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quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) — Recensão

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), escrito e realizado por Alejandro González Iñárritu, é um filme norte-americano de 2014, filmado em Nova Iorque que, em 2015, venceu quatro prémios da academia Óscares, sendo um deles da categoria “Best Picture”.

Relembrando o dia em que fui ao cinema com a minha família para ver o filme “Bridman”, lembro-me que o entusiasmo e a expectativa que tinha para o filme era pouco (ou mesmo nada…). Estava certa de que iria ver um filme sobre ou super-heróis ou algo que rondava esse tema. Esta ideia deu-se pelo facto de não ter visto o trailler antes de ver o filme, e agora fico feliz por não o ter feito. Foi uma surpresa inesperada.

O filme conta-nos a história de um ator de Hollywood, Riggan Thomson, reconhecido pelo seu papel de super-herói na sequela de filmes “Birdman”. Apesar do mérito que ganhou ao interpretar o papel de Birdman, Riggan decide recusar atuar no quarto filme. Com esta decisão, a sua carreira como ator dá início a uma grande decadência. Para remediar a sua decisão, para recuperar o sucesso perdido e ganhar uma nova fama e reconhecimento - resistindo sempre à ideia de ser reconhecido apenas pelo seu papel como o ícone cultural “Birdman”, Riggan luta para dirigir e produzir uma adaptação de uma obra do escritor norte-americano Raymond Carver, na Broadway.

O filme começa neste momento da vida de Riggan Thomson. As imagens do filme mostram-nos um ambiente pesado, escuro onde a personagem principal é “assombrada” por uma voz proveniente da sua consciência que, num momento mais avançado do filme, conseguimos perceber que esta personifica o herói Birdman e os seus pensamentos. A ideia que Riggan tem do seu papel como Birdman é fraca, e isto dá-se a entender pela necessidade constante que este tem em se distrair e negar esta “voz” que ouve, bem como a sua obsessão pelo perfeccionismo na realização desta peça. 

Durante todo o filme, o espectador encontra-se no autentico “stress”. E esta ânsia foi propositada pelo realizador. A gravação foi feita de maneira a que parecesse que as duas horas de filme tivessem sido gravadas num único take. Existem poucos cortes entre as imagens, estas são bruscas e rápidas e isto deu a sensação de eu própria me encontrar lá, a correr a trás das personagens nos corredores ou a olhar para a plateia de espectadores encontrando-me de pé no palco. Os discursos das personagens e diálogos entre os mesmos são contínuos, sem out-takes ou cortes pelo meio. 

“I know Alejandro is very adamant about kind of keeping the rabbit in the hat and not being super specific about how it was shot, but I will say it took a lot of rehearsal and it was very specific... There was no luxury of cutting away or editing around anything. You knew that every scene was staying in the movie, and like theater, this was it, this was your chance to live this scene.” — Emma Stone

Para somar à esta aceleração, o filme é acompanhado por um solo de bateria, tocando jazz. Este detalhe, apesar de por vezes ser consumido pela força das imagens, se não estivesse lá a carga de ânsia do filme reduziria bastante. É destes detalhes que se faz o filme, apesar da história forte que tem por detrás, a força e aceleração da música encaminhamos a pensar num final drástico.

“You’re scared to death, like the rest of us, that you don’t matter. And you’re right. You don’t. It’s not important. You are not important. Get used to it.” — fala de Samantha

A mensagem que tirei deste filme, apesar de muito diferente de algumas pessoas com quem discuti sobre tal, é simples. Para mim, este filme mostra a cabeça de uma pessoa normal do século XX ou XIX. Hoje em dia as pessoas têm o desejo de fazer alguma coisa importante, ou deixar o seu nome de alguma maneira para ser relembrado neste Mundo, para marcar. Temos a necessidade de ter importância na sociedade, ter um nome. E a história deste ator não é diferente. Riggan Thomson queria mais do que apenas ser reconhecido por ter feito um papel de uma personagem imaginada. Queria fazer algo que lhe desse orgulho de apresentar, ter autoria nas sua próprias escolhas e obrigações. É uma história que conta a necessidade desta personagem de apenas ter importância. É uma crítica aos dias de hoje, à maneira como vivemos a vida.

