Shortbus (2006), um filme de Cameron Mitchell desenvolvido
num contexto pós 11 de Setembro, em Nova Iorque, desenrola-se maioritariamente
em espaços interiores de Brooklyn e Manhattan. Shortbus conta, com a maior franqueza, a história de uma cidade
exausta, sendo um grande desejo do criador que a sua obra fosse “a small act of
resistance against Bush and the America we live in because it’s trying to
remind people of good things about America and New York.”
O filme acompanha
um grupo variadíssimo dos mais distintos personagens, entre eles uma dominatrix
que não consegue interagir com mais ninguém senão o seu submisso, e uma
terapeuta sexual que nunca teve um orgasmo. Embora cada personagem se destaque
pela sua singularidade, todos navegam por entre caminhos de sexo e amor. Somos deparados
com uma película que eleva tabus ao máximo, não se limita a ditar, mas interpreta-os
e desmascara-os. Assim, a partir deste intuito, assistimos a um filme
exuberante que realmente dá de pensar, atingindo níveis inesperados de intensidade,
quer de tristeza ou comédia.
Shortbus (2006), Cameron Mitchell
A história em si
haverá sido criada por Cameron Mitchell, no entanto, os personagens apenas floresceram
graças ao atores. Em conjunto, a equipa gerou personalidades inconstantes que
alteram de forma brusca a consistência do próprio raciocínio. Os personagens
têm reações selvagens e variadas, demonstrando o ser humano puro e cru.
Alegadamente, Shortbus explora a vida
de indivíduos emocionalmente instáveis, contudo, eu acredito que tal designação
não passe de uma mera ilusão de ótica. Na verdade, a grande maioria das pessoas
são tão ou mais desequilibradas quanto os personagens representados, estes apenas
se encontram numa luta com os seus problemas, lidando com os mesmos à medida
que o filme avança. Ainda que tal aconteça no ecrã, na difícil realidade, o ser
humano muitas vezes recusa enfrentar os seus demónios, tenta apenas evitá-los,
negando a sua existência. Por outras palavras, embora os indivíduos presentes no
filme aparentem estar em desarmonia com
a vida e consigo mesmos, estão unicamente a confrontar as suas problemáticas de
outra forma, servindo-se de Shortbus.
Shortbus trata de estabelecer a conexão entre os personagens através de um encontro
semanal no interior de um acolhedor salão clandestino. Um epicentro de música,
política, arte e poligamia carnal une a mente e corpo de todas as pessoas ali
presentes. Desenvolve-se assim um outro modo de abordar as situações do
quotidiano, propondo novas hipóteses de conciliar não apenas problemas da mente
como também necessidades carnais e do coração.
Shortbus (2006), Cameron Mitchell
Uma aparente
busca por prazer sexual esconde o complexo psicológico de cada um.
Individualmente, de uma maneira ou de outra, os personagens camuflam as suas
profundas necessidades emocionais. Disto é óbvio o exemplo da dominatrix que se
faz passar por alguém que sente prazer ao controlar o seu submisso quando, na verdade,
foge a sete pés de qualquer interação social. A carência de amor, carinho e
apoio revela-se tão ou mais importante que qualquer desejo carnal.
O filme tanto nos
demonstra a necessidade de algo mais além de sexo, como o oposto. Uma relação
que quer andar para a frente servindo-se unicamente de uma excelente amizade,
não anda. Por outro lado, uma relação puramente sexual sem qualquer tipo de
ligação emocional, não perdura.
Shortbus não é um filme pornográfico, não tem como
propósito excitar o espectador. Trata-se sim de uma busca infinita sobre o
significado do sexo, um tema sempre tão tabu, aqui tratado com toda a sua banalidade.
Sexo é-nos algo intrínseco, primitivo. É do mais animalesco que temos, o
instinto de reprodução. Então porque será que se tranformou num assunto tão censurado?
Claramente deparamo-nos com o argumento da privacidade, o estar íntimo com
alguém requer um ambiente de conforto pessoal, não se trata de uma atividade pública,
pelo menos na sua generalidade. Contudo, sexo não deixa de ser um ato ordinário
para o ser humano, uma prática que todos temos em comum mas ninguém se sente
confortável a abordar o assunto. Shortbus
não só discute o assunto na sua totalidade, como o escancara diretamente aos
olhos do espectador numa tentativa de o normalizar.
