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quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

"A Paródia" de Rafael Bordalo Pinheiro (Recensão)

Esta revista diferencia-se das anteriormente feitas por Rafael Bordalo Pinheiro, sendo criada com um espírito adequado à época, tanto na questão gráfica como temática. Esta sobressai também pela quantidade de artistas que a compunham, visto que “A Paródia” contou com inúmeros colaboradores, tanto ilustradores como cronistas ao longo dos anos, característica esta que não era muito comum noutras revistas da época.

“A paródia é a caricatura ao serviço da tristeza publica. É a Dança da Bica no cemitério dos prazeres”   

Não sendo esta a primeira publicação ilustrada em Portugal, nem sequer a primeira revista humorística, “A Paródia” revela-se diferente por apresentar a visão crítica tão característica de Bordalo Pinheiro. O seu forte conteúdo caricaturista, que não ficava aquém da própria realidade vivida na época, não se deixava intimidar por qualquer tipo de controlo ou manipulação, dando total liberdade aos artistas para ironizar qualquer tema que escolhessem. Independentemente da temática, o objetivo de Bordalo Pinheiro não era alterar o regime, mas sim a própria sociedade. O problema não residia nos políticos em si, mas em todo o sistema.
“A Paródia” permitiu assim ao povo português rir às custas das tristezas que viviam no dia-a-dia e talvez até ganhar consciência da situação política e económica em que se encontrava o país. Esta revista pretendia então simbolizar ou representar a maioria do povo português, tornando-se num porta-voz com coragem suficiente para criticar o país, sempre disfarçada com o humor que lhe era tão característico.

O contacto de Bordalo Pinheiro e do filho com outras revistas estrangeiras foi essencial, pois permitiu-lhes manterem-se a par das novidades que iam surgindo no resto da Europa. É neste contexto que vemos o grafismo português a espandir-se no início do século XX, talvez pelas influências do grafismo Arte Nova que se ia desenvolvendo noutros pontos europeus. A caricatura, que tinha emergido inicialmente como um complemento da imprensa noticiosa, começa assim a ganhar independência, conquistando o seu próprio espaço em jornais, onde o valor gráfico supera ou equipara o valor literário. Pode-se até afirmar, que houve um grande crescimento do “proletariado” satírico, daí que fosse possível criar jornais gráfico com um grande número de colaboradores, tal como vemos n’ “A Paródia”.  Francisco Valença, outro caricaturista, chegou a descrever a caricatura:

“Seja ela pessoal ou política, fantasista ou anedótica, constitui uma expressiva e eloquente manifestação artística. Com uma vantagem: todos a compreendem desde que não sejam cegos.”

     





















Bordalo Pinheiro tentou ainda criar uma pequena escola académica, como tentativa de diminuir as irregularidades na qualidade estética da revista, fornecendo moldes gráficos para que os menos aptos tivessem um modelo a seguir. No entanto, depressa compreendeu que não é possível criar um modelo para o humor, pois esse tem de vir do próprio génio e da criatividade pessoal de cada artista.

Deste modo, “A Paródia” revela-se como uma revista de grande importância em Portugal do século XX, sendo até das obras que mais corretamente descreve esta época. Trazendo o riso às vidas do povo português, foi através da genialidade de Raphael Bordalo Pinheiro que foi possível imortalizar esta revista, pois mal sabia ele que passado pouco mais de um século as suas ilustrações satíricas ainda se adequariam de modo verídico à realidade portuguesa do século XXI.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Alienação da Religião

   Para Karl Marx, a religião é simplesmente uma projeção da realidade que vivemos na Terra para um plano superior metafísico. Consiste num mundo fantástico criado pela mente humana, de modo a diminuir a sua necessidade de carência, atribuindo um carácter sobrenatural a fenómenos reais e naturais. O Homem está constantemente a produzir algo para suprir as suas necessidades, facilitando a sua vida e promovendo o seu bem-estar.
    A religião é assim entendida como algo alienado, pois o homem projeta para fora de si, de forma vã e inútil a ilusão de um mundo transcendente, um lugar muito mais apelativo em relação ao que vivemos, oferecendo a esperança de que um dia o irá alcançar e todos os seus problemas se irão resolver. Deste modo, o Homem projeta a sua própria imagem neste mundo ilusório, projeta-se no próprio Deus, acabando por se alienar a si próprio. A religião retrata-se então como uma ideologia, uma forma de consciência forjada para alienar as multidões garantindo assim os interesses de grupos dominantes, criando o estado de falsa consciência. Ela apenas oferece a libertação espiritual do Homem, algo imaginário e ilusório, meramente aparente e abstrato, sendo por isso uma consciência equivocada e errada em relação ao mundo. Marx considera-a mesmo como o “ópio do povo”, um calmante geral para a população que inibe a visualização da realidade, hipnotizando através da falsa superação de miséria com imagens falsas e promessas de uma vida além-túmulo. Existe como refúgio, prometendo ser a resposta a grandes questões humanas como a morte e o sofrimento, oferecendo algo para além do material. O Deus transcendente serve precisamente para apoiar o crente em todas as suas dificuldades e ainda recebe-lo no pós-vida, recompensando-o com bens celestiais e uma vida eterna.
    Deste modo, a religião é vista como uma mera criação humana, uma espécie de muleta que visa suportar o peso e as exigências da vida sob a forma de ente e lugar metafísico. Ela reflete o sentimento mais puro e absoluto do Homem. Deus é criado à imagem do Homem, como um reflexo idealizado, no qual o ser humano finito, precário e pecador projeta os seus desejos de perfeição e omnipotência. O ser humano deixa-se assim controlar pela sua própria criação, a religião transforma-o numa marioneta, fazendo-o cumprir meticulosamente as leis impostas em nome de Deus, sem reclamar ou blasfemar. A ideologia religiosa tem vindo assim a perder alguns apoiantes, pois cada vez mais o Homem se recusa a ter uma atitude passiva diante dos seus opressores, na falsa promessa de uma eternidade à custa de uma vida de carências e sofrimento. A escolha de aproveitar o seu tempo de vida para realizar desejos pessoais com vista a atingir o máximo de felicidade possível é assim a tentativa de escapar à alienação religiosa, é a escolha de recusar o “ópio” que anestesia a vivência do Homem deixando-o passivo e à mercê de leis impostas por classes dominantes.

