Madame
Butterfly de Giacomo
Puccini foi a minha primeira ópera.
A experiência começou com a chegada
ao Campo Pequeno, caracterizando-se de imediato pela evidente multiculturalidade
dos espetadores e toda a expetativa na sala ainda mesmo antes dos panos se
abrirem. À minha volta vários ingleses, alemães, franceses, espanhóis, desde
jovens a idosos, ajeitavam-se e procuravam o seu lugar. Momentos antes do
início do espetáculo, a sala começava-se a compor, apresentando luzes baixas,
pessoas a ler cuidadosamente os seus libretos e funcionários que direcionavam
os espetadores para os seus lugares. A orquestra, que se encontrava apenas a
alguns metros da primeira fila, afinava os seus instrumentos. Porém, um
pormenor bastante interessante e curioso era a diversidade de vestuário. A
ópera requer uma apresentação cuidada, uma atenção especial, e de facto, era
visível a variedade de indumentárias. Desde chapéus grandes, que faziam lembrar
os tradicionais chapéus ingleses, a echarpes, a casacos compridos, a rendas e a
bengalas, o público que se preparava para ver a Madame Butterfly, na noite do
dia 25 de novembro de 2016, tinha vindo vestido a rigor.
Madame
Butterfly, conta
a história de Cio-Cio-San,
uma jovem gueixa japonesa, também conhecida por Madame Butterfly, que sacrifica
a vida por amor ao seu marido americano Pinkerton, renunciando à sua religião e
até mesmo à sua família, dado que não poderia continuar a ser gueixa a partir
do momento em que se casasse. A obra insere-se no seio de um Japão pouco
conhecido pelo resto do mundo, tendo por isso sido realizadas várias expedições
de reconhecimento por parte dos Estados Unidos, com o objetivo de estabelecer
relações com os habitantes locais, geralmente através de casamentos temporários
arranjados entre soldados americanos e jovens japonesas. Um destes casamentos foi,
portanto, o de Madame Butterfly e de Pinkerton.
Ao longo dos três atos da ópera, somos
cativados pela presença da cor, que se encontrava latente nos cenários e no guarda-roupa.
Muitos atores vestiam quimonos coloridos e com padrões tradicionais japoneses, que nos
remeteram diretamente para a cultura oriental e para uma delicadeza e uma
subtil sensualidade bastante característica desta cultura e em particular das
gueixas. É também na questão do
vestuário, que pude observar mais diretamente o contraste entre a cultura
oriental, de Butterfly, e a cultura ocidental, de Pinkerton, uma vez que este se
apresentava com roupas mais escuras e formais, como fatos e fardas. Por outro
lado, a luz desempenhou também um papel essencial na obra, principalmente como
forma de acentuar o dramatismo ao longo de toda a narrativa e de determinadas
cenas, em especial, na cena final que ilustra a despedida de Cio-Cio-San e de
seu filho. Nesta cena, Madame Butterfly, apercebendo-se de que tem de entregar
o seu filho à nova mulher de Pinkerton, Kate, decide matar-se. Porém, não
querendo partir sem antes se despedir do filho, Butterfly pede a Suzuki, sua
aia, que o vá chamar, enquanto esta retira de um baú, um pequeno punhal.
Momentos mais tarde, regressam e Butterfly fica a sós com o filho. Esta
despede-se e pede-lhe que nunca a esqueça. Assim, enquanto tapa os olhos do filho
e o entretém com brinquedos, pega no punhal e realiza o golpe final. Esta cena
é então o culminar de toda uma série de tragédias que Butterfly vai acumulando
ao longo da história, tendo, por isso sido iluminado por um forte foco de luz,
que deixa todo o resto do cenário na escuridão, privilegiando assim as
personagens e as emoções sentidas. Nesta cena, o próprio palco ganhou uma maior
dimensão dramática, tornando-se no único ponto iluminado na sala, que capta o
nosso olhar, pasmado pela curiosidade do desastre. É de louvar o trabalho de todos os
atores, mas em especial, nesta cena, o da atriz Carmen Aparício, Cio-Cio-San,
que foi assumindo uma aparência de desespero e mágoa profundas e que se
traduziam numa voz nitidamente triste e angustiada, mas ao mesmo tempo,
conformada com a desgraça eminente. Com movimentos delicados, mas decididos, a
atriz prendeu-nos àquele momento, deixando-nos em antecipação do golpe final.
Na sala, sentia-se o suspense e a curiosidade provocada pela morte da heroína e
as consequências que iria provocar.
No final da peça, os atores
reuniram-se no palco e apresentaram-se, recebendo de seguida, os aplausos de um
público fascinado pela grandiosidade do espetáculo e totalmente emerso no
enredo e em toda a produção.
Assim,
a ópera Madame Butterfly retratou a
história de vida de Cio-Cio-San, mas principalmente o conflito entre culturas,
que se traduzia na dramática história de amor de Butterfly e Pinkerton, uma
relação baseada na traição e principalmente numa sucessão de tragédias. ![]() |
| Fotografias retiradas de: MADAME BUTTERFLY. 2016. Renascença. <http://rr.sapo.pt/artigo/66434/madame_butterfly_esgotado_em_lisboa_ainda_ha_bilhetes_para_guimaraes>. |


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