Trata-se de um
filme sexualmente gráfico que não se censura em nenhum aspeto, física ou
psicologicamente. É totalmente aberto a quem o queira ver.
“It’s not about sex, it’s about sexuality… not about scoring but about living.” – Roger Ebert, Chicago Sun-Times
Shortbus pode ser visto como um dos filmes mais utópicos alguma
vez feitos. Existem, de facto, comunidades preparadas o suficiente para receber
o ideal “Love is all we need”, mas sejamos honestos, por muito recetiva que a
sociedade atual seja, não se encontra de todo no ponto certo da cronologia.
Falo assim pois acredito fielmente que, um dia, o ser humano se aperceberá que
tem o maior poder de adaptação entre os seres vivos, o que significa que somos
capazes de aceitar quaisquer diferenças, problemas ou gostos pessoais, basta querer
entender. Ao dizer amor, não falo unicamente de relações de casados, família ou
amigos. Amor pode ser espalhado constantemente entre toda a gente. Aliás, esta
ideia de Cameron Mitchell remete muito à filosofia de vida da comunidade
Hippie. Nada de violência, discriminação ou humilhar o próximo. Basta espalhar
amor, apoio e aceitação que as situações do dia-a-dia decorrem no seu melhor
prisma. Como é óbvio, trata-se de uma utopia em toda a sua plenitude.
Em Shortbus, a beleza física é observada
por outros olhos. Embora de forma subtil, o filme gira em redor da ideia de
amar a pessoa por quem ela é, e não pelo que se pode observar. Fugindo ao
hábito de escolher atores extraordinariamente bonitos, Cameron Mitchell prefere
optar por profissionais que se entregam de corpo e alma ao filme, estabelecendo
química em tela. Aliás, os próprios personagens dão muito mais importância ao
interior de cada indivíduo, a uma personalidade atraente, do que propriamente
ao físico.
Shortbus (2006), Cameron Mitchell
O filme por
completo é uma constante fuga aos clichés, inclusive as cenas sexuais contrastam
com o habitual com que somos abordados nos filmes trazidos por Hollywood. Aqui,
o sexo é tratado de forma diferente, com olhos reais. Os momentos sexuais são
expostos diretamente ao espectador sem que este possa “desviar o olhar”, contudo,
Cameron Mitchell trata estes momentos de modo a que não seja incómodo de
assistir, não traz conotações negativas ou constrangedoras, antes pelo
contrário.
O tratamento que
o criador dá aos corpos, de modo a que riam e contraiam, faz com que seja mais
fácil assimilar as metáforas inseridas, isto também acontece pelo facto de os
encontros carnais fluirem na narrativa ao invés de a interromper. Assim,
Cameron Mitchell atinge a normalização do sexo, caracaterizando-o como algo
belo e natural, comum aos olhos do observador. Torna também ordinário o voyeur
deste género de cenas, sem que se sinta aquele desconforto como se fosse errado
o fazer.
O encerrar do
filme traz consigo um sentimento caloroso de aceitação total na qual toda a
gente é livre de ser o quão extravagante quiser. Embora um pouco ingénuo, o
idealismo de Cameron Mitchell é realmente comovente. Para si, o sexo foge da comum
representação que vemos na televisão.
Senti-me
completamente sugada ao assitir Shortbus,
invadida até. Agarra-nos quando estamos desprevenidos, puxando-nos para dentro
da história. Fazia parte de cada cena, estava presente, quase como se fosse um
mero voyeur, tal qual o vizinho que observa James e Jamie. Apenas observo o
desenrolar da história nunca a alterando, contudo, cada vez mais envolvida. O espectador
acompanha as histórias de cada personagem, de cada casal, até ao pormenor mais
íntimo. Ri, chora e grita com cada um.
A enredo é
esmagador, quis muitas vezes abrir a boca e fazer sentir a minha opinião. Achei
incrível o leque tão abrangente de sentimentos que fez despertar em mim.
De forma resumida,
Cameron Mitchell sugere que nos satisfaçamos na vida.



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