sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Gordon Matta-Clark (1943-1978) Splitting, cutting, writing, drawing, eating



Tive a sorte de ir conhecer obras de Gordon Matta Clark numa exposição da Culturgest.
Este artista tem um legado que sai completamente do normal pela escolha dos suportes em que trabalha, pelo facto de apenas recortar, pela relação espacial que tinha com elas mas também temporal; pelo tempo de vida que tinham as suas obras. A exposição, na minha opinião, consegue levar o espetador a acompanhar o momento da experiência, o instante da criação de Matta Clark. Acredito que permite ao espetador retirar muito mais das obras expostas, pois participa um pouco melhor no processo, desde a inspiração à realização.

O “barro” do artista são edifícios, edifícios abandonados. Um escultor escolhe um material e tenta dar-lhe o seu espaço, dar-lhe voz, e Matta Clark recortando pedaços das casas dava-lhes todo um novo significado, o de peça de arte, de escultura. O recorte é um elemento muito leve, que joga com a luz e a exposição acompanhava esta leveza que advinha da força e violência do serrar, e remover. (Um dos meus toques preferidos foi a forma como as fotografias da obra Bingo estavam expostas lado a lado a formar uma panorâmica com um aspeto “manual” tão semelhante ao gesto violento mas simultaneamente delicado do Gordon Matta Clark.) As fotografias da exposição incidiam especialmente nas entradas de luz. Permitiam perceber a brincadeira que Gordon Matta Clark provocava entre o cheio e o vazio, a luz.


Um aspeto muito curioso foi o de que em vários dos projetos, o artista desenhava apenas sobre o próprio edifício, sem isto ser precedido por nenhum esboço. Isto revela de casualidade na intuição, de simplicidade do ato criativo. E a exposição ecoava desta simplicidade e “cleanness” por não recorrer a muitos estímulos, cores, provocações.
Outro elemento relevante na expressão de naturalidade foi a forma como estavam expostas de forma linear, meio desestruturada as curtas espontâneas anotações, ideias, reflexões, (entre outros documentos escritos como correspondências), do artista.

Também achei importante que o espetador se pudesse imaginar na situação, no momento do processo. Um vídeo, que apesar de ser a filmagem da única obra que não foi realizada num edifício mas sim numa árvore (consistia em pessoas penduradas em redes a cair da árvore) dava especialmente ao espetador a perceção do forte envolvimento espacial, da presença física do artista nos seus edifícios, com as suas matérias-primas. 
E muitas outras obras que foram apresentadas através de vídeos, ou de fotografias e que assim nos mostravam o próprio artista em ação, a estar no local da sua criação, contribuía para essa perceção. 
A questão da efemeridade da obra também teve eco nos vídeos, em que se acompanhava um momento, um processo, um processo que se arrastava mas que estava a ser vivido intensamente porque estava prestes a terminar. (O vídeo de uma das obras em especial filmava a própria demolição da casa...!)E imagino que isso aproxime o espetador da realidade do artista e que este portanto possa procurar, um pouco melhor, percebê-lo.


Achei que apesar de todas as mais-valias que havia em que as obras fossem apresentadas em vídeos achei que teria sido preferível ter colocado fotografias retiradas dos vídeos (“screenshots”) a acompanhar estes vídeos, para que o espetador pudesse observar com mais detalhes as várias fases da obra resultado.

A Cena do Ódio, de Almada Negreiros



Li pela primeira vez estes versos, na ténue e até frágil sensibilidade dos meus 15 anos. Admito que na altura, pouco consegui extrair do poema que me fosse concreto; havia algumas “buzzwords” que mais me chamavam à atenção: “Sou Vermelho-Niagára dos sexos escancarados nos chicotes dos cossacos!” 
Sabia lá eu o que eram sexos escancarados, cossacos, ou um Pan-Demonio-Trifauce, mas a maneira com que Negreiros escrevia cada verso apelava-me de uma maneira incontornável, a sua escrita falava-me tão intimamente que apenas lia, pois soava tão erradamente bem. 

“A Cena do ódio”, bem como vários outros títulos de poemas de Almada Negreiros, apela à revolta e inadmissão de valores conservadores perante a revolução de 14 de Maio de 1915, paralelos à receção e crítica d’Orpheu enquanto publicação legítima e inovadora. A data é referida na mesma introdução do poema, assim como a menção de que se tratam de “excertos de um poema desbaratado escrito durante os 3 dias e 3 noites” que a mesma revolução durou.

“Tu arreganhas os dentes quando te falam d’Orpheu
e pões-te a rir, como os pretos, sem saber porquê.
E chamas-me doido a Mim
que sei e sinto o que Eu escrevi!
Tu que dizes que não percebes;
rir-te-hás de não perceberes?”

