segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

A "Navegação" Alienada


Nos dias que correm, a dependência pela utilização das novas tecnologias cresce exponencialmente. No século XIX, Karl Marx falava da Alienação no contexto do trabalho em “O Trabalho Alienado”, hoje podemos fazer essa associação a outras situações que por vezes se colocam acima dessa.

Em pleno século XXI, o ser humano torna-se agora tanto mais autómato quanto mais tecnologia consome. A valorização do mundo online e, consequentemente, a desvalorização daquilo que é considerada a vida humana na sua natureza e as suas capacidades de socialização, aumentam proporcionalmente. Todos os dias nos deparamos com situações em que vemos o ser humano a deslocar-se para qualquer lado (subir escadas, ultrapassar obstáculos, etc) sempre com os olhos postos no seu smartphone; todos os dias presenciamos locais de refeição rodeados de pessoas que imediatamente colocam fotografias da sua comida online; ou ainda situações onde se encontra um grupo de pessoas num café que nem conversam entre si ou, se conversam nunca se encaram pois estão dependentes do que se está a passar na internet. Nestes casos, cada vez mais frequentes, a utilização das tecnologias e a presença constante do ser humano na internet manifesta-se a tal ponto como alienação que quanto mais ele publica, comenta, partilha, consome, menos ele pertence a si próprio. Quanto mais o homem se esgota a si mesmo, mais poderoso se torna o mundo virtual que ele próprio cria perante si e tanto mais pobre ele fica da sua vida interior e dos seus relacionamentos sociais. A vida é considerada sem sentido se o homem não pertencer à massa da sociedade que se aliena com a tecnologia. Chega-se então à conclusão que o homem só se sente livremente ativo nas suas funções animais, tais como comer, beber, dormir e procriar, quanto muito na sua própria habitação. Nas suas funções humanas, o homem vê-se reduzido a animal, mesmo estas sendo consideradas funções também genuinamente humanas. Porém, estas funções abstratamente consideradas, são transformadas em finalidades últimas e exclusivas da esfera da atividade humana.

Considerando o homem fora do estado de alienação, no plano físico, este vive apenas dos produtos naturais, na forma de alimento, calor, habitação ou vestuário. Citando, “o homem vive da natureza, quer dizer: a natureza é o seu corpo, com o qual tem de se manter permanentemente em intercâmbio para não morrer”. Uma vez que o uso da tecnologia alienada aliena a natureza do homem, acaba também por alienar o homem de si mesmo, das suas funções vitais e da sua própria espécie.

O uso excessivo das novas tecnologias aparece agora ao homem como o seu único meio de satisfação da necessidade de manter uma existência física. É como que se não estivermos ligados a elas, nesse momento sim, pareceremos alienados perante aquilo a que chamamos de sociedade, quando, na verdade, estamos é alienados precisamente devido ao uso constante destas mesmas. Esta utilização alienada degrada a atividade autónoma, a atividade livre, a vida do homem na sua existência física, mudando a consciência que este tem da sua própria espécie, alienando-se do próprio corpo, da natureza externa, da sua vida intelectual, social e humana.

Em suma, um homem dependente das novas tecnologias e consequentemente da internet, de um modo geral, encontrar-se-á alienado dos outros e da vida humana.

Referências:
Karl Marx (1993) "O Trabalho Alienado" in Manuscritos Económico Filosóficos. Lisboa Ed.70

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