). O Trabalho Alienado in "Manuscritos Económicos-Filosóficos". Lisboa. Ed 70, p.159-166.