A pluralidade quase megalómana da expressão que se apodera da obra de Almada Negreiros nunca passa despercebida, a riqueza expressiva dos inúmeros vocativos, de pontuação, da indignação demarcada para com o presente com o qual se deparou, todas estas características da sua obra podem ser (re)visitados através deste poema. De uma maneira quase irónica, observo o quão universal e intemporal a raiva e angústia de Almada Negreiros é para com o mundo; para com “pindéricos jornalistas”, “robertos fardados”, “beleza canalha” e ““sanfona-saloia do fandango dos campinos”, para nomear alguns.

É expressamente revoltado porque não o deixam ser, ou porque lhe “ladram a vida” apenas por fazer o expectável e a viver. Há uma tremenda sobeja nele quando endereça todas as entidades que não ousam deixá-lo ser; 
Curiosamente foi essa mesma “crítica” que esgotava todas as publicações de Orpheu, edição após edição, pois apesar de degenerados, loucos ou apenas iludidos, estes homens revelaram-se uma força definitiva na arte da palavra, e quanto a Negreiros, na Arte, ponto final.

Este poema foi descrito pelos seus contemporâneos enquanto sendo definidor da vanguarda da época, e um verdadeiro “grito de raiva atávica”. Apesar do mesmo, e da violência que o marca, poder ser de alguma forma legitimado pelas circunstâncias de cariz bélico, denota-se que a mesma agressividade com que Negreiros se dirige à dita “revolução”, da mesma maneira pode ser aplicada somente aos seus contemporâneos atacantes que insistiam nas suas acusações e reforças de que o artista era apenas louco. 

Perante a leitura de qualquer um, ou a plenitude de todos estes versos, é-nos impossível não refletir no quão arrebatadora a mensagem presente é. Há um misto de emoções ligadas à paixão efervescente e raivosa de Almada enquanto afirma ser quase omnipotente no que faz e diz, no que é; uma multiplicidade de matéria e alma como se fosse uma força que ainda não foi legitimamente reconhecida pelos seus pares. 

“Sou ruinas razas, innocentes como as azas de rapinas afogadas. Sou reliquias de martyres impotentes sequestradas em antros do Vicio e da Virtude. Sou clausura de Sancta professa, Mãe exilada do Mal, Hostia d'Angustia no Claustro, freira demente e donzella, virtude sosinha da cella em penitencia do sexo! Sou rasto espesinhado d'Invasores que cruzaram o meu sangue, desvirgando-o.”

A vigorosa e quase destemida atitude com que Almada declama cada verso entranha-se-me nos olhos, ouvidos e poros. Não há como não sentir a fúria permear cada centímetro do eu poético que se depara com tão inderrogável maneira de ser, de se revoltar, de se negar a conformismos e insistir em contrariar pelo seu próprio bem e futuro da Arte como a conhecemos. Que não iria ser uma qualquer calúnia ou ataque à sua sanidade mental que o iria parar, que ele é tão mais colosso do que qualquer praga que lhe possam rogar. 

“Hei-de, entretanto, gastar a garganta a insultar-te, ó bêsta! Hei-de morder-te a ponta do rabo e pôr-te as mãos no chão, no seu logar! Ahi! Saltímbanco-bando de bandoleiros nefastos!”

“A Cena do Ódio” é, pessoalmente, um ponto de choque e viragem na perceção contemporânea de Negreiros sobre as reformas do pensamento e criação artística; da negação aos que negam a própria mudança, “Uma bofetada na cara do gosto público”, um chuto nas noções deveras ultrapassadas do que é legítimo na era literária que o rodeava, um pêro em quem o duvidava.
Negreiros não receia invocar nomes horripilantes cujas sílabas carregam tragédia, sede sanguinária ou um puro apetite por destruição, tal como Átila e Nero; temas como Pompeia, Sodoma, “corrente com suores do Brazil”, e “sete pragas sobre o Nilo”.

“Larga a cidade masturbadora, febril, rabo decepado de lagartixa, labyrintho cego de toupeiras, raça de ignobeis myopes, tysicos, tarados, anemicos, cancerosos e arseniados! Larga a cidade! Larga a infamia das ruas e dos boulevards, esse vae-vem cynico de bandidos mudos, esse mexer esponjoso de carne viva, esse sêr-lêsma nojento e macabro, essess zig-zag de chicote auto-fustigante, esse ar expirado e espiritista, esse Inferno de Dante por cantar, esse ruido de sol prostituido, impotente e velho, esse silencio pneumonico de lua enxovalhada sem vir a lavadeira!”


