quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Dexter - Recensão



As séries americanas evoluíram bastante nos últimos tempos, tanto em aspetos técnicos como em termos de conteúdo e assuntos abordados. Estas promovem debates e discussões importantes sobre assuntos complexos da vida humana na forma de entretenimento que, muitas vezes, as pessoas recusam a comentar, mas a sua essência baseia-se em muitos conceitos filosóficos. Uma série que exemplifica estes aspetos é a série Dexter, que conta a história de um serial killer que mata outros assassinos e que tenta manter uma vida comum para encobrir os seus crimes.

Dexter é uma adaptação do livro Darkly Dreaming Dexter, de Jeff Lindsay, e o seu sucesso foi crescente, sendo bastante elogiada pela crítica e ganhando vários prémios. No entanto, a questão é como é que uma personagem principal tão violenta e cruel como Dexter Morgan conseguiu fazer tanto sucesso e despertar tanto interesse?

Este é um exemplo de como as séries americanas possuem uma estrutura muito forte e trabalham temas universais que fazem parte da vida de todos. A vida de Dexter é apresentada através de narrações e de flashbacks, e a sua sinceridade com o público permite estabelecer uma ligação entre ambos que leva os telespectadores a compreender o objetivo de Dexter de punir aqueles que merecem.

A busca pela identidade pessoal da personagem principal é algo presente em todas as temporadas. Este procura sempre entender qual é o seu “eu” verdadeiro para poder aplicar o Código de Harry (conjunto de regras que lhe indicam como deve agir no dia a dia e a forma como deve executar o assassinato) da forma mais perfeita possível para que o seu lado oculto não seja descoberto e para continuar a agir como um “justiceiro”. Enquanto a história se desenvolve, vemos um Dexter que tem certeza de quem é realmente, pois identifica-se como um serial killer e tem noção disso. Dexter cresceu com a consciência de que era um psicopata com desejo de destruir outras vidas. O seu pai adotivo, que era policia e via todos os dias a injustiça do sistema judicial, criou o filho de forma a redirecionar esse desejo para quem realmente fosse perigoso para a sociedade. Daí surge o Código de Harry.

Um psicopata não obedece a nada, a não ser aos seus próprios desejos. A meio da série, Dexter começa a questionar todos os seus valores à medida que se depara com situações limite, levando a sua confiança a acabar em dúvida. Desta forma, Dexter, e os telespectadores, entram num conflito entre as ações de Dexter e ações de ética, que existe justamente na tentativa de conter a violência entre pessoas. Dexter apenas mata quando tem a certeza que a vítima é perigosa para a sociedade, mas se isso torna a sua ação correta é uma questão controversa. Será que o seu comportamento é correto porque ele apenas castiga o criminoso que fugiu à justiça, ou é errado porque ele viola as leis que nos protegem a todos?

Alguns podem argumentar que os fins justificam os meios, no entanto de forma a criar uma regra ou teste para saber em que situação o comportamento é moral, o filósofo Kant (1724-1804) projectou o imperativo categórico, que diz “age de tal maneira que possas querer que a tua máxima se torne uma lei universal”, que, basicamente, questiona “e se toda a gente o fizesse?”. Um defensor de Dexter poderia dizer que o seu comportamento satisfaz o teste kantiano: Dexter mata assassinos psicopatas a fim de prevenir que estes matem novamente. Será possível dizer que toda a gente nesta situação deveria agir desta maneira? Por outro lado, o imperativo kantiano pode visto de outra maneira. Se alterarmos a pergunta e dissermos que Dexter infringe a lei para punir pessoas que ele tem a certeza de que são culpadas mas os tribunais consideraram-nas inocentes, algumas pessoas mudariam de opinião e deixariam de concordar que toda a gente deveria seguir as ações de Dexter. 

Dexter não afirma que o seu comportamento é correto, descrevendo-o como uma condição necessária para a sua sobrevivência. Este mata porque algo no seu consciente o leva a tomar essas ações, ao contrário, por exemplo, do Super-Homem que combate "pela verdade e pela justiça”, o objetivo de Dexter é movido por interesses pessoais, cujo princípio orientador é “não ser apanhado”.

Esta é uma das principais reflexões que a série procura despertar no seu público, se vale a pena ser ético e seguir as normas e regras estabelecidas, ou se, em certas ocasiões, os fins justificam os meios. Se o correto é ser ético, como é que se deve lidar com as injustiças que existem? E, se for o caso, o melhor é infringir as normas, como é que se deve lidar com as consequências das nossas ações?



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