Alejandro González Iñárritu intencionalmente deixou o final do filme em aberto. Para mim, apesar do final terrífico, é como se esse ato de Riggan tivessem sido um exemplo de heroísmo para vida das personagens que o rodeavam, sobretudo para a sua filha Samantha. É como se tivesse despertado um sentido de coragem, como se tivesse m chegado aonde queria e aonde precisava, e eu justifico isso com o olhar de Sam quando olha pela janela ao ver o pai “voar”. Mais do que coragem ou heroísmo, acredito também que esta é uma história de aceitação, onde Riggan acaba por deixar de se assombrar com a presença de “Birdman”, ou pela noção de que o Mundo o conhece por esse papel.



"At the ending of the film [it] can be interpreted as many ways as there are seats in the theater." — Kendrick Ben

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Será a cultura um meio para justificar decisões?

O ser humano vive e sempre viveu numa sociedade em que a supremacia de alguns domina os restantes. Vivemos num Mundo em que somos conformados a viver perante uma hegemonia, um lugar em que aceitamos ser tratados e viver perante regras e ideias idealizadas por grupos “superiores” que, geralmente e apesar de não nos apercebermos, são a minoria.
É por esta razão que, durante a história do nosso “universo”, temos notícias de vários “passos positivos”, diversos acontecimentos que só ajudaram a humanidade a crescer, a ascender e a evoluir. Infelizmente, muitos desses “passos” são relativos ao racismo, ao decréscimo deste ódio, mostrando que vivemos numa sociedade em que a "extinção" da raiva ou descriminação a grande nível, são objetivos ainda não conseguidos. E estes passos positivos apenas são dados devido a manifestações, a atos de coragem ou a resultado de sustos terríveis. 
Apesar dos vários avanços a este nível como o direito ao voto de ambos mulher ou pretos, a possibilidade de pessoas do mesmo sexo se casarem, a proibição de escravatura tanto sénior como infantil, e muitos mais…ainda vivemos num Mundo em que o olhar de várias pessoas é construído a partir de ideias que demonstram que deveríamos viver num Mundo onde a desigualdade é algo obrigatório ou natural.

(…)uma teoria da ideologia concebe igualmente o fracasso de parte da tentativa de toda ideologia em controlar, homogeneizar, impor seus monoteísmos morais, sociais ou políticos à existência individual ou coletiva. Os indivíduos, embora sob o domínio do discurso ideológico em todas as culturas e sociedades, e em todas as épocas históricas, a esse domínio resistem, reinterpretam a realidade, ressignificam códigos, práticas, tornam-se pontos de resistência às formas da dominação e da sujeição que a ideologia visa universalizar e naturalizar, resistência, pois, à própria ideologia enquanto discurso.”
Ideologia e transgressão — Alípio de Sousa Filho


Estas ideias impreterivelmente (ou não) impostas nas pessoas de um Mundo em que a igualdade é algo que não está certa é algo que a sociedade nos impõe. Vivemos ainda muito agarrados ao passado, ainda justificamos muitos atos e decisões com base na “cultura”, achamos que por bem dos nossos antepassados certas escolhas, mesmo estas estando erradas, têm de ser feitas. 

O que se encontra e acontece onde vivemos tem, geralmente, muito impacto na maneira como pensamos, principalmente dentro do nosso lar. Se os meus pais acreditarem num Deus, e me educarem de tal maneira, é certo que terei essa crença em consideração e não muitas outras que se calhar me poderiam fazer mais sentido, porque o que nos ensinam e o que nos dizem estar certo ou errado basta para cada um. Habituamo-nos a viver uma vida levada por ensinamentos das pessoas à nossa volta, e não damos muita importância ao aprender ou aprofundar por nós próprios. 