Há uma certa unanimidade na categorizarão deste poema enquanto uma obra esteticamente futurista, pelos motivos violentos e sensuais que carrega em si, havendo menções explícitas de masturbação, inferno, tarados, chicotes, entre outras expressões que demarcam, sem dúvida, a agressividade pelo progresso e não conformismo que o movimento futurista tanto apregoa. Também me salta desde sempre à atenção o próprio espírito destemido de Almada Negreiros em denunciar os seus antepassados e contemporâneos e o desleixo em relação às artes, mencionando que o mesmo povo que se regozija e vangloria por ter criado Camões no seu berço (o próprio país), foi o mesmo que o deixou, em carreira desmoronada, morrer à fome. 

E inda há quem faça propaganda disto: 
a pátria onde Camões morreu de fome 
e onde todos enchem a barriga de Camões! 

É-me dificílimo analizar escrupulosa e meticulosamente esta obra, que tanto me dizia na altura sobre o tempo em que o artista viveu, como me diz sobre o tempo em que agora me deparo. Enquanto jovens, a formarmos-nos numa Academia que preza gerar novos e hegemónicos movimentos artísticos, considero indispensável não deixar de olhar para artistas e poemas como estes, e que haja sempre alguém com tal destemido, que nunca deixe o palco artístico de Portugal cair sobre si próprio, por aparências ou falta de resiliência, que nunca deixemos o panorama das artes em que participamos cair em desuso, aborrecimento, hábito ou ferrugem.





poema aqui
ou poderá decarregar/consultar o arquivo do Projeto Gutenberg sobre as obras Almada Negreiros (em específico) aqui




Blade Runner - Recensão


Um dos aspectos que acho curioso quando me deparo com filmes de ficção científica dos anos 70 e 80 é a forma como as pessoas imaginavam que o futuro iria ser. Carros voadores, robôs hiper realistas, hologramas, tudo no então longínquo ano de 2007 (por exemplo). Dito desta forma, as expectativas que haviam parecem quase absurdas, mas é interessante reflectir o que motivou as pessoas a fazerem este tipo de previsões, e mais assustador, o que é que acertaram sobre o nosso presente. Assim, falemos Blade Runner. 

Dirigido por Ridley Scott, é baseado no romance Do Androids Dream of Electric Sheep? de Philip K. Dick, e conta com actores como Harrison Ford, Rutger Hauer ou Sean Young. Apesar de não ter sido muito popular quando saiu, Blade Runner tem vindo a ganhar popularidade ao longo dos anos, atingindo o status de cult classic e tornando-se um paradigma da ficção científica, que ainda hoje inspirou obras como, por exemplo série a série de manga Ghost in the Chell.

O filme original saiu em 1982 mas o ano passado saiu uma sequela, Blade Runner 2049, que contra as expectativas, achei um filme bastante bom, talvez um do melhores que vi em 2017. Apesar de ser uma sequela, aguenta-se muitíssimo bem individualmente e expande o mundo do primeiro filme sem destruir o que este conseguiu. Ainda assim, se tivesse que escolher entre os dois, seria uma luta renhida, mas optaria pelo primeiro.

A narrativa passa-se em Los Angeles no ano de 2019, onde carros voadores, colónias espaciais ou andróides virtualmente idênticos a seres humanos, a que chamam Replicant, são uma realidade. A serie mais recente, Nexus 6, a mais avançada é mais forte e tão inteligente quanto um ser humano. Estes são utilizados como escravos em trabalhos diversos, e após um motim, são proibidos na Terra. Equipa de polícias especais, com o nome Blade Runners, tem a função de “retirar” todos os replicant que desobedecem a ordens.

Esta é sensivelmente a informação que nos é dada antes do verdadeiro início do filme, nos opening titles, ao estilo clássico dos anos 80, num pequeno texto. Imediatamente a seguir cortamos para primeira vista da da cidade de Los Angeles em 2019, uma das minha cenas favoritas. Não possível ver onde começa ou acaba a cidade e a sua silhueta parece infinita. Não é possível ver detalhes nos edifícios, apenas as suas luzes que se estendem como um tapete de estrelas. O que mais se destaca são estas chaminés de onde saem nuvens de fumo e de fogo e enquanto espécie de veículo que atravessa o céu. A música que acompanha é por um lado clama e surreal, mas em conjunto com a imagem da cidade ganha um caracter triste e algo monótono. Ao longe vemos um edifício com uma silhueta diferente, quase uma pirâmide, mais alto e com uma silhueta claramente diferente dos restantes arranha céus. A grande estatura faz com que pareça que vigia toda a cidade. Enquanto nos aproximamos a música ganha uma intensidade diferente, dando a impressão que algo não está bem.

Na minha opinião, isto é o que destaca Blade Runner como filme: a atmosfera. O conjunto entre aquilo que vemos e ouvimos submerge-nos na história que pretende contar. Basta apenas a primeira cena para conseguirmos perceber perfeitamente o caracter do filme. 

