quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Madame Butterfly- Recensão


Madame Butterfly de Giacomo Puccini foi a minha primeira ópera.
A experiência começou com a chegada ao Campo Pequeno, caracterizando-se de imediato pela evidente multiculturalidade dos espetadores e toda a expetativa na sala ainda mesmo antes dos panos se abrirem. À minha volta vários ingleses, alemães, franceses, espanhóis, desde jovens a idosos, ajeitavam-se e procuravam o seu lugar. Momentos antes do início do espetáculo, a sala começava-se a compor, apresentando luzes baixas, pessoas a ler cuidadosamente os seus libretos e funcionários que direcionavam os espetadores para os seus lugares. A orquestra, que se encontrava apenas a alguns metros da primeira fila, afinava os seus instrumentos. Porém, um pormenor bastante interessante e curioso era a diversidade de vestuário. A ópera requer uma apresentação cuidada, uma atenção especial, e de facto, era visível a variedade de indumentárias. Desde chapéus grandes, que faziam lembrar os tradicionais chapéus ingleses, a echarpes, a casacos compridos, a rendas e a bengalas, o público que se preparava para ver a Madame Butterfly, na noite do dia 25 de novembro de 2016, tinha vindo vestido a rigor.
Madame Butterfly, conta a história de Cio-Cio-San, uma jovem gueixa japonesa, também conhecida por Madame Butterfly, que sacrifica a vida por amor ao seu marido americano Pinkerton, renunciando à sua religião e até mesmo à sua família, dado que não poderia continuar a ser gueixa a partir do momento em que se casasse. A obra insere-se no seio de um Japão pouco conhecido pelo resto do mundo, tendo por isso sido realizadas várias expedições de reconhecimento por parte dos Estados Unidos, com o objetivo de estabelecer relações com os habitantes locais, geralmente através de casamentos temporários arranjados entre soldados americanos e jovens japonesas. Um destes casamentos foi, portanto, o de Madame Butterfly e de Pinkerton.


Ao longo dos três atos da ópera, somos cativados pela presença da cor, que se encontrava latente nos cenários e no guarda-roupa. Muitos atores vestiam quimonos coloridos e com padrões tradicionais japoneses, que nos remeteram diretamente para a cultura oriental e para uma delicadeza e uma subtil sensualidade bastante característica desta cultura e em particular das gueixas.  É também na questão do vestuário, que pude observar mais diretamente o contraste entre a cultura oriental, de Butterfly, e a cultura ocidental, de Pinkerton, uma vez que este se apresentava com roupas mais escuras e formais, como fatos e fardas. Por outro lado, a luz desempenhou também um papel essencial na obra, principalmente como forma de acentuar o dramatismo ao longo de toda a narrativa e de determinadas cenas, em especial, na cena final que ilustra a despedida de Cio-Cio-San e de seu filho. Nesta cena, Madame Butterfly, apercebendo-se de que tem de entregar o seu filho à nova mulher de Pinkerton, Kate, decide matar-se. Porém, não querendo partir sem antes se despedir do filho, Butterfly pede a Suzuki, sua aia, que o vá chamar, enquanto esta retira de um baú, um pequeno punhal. Momentos mais tarde, regressam e Butterfly fica a sós com o filho. Esta despede-se e pede-lhe que nunca a esqueça. Assim, enquanto tapa os olhos do filho e o entretém com brinquedos, pega no punhal e realiza o golpe final. Esta cena é então o culminar de toda uma série de tragédias que Butterfly vai acumulando ao longo da história, tendo, por isso sido iluminado por um forte foco de luz, que deixa todo o resto do cenário na escuridão, privilegiando assim as personagens e as emoções sentidas. Nesta cena, o próprio palco ganhou uma maior dimensão dramática, tornando-se no único ponto iluminado na sala, que capta o nosso olhar, pasmado pela curiosidade do desastre. É de louvar o trabalho de todos os atores, mas em especial, nesta cena, o da atriz Carmen Aparício, Cio-Cio-San, que foi assumindo uma aparência de desespero e mágoa profundas e que se traduziam numa voz nitidamente triste e angustiada, mas ao mesmo tempo, conformada com a desgraça eminente. Com movimentos delicados, mas decididos, a atriz prendeu-nos àquele momento, deixando-nos em antecipação do golpe final. Na sala, sentia-se o suspense e a curiosidade provocada pela morte da heroína e as consequências que iria provocar.
No final da peça, os atores reuniram-se no palco e apresentaram-se, recebendo de seguida, os aplausos de um público fascinado pela grandiosidade do espetáculo e totalmente emerso no enredo e em toda a produção.
Assim, a ópera Madame Butterfly retratou a história de vida de Cio-Cio-San, mas principalmente o conflito entre culturas, que se traduzia na dramática história de amor de Butterfly e Pinkerton, uma relação baseada na traição e principalmente numa sucessão de tragédias. 

Fotografias retiradas de: MADAME BUTTERFLY. 2016. Renascença. <http://rr.sapo.pt/artigo/66434/madame_butterfly_esgotado_em_lisboa_ainda_ha_bilhetes_para_guimaraes>.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.