E para acrescentar a esta vulgar falta de pensamento “pela própria cabeça”, a nossa cultura tem um grande peso nas nossas decisões diárias. Não só por estarmos habituados, mas também porque temos medo de grandes mudanças, o ser humano, por norma, não contradiz a sua cultura, a não ser que algo esteja decerto errado hoje-em-dia (outra vez, dando o exemplo da escravatura). A nossa cultura é algo que pesa bastante nas decisões e evolução do nosso Mundo, e apesar desta ter ajudado a construir uma sociedade bem como as suas ideologias seguidas atualmente, esta também é algo que, tal como a humanidade, tem de evoluir e se o contrario se suceder, só dará mais espaço que o atraso da evolução da humanidade decorra.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Ensino e educação

“Ninguém educa ninguém, ninguém se educa a si mesmo, os homens educam-se entre si, mediatizados pelo mundo.”.
- Paulo Freire : Pedagogia do Oprimido

A diferença entre o ensino e a educação é algo que não está bem estabelecida na sociedade em que vivemos. O que interessa a muita gente é conseguir chegar o mais longe possível, e com isto pretende-se ser a pessoa que mais dinheiro ganha. A ideia de uma vida perfeita hoje em dia é uma vida onde o indivíduo tenha inúmeras posses, heranças ou excessivo dinheiro para gastar nas mais recentes e inovadoras tecnologias ou carros. Já não interessa tanto o saber da história, ter cultura ou ainda mais importante, saber-se ser boa pessoa e viver em comunidade. Com isto, nós seres humanos começamos a valorizar o ensino mais do que a educação, pensando que este nos levará mais longe e esquecemo-nos da sociedade em que vivemos e o desenvolvimento desta.
Apesar da relação que se estabelece entre o ensino e a educação, estes dois princípios são bastantes distintos. Para o primeiro tem, obrigatoriamente, de existir uma relação entre dois indivíduos (ou num mundo mais futurista, um indivíduo e um objeto que tenha a capacidade de ensinar), como Prof. M.e Hermes Honório da Costa refere na obra Currículo, poder e construção do sujeito, que o ensino está ligado directamente com o ato de ajudar a encontrar respostas, soluções e questionamentos relacionados com o conhecimento, curiosidade e desejo de saber.

 “(…) ensino tem um relacionamento direto com o ato de ajudar alguém a buscar respostas para perguntas e questionamentos relacionados à busca de conhecimento e à solução das curiosidades e do desejo de saber.” 
- Currículo, poder e construção do sujeito — Prof. M.e Hermes Honório da Costa

Ao contrário do primeiro, a educação está ligada à vivência de uma pessoa num meio cultural. Onde cada um aprende a viver em sociedade, aprende os valores históricos e culturais do meio onde vive e, com isto, os comportamentos “socialmente consagrados e aceitos” nessa comunidade, como o mesmo autor refere na sua tese. A educação de uma pessoa está diretamente relacionada à construção do próprio indivíduo, com isto, ligado à comunidade em que este mesmo vive pois aquilo que nós somos é submisso à sociedade onde estamos incorporados, das ideologias que nos englobam.

"Educação, sem fugir das questões relativas a ensino e a aprendizagem, trata também dos comportamentos socialmente consagrados e aceitos que, no seu conjunto, formam os valores culturais de uma sociedade."
- Currículo, poder e construção do sujeito — Prof. M.e Hermes Honório da Costa


O ensino está, maioritariamente, ligado às escolas, que acompanham uma pessoa nos anos cruciais do seu crescimento. Durante muitos anos, consideramos as escolas como um lugar segura, uma segunda casa onde aprendemos a errar e a duvidar de nós próprios ou a aprender e a aumentar a nossa confiança. Com isto, percebemos que a ligação entre o ensino e a educação não pode ser negada, num espaço que serve à educação de indivíduos,  é impossível ultrapassar regras e ideais históricos estabelecidos para que o funcionamento de tal sistema resulte e somando a isto, vai, obrigatoriamente, ser um lugar onde cada um irá crescer de modo físico, mas mais importante mentalmente. 
Ao ter consciência deste trabalho conjunto, podemos perceber que a educação, é algo crucial para a vivência numa comunidade, e com isto percebemos que é algo que não pode nem ser negado nem esquecido. A educação de uma pessoa é algo fundamental para a sua adaptação e vida no nosso Mundo, é o que nos leva a conseguir chegar a objetivos mais importantes que o dinheiro ou posses, é o que nos dá hipótese de nos relacionarmos uns com os outros e, de alguma forma, conhecer melhor o Mundo.