A personalidade por detrás da música, o compositor grego Vengelis utiliza uma mistura de sintetizadores e instrumentos de cordas para criar o característico zumbido recorrente ao longo do filme, que pretende recriar o ruído permanece da cidade e dos seu habitantes. Melancólico mas misterioso. 

Por outro lado o aspecto da cidade de Los Angeles de 2019 conta com a colaboração de nomes como Syd Mead, também responsável pelo design de filmes como Tron ou Star Teck. A chave para criar um paisagem de ficção cientifica é o balanço entre elementos que existem na realidade e o que “vem do futuro”. Tudo tem um aspecto claramente futurista mas ao mesmo tempo familiar. No caso de Blade Runner, o futuro imaginado não é uma versão utópica, mas sim realista. A cidade está sobrecarregada, os edificamos altos dão uma sensação quase claustrofóbica às ruas, a chuva  permanente trás uma sensação de tristeza e reflete as luzes intensas da cidade. Todos os locais estão repletos de detalhes, mas não sobrecarregam a imagem, mostram uma sociedade estratificada 

Finalmente, não podemos passar sem abordar o tema filosófico da narrativa. Há questão da exploração dos Replicant, a forma como foram criados especificamente para servir a humanidade e que é que isso diz sobre a sociedade de 2019. Onde acaba a máquina e começa o homem? O que faz de nós verdadeiramente humanos? A melhor parte é que o filme nunca nos dá respostas específicas as estas perguntas. Não há uma moral da história definida. A única coisa que temos é uma sucessão de eventos que ocorre na narrativa em consequência das opiniões e respostas das personagens a estas questões. De resto, somos obrigados a tirar as nossas próprias conclusões.

Finalmente só me deixa recomendar que dêem uma vista de olhos ao filme. Há muitos mais aspectos interessantes que eu não pude abordar. O meu objectivo foi tentar revelar o menos possível em relação à história e às personagens, tentando focar-me nos aspectos visuais. Recomendo também que vejam também o novo que saiu o ano passado. O nosso presente pode não ser o futuro idealizado de muitos dos filme retratavam nos anos 80, mas já estivemos mais longe. Quem sabe se corresponderemos ao futuro de 2049.








Bordalo II "Attero" - Recensão

    “Attero” do Latim Desperdício, é o nome da 1. ª exposição do artista Bordalo II.
    Artur Bordalo, nascido a 1987 em Lisboa. Neto do pintor Artur Real Bordalo, assim assina Bordalo II; e também, à luz desta influência torna-se artista plástico, depois de ter começado o curso de Pintura, na Faculdade de Belas Artes de Lisboa.


Aquele armazém, situado num bairro Lisboeta do Beato, tinha servido de atelier criativo e sítio de despejo do próprio Bordalo, enquanto não era reconstruído. Então, a pedido do artista, adiaram o início das obras para depois da exposição. Exposição esta, que foi um enorme êxito; nas duas primeiras semanas passaram, em média 1000 pessoas por dia e todas as escolas, desde primárias e secundárias quiseram marcar presença naquele Jardim Zoológico de detritos. Começamos por observar as obras mais pequenas, onde chamam à atenção para problemas sociais e ambientais, põe os ratos no papel de humanos para fazer pensar, quem é, a verdadeira praga, porcos no papel da polícia como símbolo da corrupção do país e raposas como mulheres para mostras a matreirice do ser humano.
    Estas primeiras peças são completamente pintadas, à medida que avançamos na exposição, as partes de lixo cobertas a tinta passam a metade, até às últimas obras, apenas lixo soldado em lixo. Ao mesmo tempo que a tinta diminui, a dimensão das peças aumenta, Bordalo II fez um rinoceronte em tamanho real. Além das críticas por detrás deste projeto, o artista aplica-se arduamente na fisionomia das espécies que retrata, recorre a imagens técnicas imensamente detalhadas, as diferentes texturas é que fazem de cada peça, algo único ainda mais incrível. O artista pega em quaisquer pedaços de lixo e corta-os, amolga-os, solda-os e sobrepõe-nos criando montanhas de lixo que se tornam bicho, nunca demorando mais do que uma semana por peça.