Referências:
- FISKE, John. 1993. Introdução ao Estudo da Comunicação. Porto: Edições Asa

- FEUERBACH, Ludwig. 2007.A essência do Cristianismo. Rio de Janeiro: Editora Vozes. 

sábado, 23 de dezembro de 2017

Será o IPhone o novo Citroën DS?

Em 1957, Roland Barthes apresenta-nos o “objeto perfeitamente mágico” que “cai manifestamente do céu”, o novo Citroën DS considerado um dos melhores e mais bonitos carros de sempre. Este objeto elevado praticamente a uma divindade por Barthes (que o intitulou precisamente de “deusa” ou “déesse”) é equiparado a construções épicas monumentais, tal como as catedrais góticas ou o submarino Nautilus, objetos estes recheados de novidades irreverentes que se deixam apropriar quer na sua imagem ou uso por uma população inteira.
Embora Barthes tenha exaltado esta nova criação mágica nos anos 50, é certo que esta concepção de objetos perfeitos vindos do céu para servir os Homens não se ficou por aí. Partindo de catedrais góticas, imóveis, massivas e austeras, edifícios enormes que magnificavam a glória dos deuses, reduzindo o sujeito a um mero espectador, Barthes pega assim neste exemplo de magnificência transpondo-o para outro objeto, também este correspondente a um ícone cultural. A escala da catedral gótica é reduzida ao tamanho de um automóvel de cinco lugares. Passa-se assim de um objeto que pretende ser observado e desejado para um que realmente pode ser possuído e utilizado ao nosso dispor, um verdadeiro ícone de mobilidade física e social.

Focando-nos agora na época em que vivemos, decerto que a criação de novos objetos revolucionários não cessou, e qual será o equivalente ao Citroën DS no século XXI? Qual será o objeto superlativo que revela uma transformação da vida em matéria, que decerto aumenta a neomania do séc. XXI, que se torna na nova «Déesse» dos tempos modernos?
O único objeto que me parece propicio a tal comparação são os telemóveis. E entre todas as mais variadas gamas o equivalente ao Citroën DS, considerado um carro diferente, mais puro e compatível com o Homem, será certamente o IPhone.

Tal como o Citroën Ds, que tentou minimizar ao máximo os seus traços de encaixes e justaposições, comparado até à túnica sem costuras vestida por Cristo e às aeronaves de ficção científica sem articulações no metal, também o IPhone pretende ser construído no exterior por uma única peça, com um único botão, criando a janela perfeita para o mundo digital. Tal como Barthes referiu, até então “o automóvel superlativo fazia parte do bestiário do poder: ele torna-se aqui, (…) mais espiritual e mais objetivo, (…) ei-lo mais doméstico, mais de acordo com essa sublimação da utensilagem que se encontra nas nossa artes caseiras contemporâneas”, também esta descrição pode ser aplicada ao IPhone. Existe claramente uma exaltação ao vidro, um aerodinamismo nunca visto até então num objeto móvel onde a velocidade (quer visual quer digital) veio revolucionar por completo o mundo tecnológico. Tanto o Citroën DS como o IPhone se separam por completo dos inventos feitos anteriormente, aparecendo de facto como se tivessem caído do céu, destinados quer ao público masculino como ao feminino, revelando o casamento perfeito entre a estética e a funcionalidade.





Referências:
- BARTHES, Roland. 1957/1988. "O novo Citroën" in Mitologias, Lisboa: Ed.70.  
- HOUZE, Rebecca. 2016. New Mythologies in Design and Culture: Reading Signs and Symbols in the Visual Landscape, London, Bloomsburry.