Mostrar mensagens com a etiqueta 10255. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 10255. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Terror e Miséria no Terceiro Reich, Bertolt Brecht

A obra "Terror e Miséria no Terceiro Reich", de Bertolt Brecht tem como maior das características o facto de ter sida escrita pelo autor enquanto exilado na Dinamarca, durante o regime nazi. A peça de teatro é composta por vinte e três atos, aparentemente desconexos, com a particularidade de, cada um deles, individualmente, corresponder a uma cena do quotidiano do terceiro reich diferente.
Nesse sentido, o título funciona como uma unidade que reúne em si a totalidade dos atos, resultando, em simultâneo como um resumo da temática que assume a função de fio condutor de toda a obra.
Como referido anteriormente, em informação de didascálias, todo o cenário e personagens é alterado, nunca havendo repetição. Há ainda uma disparidade total a nível de situações retratadas: se numa cena observamos uma situação familiar de apoiantes do regime, noutra vemos retratadas passagens em campos de concentração.
Ainda a nível de narrativa, esta peça destaca-se não pela comoção provocada no leitor mas sim pela imensa e diversa quantidade de perspetivas apresentadas pelo autor. Este efeito é recorrente no teatro brechtiano, incluindo-se na categoria dramática desenvolvida pelo próprio autor - a do teatro épico. Isto implica que o propósito final da obra não seja a comoção, como é frequente no retrato de situações dramáticas clássicas. Bertolt Brecht opta por uma abordagem de maior distanciamento entre ator / personagem, espetador / encenação, o que permite ao leitor / espetador da peça uma visão crítica e refletiva, com maior objtividade.
A título de exemplo, a cena "Um caso de traição" - a segunda da obra -, retrata um casal que entrega o seu vizinho às forças nazis, a troco de dinheiro e observa a detenção do mesmo. O homem e a mulher têm entre si um diálogo no qual se preocupam com o facto do casaco do vizinho ter sido rasgado por um dos agentes. A técnica usado não pretende, obviamente, que haja uma comoção assoberbante para com aquele que é preso, mas sim uma reflexão acerca da futilidade registada no diálogo do casal que parece mais concentrado nas condições do vestuário do homem do que no seu destino - o campo de concentração.
Estas são precisamente as cenas de puro horror, não tanto em termos de descrições - como é hábito acontecer em obras sobre o Holocausto -, mas sim em termos de crueldade humana e até de cegueira causada pelo conforto e normalidade com que os habitantes alemães observavam o acontecimento.
É, finalmente, uma peça com grande potencial cénico pela singularidade de escrita - em cenas individuais -, que confere dinamismo e originalidade, o que por vezes torna a peça difícil de representar, devido à necessidade de adaptabilidade de cenários e à imensa variedade de personagens o que torna a encenação da peça menos apelativa.


segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

A Catedral, o Citroen, as Convenções

O paralelismo concebido por Roland Barthes - no texto "O Novo Citroen" - entre a catedral e o novo automóvel da marca é pautado por uma incrível descrição sinestésica de ambas as criações.
 A materialização do objeto "mágico" de autor desconhecido, como define Barthes, é uma experiência vibrante e imperdível para o ser humano, que vê os seus sentidos tentados pelo "brilhante", pelo novo, por aquilo que lhe foi anunciado e que finalmente chega.
Na sociedade contemporânea, é frequente a organização de convenções, não só de automóveis mas também - e até mais frequentemente -  de tecnologia. Assemelha-se à Catedral: cada local tem um mostruário onde são expostos telemóveis, câmaras, televisões. Substituiem-se figuras de Santos por novos objetos: mais recentes, mais reluzentes, com qualquer característica melhorada em relação a modelos anteriores. E há também um novo modelo de altar, com um local destinado aos espetadores e um outro destinado a uma pessoa convidada a discursar acerca das qualidades que o novo produto - tão ansiosamente esperado - oferece.
Essa espera, essa promessa, culmina na materialização do objeto, que finalmente pode ser visto, tocado, até cheirado e ouvido. Num êxtase quase religioso e numa mostra quase pornográfica, acaba por não estar em causa a qualidade do produto ou aquilo que tem para oferecer. Nunca numa igreja o tamanho ou a riqueza decorativa determinou a fé de quem a frequenta; mas o número de fiéis poderá estar relacionado com a carga sinestésica das estátuas, dos cheiros, das missas e dos ritos.
O mesmo se observa na compra dos tão famosos telemóveis da Apple, que são aguardados por seguidores fervorosos, que mantêm uma fé cega no produto que lhes apresentam, como se tivesse sido enviado por uma entidade divina. Os que criticam o telemóvel objetivamente vêem-se eles mesmos criticados, como se de hereges se tratassem, como se questionassem uma autoridade superior, que não se presa a ser criticada.
O não-consumo destes produtos - a nível social - significa pobreza, significa atraso. Esse mesmo estigma é a principal garantia da marca em relação ao número de vendas. A construção dessa aura divina leva não só ao consumo mas também o garante, obrigando todos a sujeitarem-se ao novo sagrado: foi essa a estratégia da Catedral, foi essa a estratégia do Citroen e é essa a atual estratégia das convenções tecnológicas.

sábado, 23 de dezembro de 2017

O TRABALHO ALIENADO EM ÉPOCA NATALÍCIA


Não é novidade a privação de vida familiar, pessoal, e até mesmo emocional que as grandes firmas nacionais infligem aos seus funcionários; este fenómeno, relativamente recente, ter-se-á agravado gradualmente nos últimos anos, acompanhado de um ritmo vertiginoso de vendas que precede, ou chega até mesmo a coincidir com datas tidas como de grande valor sentimental ou familiar - Natal, Páscoa, passagem de ano -, tudo isto acompanhado da crença firme que vincou em tempos de crise que mais horas de trabalho geram maior riqueza e produção.
 Este esquema é apenas uma tradução real da previsão que Karl Mark fez em "O Trabalho Alienado", na medida em que, a vida pessoal/genérica daquele que trabalha é relegada para segundo plano, sendo o produto do trabalhador o elemento de maior relevância, tornando-se este último o regedor da vida do seu criador.
Essa é, portanto, uma das razões para a abertura de lojas e grandes superfícies em época natalícia (entre outras), que parece perder cada vez mais o estatuto de "período sem trabalho" para agradar à dinâmica comercial que envolve esta época festiva. É da menor importância o número de horas daquele que trabalha na época de Natal face às necessidades consumistas que estão vinculadas a esta data na sociedade contemporânea: aquilo que realmente importa - na visão política e comercial que muitas lojas adotam - é fazer com que o objeto final chegue ao consumidor, ignorando o possível esgotamento do trabalhador ou a liberdade festiva do mesmo.
O homem fica, portanto, escravo de um sistema comercial que inicialmente criou, e que muito rapidamente cresceu para além dos moldes previstos inicialmente, fazendo do trabalhador um mero peão, totalmente substituível, num esquema extremamente competitivo. O trabalhador, por sua vez - o mesmo que teve inicialmente a liberdade física e intelectual para criar o trabalho que agora o domina -, vê-se forçado a compactuar com algo que acabou por se tornar inibidor da liberdade pessoal de cada um que trabalha, uma vez que um incumprimento destes horários ou calendários leva a um despedimento - um claro convite à saída do sujeito de todo o sistema, tanto no papel de trabalhador como no papel de "comprador" do trabalho de outrem.
Esse medo leva a que muitos trabalhadores que são explorados pelo seu próprio trabalho acabem por não reivindicar a sua liberdade de celebração e de tempo pessoal e familiar, apoiados na crença da sua substituibilidade e falta de relevância em relação ao trabalho que produzem.

Referências

- Karl Marx (1993) "O Trabalho Alienado" in Manuscritos Económico Filosóficos. Lisboa: Ed. 70.