    A exposição teve uma grande influência de visitantes europeus e chineses, passaram também alguns dos Estados Unidos e da Austrália. Visitantes estes, já conhecedores das obras do artista, pois, Bordalo II foi primeiramente reconhecido no estrangeiro do que em Portugal, tem apenas 20% do seu trabalho cá, e 88 peças espalhadas mundialmente. É na imundice de fábricas abandonadas, que agora servem aterros ilegais, que Bordalo II encontra as melhores peças para os seus trabalhos. Foi assim, a arrombar fábricas, que começou o seu projeto, isto é, aprendeu técnicas de arrombamento quando “grafittava”, mas a certa altura percebeu que esses grafittis que fazia mostravam o seu nome mas duma maneira egocêntrica, ainda fez algumas criticas sociais nos mais quotidianos lugares e objetos, mas nesta altura decidiu criar um maior impacto, então em 2012 quis arrancar de vez com um projeto. Nessas fábricas fez diversas obras que publicou na internet, e foi a partir daí que o seu nome se espalhou. Os seus animais corriam a internet com vontade de correr o mundo, em 2015, vários blogs de arte importantes, falaram do seu nome dando-lhe milhões de visualizações. Nesse ano deu um salto do tamanho do mundo, começou a ser convocado para os maiores festivais de artes urbana em todo o planeta; além das inúmeras encomendas, para fachadas, feitas também em escala mundial.

    Além de dar vida ao lixo, o artista alerta-nos, para a maneira como andamos a viver a nossa, lixo retratando animais, pois destruímos constantemente o ambiente, esgotamos o planeta, tirando-lhe a ele e a nós vida. A sociedade privilegia o dinheiro às pessoas e isso mata-as. O artista quer agitar consciências e o lixo é o seu veículo. 

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Do outro lado do espelho - Recensão

"O outro lado do espelho" é uma exposição presente no Museu Calouste Gulbenkian em Lisboa, que têm como tema as características do espelho e, a forma como este se relaciona com a nossa vida e a  afeta de diversas formas, assim como a maneira através da qual os artistas o utilizam nas obras da arte, para reproduzir certos efeitos e perceções, permitindo um conjunto ilimitado de possibilidades visuais. Está também dividida em núcleos com temas distintos da utilização do espelho e da influência do mesmo começando pela infância, e passando pelo papel deste na vida do homem e da mulher, etc.
Visitei a exposição num dia chuvoso e frio. Nas ruas reinava um sentimento de desconforto e sujidade, no entanto quando entrei no museu, senti imediatamente a sensação do aquecimento do edifício, daquele espaço tão mais acolhedor do que o exterior nublado. Deixei o meu casaco no bengaleiro e prossegui para a entrada da exposição. Em frente a esta mesma entrada estava uma escultura de uma mulher a segurar um pequeno espelho na mão, observando a sua figura refletida no mesmo, funcionando talvez como uma forma de introduzir a exposição. Entrando na exposição propriamente dita, existem diversos espelhos antigos espalhados pela divisão , assim como simples superfícies refletoras numa parede, que permitem que enquanto se caminha pela exposição, se possa observar as peças dos artistas, e também a nós próprios.
Para além disso, existem várias pinturas, assim como esculturas e instalações nas quais o espelho  é um elemento chave ou importante para as mesmas. Lembro-me com mais clareza duma pintura da qual gostei particularmente, em que Narciso observava a sua imagem num rio, funcionando neste caso a água como um espelho natural. 
 Em suma, a exposição demonstra as diversas utilizações do espelho no passado, na arte e na vida, assim como a sua função na mesma  e todas as possibilidades que é capaz de abrir nela.

"O Jogador" Fiódor Dostoiévski

“O Jogador” de Fiódor Dostoiévski, narra em primeira pessoa a história de Alexis Ivanovitch na sua evolução enquanto jogador.
O autor, Fiódor Dostoiévski, é considerado um dos maiores génios da literatura russa, e é também visto como o precursor do Realismo na escrita. Durante o período de redação deste livro, toda a Europa sofria grandes alterações internas, como o colapso de vários impérios, mas também o crescendo de influências de múltiplos outros, de entre eles surgem por exemplo, os impérios russo e alemão – as duas realidades descritas nesta narrativa.


A história decorre em Roletemburgo, na Alemanha na qual Alexis Ivanovitch, um jovem de vinte e cinco anos, se revela como o protagonista do livro. Vive a sua vida como precetor dos filhos do General Zargoryansky, e apesar de estar constantemente entre a elite russa em Roletemburgo, revela uma atitude crítica em relação a toda essa mesma sociedade, no entanto, as suas frequentes censuras são feitas apenas com o objetivo de fazer frente à elite.
É o seu repreensor ponto de vista motiva o objetivo de vida ­– ganhar dinheiro suficiente para que fazer com que todas essas pessoas de elite se ajoelhem aos seus pés – e é atraído por essa miragem a iniciar a sua vida enquanto jogador nos casinos de Roletemburgo.
A linha da narrativa passa, não por Alexis, mas sim pela do General, que por sua vez controlava o curso da vida de todas as outras personagens. O General contraíra uma dívida – devido ao jogo – que passa toda a história a tentar resolver através da morte da sua avó. Mas acaba por não ter o auxílio da sua familiar e envolve-se com um número de pessoas que o desviam ainda mais de uma vida calma e digna. Acaba no fim por morrer, de forma miserável, sem ver resolvida a sua dívida.
Numa nota mais pessoal, quando iniciei a leitura, julgando pelo título do livro, esperava uma história sobre um jogador no auge do seu vício, no entanto é nos apresentado um personagem que está ainda nos primórdios do início da sua vida enquanto jogador. Acompanhamos, enquanto público, as suas adversidades e as suas motivações, e por isso sentimos as suas vivências muito próximas de nós, enquanto espetadores.
O tipo de escrita, altamente descritivo e direto, mais ligado ao sentido pessoal e acompanha um estilo de narração homodiegética, e talvez também por isso somos ainda mais puxados para o centro dos sentimentos e ações de Alexis Ivanovitch, que enquanto descreve o seu dia a dia, parece que descreve uma realidade que nos é quotidiana e familiar. É aí que se encontra a riqueza do livro, na relação que o autor cria entre o leitor e Alexis, sem ela, todas as situações de risco, nas quais o personagem arrisca tudo o quanto tem no jogo, não teriam o impacto que sentimos ao ler essas passagens.

“Experimentava uma espécie de febre, e joguei todo aquele monte de dinheiro no vermelho – quando de chofre, recobrei a consciência! Foi a única vez, durante toda a noite, que o medo me gelou, manifestando-se por um tremor das mãos e dos pés. Senti com horror e tomei consciência instantaneamente do que significaria para mim, naquele instante, perder! Era toda a minha vida que estava em jogo!” – Alexis Ivanovitch


Arrival e o confronto com a existência // Recensão

Há algo especial nos grandes filmes sci-fi no que diz respeito a explorar nossa humanidade. Eles frequentemente usam conceitos imaginativos que, no fundo, servem para evidenciar algo íntimo sobre nós mesmos, uma perspectiva profunda sobre a nossa existência. Arrival (2016) é um deles.
Após a chegada de múltiplas espaçonaves misteriosas na Terra, a linguista Louise Banks (interpretada por Amy Adams) é convocada pelos militares para liderar uma equipe na tentativa de traduzir o idioma alienígena, estabelecer uma comunicação pacífica e evitar uma potencial catástrofe global. A direção de Denis Villeneuve consegue orquestrar um drama astucioso e elegante, fisgando o público com uma abordagem anti-sensacionalista. Filmes sobre alienígenas visitando a terra não são novidade em Hollywood, mas este se destaca por sua grandiosidade poética e por uma solenidade enigmática que gera uma intriga hipnotizante.
Em termos técnicos há uma coesão dos elementos que servem à mesma visão: do visual etéreo misterioso reforçado pela cinematografia e pela trilha sonora até a total fluidez imagética. É um filme carregado de tensão e emoção crua e que conta uma história grandiosa, mas ao mesmo tempo muito íntima. O filme aborda ideias complicadas, por exemplo sobre como a cognição humana é determinada pela linguagem. Fala sobre como amor, luto, alegria, dor e perda podem ser refratados através do prisma da nossa compreensão do mundo. É um filme que convida a pensar, mas que trabalha suas ideias de maneira acessível.
Dentre todas as análises que podem ser feitas sobre, acredito que a via mais interessante seja interpretar o filme pela perspectiva filosófica da condição humana em relação ao confronto com a sua própria existência, e as metáforas que podem ser extraídas do filme a respeito deste tema.
Se olharmos para o inicio do filme, sem qualquer pressuposição sobre o passado de Louise, há sinais que sugerem que ela é uma pessoa que não abraça completamente a vida. Para começar, Louise parece estar bastante ligada à sua zona de conforto e segregada do resto do mundo, o qual testemunha na sua maior parte através de janelas e ecrãs de televisão enquanto leva a sua rotina diária. Não aparenta estar tão entusiasmada com o seu trabalho e parece levar uma vida muito calma sem eventos significativos. Ela é também relutante em perceber mudanças, o que fica especialmente claro quando a mudança é imposta a ela, quando os heptapods chegam à Terra: enquanto o resto do mundo reage a esse evento monumental, Louise parece ser a única que não está processando-o completamente, pois ela é a única que aparece à sua aula - e encontra a sala vazia. Esta lenta reação relativamente à mudança também é mostrada no telefonema com a sua mãe, sugerindo que ela é assim já há algum tempo: "você me conhece, estou sempre igual". Também podemos ver isso mais tarde, quando Louise é inesperadamente levada no meio da noite e pede 20 minutos para se preparar, mas apenas recebe 10: é um pequeno detalhe, mas mesmo assim, mais um sinal, apontando para a lenta reação de Louise a uma mudança repentina e a sua hesitação geral para enfrentar a vida. Mas o que pode ser dito a respeito da origem dessa hesitação?
Já que não nos é apresentado um background específico da história de Louise, podemos nos virar para uma história mais universal. Em "The Denial of Death", Ernest Becket escreve sobre os dois grandes medos que estão presentes em todos nós e nos caracterizam como seres humanos: o medo da morte e o medo da vida. Ambos, acredito, estão enraizados na nossa percepção e a nossa experiência do "tempo". Somos livres de mover-nos em dimensões espaciais, mas estamos limitados pela linha do tempo e forçados a experienciar essa dimensão momento a momento, testemunhando as nossas vidas movendo-se para a frente, sem poder alterar esse movimento. Ernest Becker aponta para um paradoxo que surge da nossa percepção transcendente do tempo, a nossa capacidade quase divina de observar todo o conceito de tempo, e, ao mesmo tempo, estar limitados a um corpo físico que nos condena a experienciar sem escapatória uma ordem pré-definida. Talvez a consequência mais importante deste paradoxo é que conseguimos perceber a nossa própria mortalidade. Sabemos que um dia iremos morrer e isto, naturalmente, nos assusta. A vida em sua totalidade é muita coisa para ser gerida por seres limitados como nós. A vastidão incompreensível do Universo, o fundamento ilusivo do seu propósito e o mistério total da nossa existência em toda a sua beleza e terror é demais, então nos encolhemos da vida. Tornamos ela mundana e aceitável porque, em nossas cabeças, se não nos envolvermos na vida não temos que encarar a morte. Parte deste processo é natural e até necessário para ultrapassarmos a vida diária sem estar constantemente exacerbados pela nossa existência e nos preocuparmos com o seu significado. Mas, quando nos encolhemos demais e nos escondemos numa bolha protetora como Louise, podemos acabar perdendo a vida na sua totalidade, o que não faz sentido, pois de qualquer forma a morte virá, independente de nossa atitude em relação a ela.
A chegada dos heptapods pode ser encarada como a chegada da existência em si, sendo os heptapods uma metáfora para exatamente aquela parte da vida da qual temos medo. Eles parecem ter uma completa percepção do tempo e uma noção de propósito para além da nossa compreensão. A tentativa de se comunicar com os heptapods pode ser ver vista como uma tentativa de comunicar com a manifestação da existência, mas para isso precisamos entender sua linguagem.
A linguagem não diz respeito apenas à comunicação uns com os outros. Ela também é uma ferramenta de dar significado ao mundo que nos rodeia. A linguagem nos permite catalogar e normalizar: nos permite olhar para os átomos a nossa volta e ver algo ordinário como um carro ou uma cadeira. A linguagem estabiliza o caos da existência, mas apenas até uma certa extensão, pois apesar de todas as possibilidades que oferece também é limitada: não nos permite articular a totalidade da existência e, por isso, falha em aliviar o nosso medo da mesma. Essa falha da linguagem em aliviar o nosso medo da existência é um grande tema em Arrival, explorado principalmente através da interação com os heptapods, quando Louise e sua equipe tentam perceber a linguagem extraterrestre para perguntar a questão vital que pode ser direcionada a toda a existência: "qual é o seu propósito?"
Depois do 1º encontro com os seres, Louise percebe que não vai conseguir se comunicar, se permitir ser controlada pelo medo e, conforme o crescente conhecimento da sua linguagem, começa lentamente a quebrar as barreiras, tendo como efeito mais relevante as visões do seu futuro, que vêm como memórias. É neste momento que chegamos ao mais complicado e talvez também ao menos percebido momento do filme: a dádiva que é ver o futuro, dada a Louise pelos heptapods.
O que realmente significa Louise saber o seu futuro? Parece que ela já não permite que o medo domine o curso de sua existência, já não se esconde da vida mas sim a abraça, tanto as coisas boas como as más. Sua nova linguagem a permitiu construir um significado e articular a existência de tal forma que aliviou o seu medo da mesma. Acredito que esse é o verdadeiro significado por trás da dádiva dos heptapods: Louise decidiu escolher a existência em vez da não-existência.
Argumento que isto também se aplica a nós, porque de alguma forma já conhecemos o nosso futuro: podemos não saber os eventos específicos que nos irão acontecer, como Louise sabe, mas sabemos com certeza absoluta que um dia iremos morrer e que não existiremos outra vez. Sabemos que ao longo do caminho existirá tristeza e dor, mas também beleza. Se nos deixarmos consumir por nosso medo, não vivenciaremos nada.
O nosso persistente medo da existência continua a nos impedir de abraçar completamente a vida e de valorizarmos todos os momentos. Acredito que Arrival traz consigo o poder de nos fazer encarar a vida sempre carregando conosco a questão: o que poderíamos fazer se não tivéssemos medo?

Lost in Translation — Recensão

Lost in Translation é um filme norte-americano de 2003, escrito e realizado por Sofia Coppola, que tem lugar na agitada cidade de Tóquio.
O filme acompanha a vida de duas personagens americanas — Bob e Charlotte — em Tóquio, onde se encontram temporariamente. O filme leva-nos, inicialmente, a conhecer os dois protagonistas e as respetivas histórias individualmente, sendo, no entanto, inevitável comparar as duas figuras e ambas as situações. Bob Harris é um ator mundialmente conhecido, que viaja até Tóquio em trabalho, para participar num anúncio. Charlotte é, por sua vez, uma rapariga recentemente casada, que acompanha o seu marido até Tóquio, onde este se encontra também a trabalhar.
Neste filme, deparei-me, em primeiro lugar, com a importância da língua e da comunicação. O facto de nos exprimirmos através de línguas, que são inventadas coletivamente, variando de sítio para sítio e de cultura para cultura, faz com que o não conhecimento de uma determinada língua torne a comunicação um problema. Neste caso, cruzamo-nos com cenas que se tornam quase cómicas perante a confusão por parte de Bob, quando se lhe dirigem em japonês. Lost in Translation remete também para um choque cultural por parte dos dois protagonistas, quando estes se defrontam com uma cultura que nada tem a ver com a deles, ocidental. De facto, assistimos a inúmeras tentativas de Charlotte para se adaptar a Tóquio e à respetiva cultura, ao procurar e visitar templos, ao experimentar ikebana, etc. No fundo, ambos estão perdidos numa cultura diferente, na língua que não entendem, e, essencialmente, perdidos — e sozinhos — nas próprias histórias, num confronto com a própria pessoa.
Embora ambos tenham a sua própria família e se encontrem numa cidade eminentemente movimentada, os dois protagonistas não deixam de se sentir sozinhos e isolados.  De facto, este sentimento de solidão partilhado pelos dois vai conduzir a um momento de conexão quase imediata, e a uma profunda empatia. É este contraste entre a solidão, que dá origem a uma forte relação entre duas pessoas, e a multidão, onde os mesmos se camuflam, que dá força ao filme. Esta amizade tão íntima e intensa que significa tanto para os dois envolvidos — e para o espetador —, mas que parece tão insignificante e despercebida aos olhos do aglomerado de pessoas que frequenta os mesmos espaços agitados de Tóquio, encerra a peculiaridade do filme.
Simultaneamente, o filme proporciona uma relação tão natural e confortável entre os dois personagens, que, a certo ponto, nos faz questionar se os diálogos e as conversas são encenadas ou improvisadas. O filme parece tão real e a narrativa tão possível que se destacam, inegavelmente, do habitual modelo ficcional de Hollywood.
A imprevisibilidade capta a atenção de qualquer um neste filme. Com os olhos presos ao ecrã, o filme foge às expetativas do espetador com uma narrativa cujo fio condutor é moldado pelo inesperado. Ao longo do filme, nós, espetadores, concebemos uma multiplicidade de especulações com base noutros filmes nossos conhecidos. Com o envolvimento dos protagonistas que, embora sem trair os respetivos cônjuges, criam uma relação íntima, ficamos à espera que, a qualquer momento, o marido de Charlotte regresse da viagem de trabalho em que partiu. Ou acreditamos na forte probabilidade de as personagens se envolverem sexualmente — respeitando o paradigma de Hollywood. Mas o inesperado faz-se mais forte. Bob e Charlotte partilham a solidão e é essa a essência da relação.
O derradeiro momento da imprevisibilidade do filme reside no ponto em que, aquando de um abraço de despedida dos protagonistas, Bob sussurra algo ao ouvido de Charlotte que não é percetível no filme propriamente dito. É importante refletir acerca da importância atribuída a este instante do filme. De facto, este segredo é alvo de maior atenção do que qualquer parte do filme que se segue. É um momento privado partilhado exclusivamente pelos dois. No entanto, nós, espetadores, não nos conformamos com esta ocultação de algo representado no filme. Pomo-nos no papel dos protagonistas e, como tal, é-nos difícil aceitar que não consigamos ouvir uma parte, aparentemente relevante, do filme.

Finalmente, o filme sobressai ainda pela imagem e respetivas cores em si. A cidade de Tóquio é representada pelas luzes néon, que desempenham um papel central na imagem. Por contrapartida, inicialmente, as duas personagens principais evidenciam-se através da ausência de luz, o que promove o devido contraste entre a solidão que representa e a luz patente na cidade, correspondente à multidão.