Em
“O Trabalho Alienado” Marx refere que: “quanto mais os tralhador se esgota a si
mesmo, tanto mais poderoso se torna o mundo dos objetos, que ele cria perante
si, tanto mais pobre ele fica na sua vida interior, tanto menos pertence a si
próprio, o mesmo se passa na religião. Quanto mais o homem atribui a Deus,
tanto menos guarda para si mesmo.”. Neste texto, Marx explica que, se
previamente o artesão estava intrinsecamente ligado aos produtos do seu
trabalho, agora esse mesmo trabalhador está totalmente desconectado dos objetos
que manufatura.
A
abordagem à relação trabalhador/produto é interessante porque parece-me puxar
por uma versão comtemporânea deste fenómeno, que pode ser encontrada na teoria
de Jean Baudrillard (em especifico nas obras “Sociedade de Consumo” e “O
Sistema de Objetos”).
Nos
tempos de hoje, a luta entre o operário e o burguês diluiu-se e tornou-se mais
complexa, a primazia transferiu-se para uma outra luta, a do cidadão versus a
empresa/entidade que incentiva o consumo. A relação entre homem e objeto
adaptou-se a esta evolução.
Em “A Sociedade de Consumo”,
Baudrillard refere que: “O processo de consumo pode ser analisado (...) como
processo de classificação e de diferenciação social, em que os objetos/signos
se ordenam, não só como diferenças significativas no interior de um código, mas
como valores estatuários no seio de uma hierarquia. Nesta aceção, o consumo
pode ser objeto de análise estratégica que determina o seu peso específico na
distribuição dos valores estatuários (com a implicação de outros significantes
sociais: saber, poder, cultura, etc.)”
Baudrillard
analisa não a relação entre o operário e o produto que este fabrica, mas sim
entre o trabalhador que (na contemporaneidade) se tornou consumidor e o objeto
comercial. Ao cercar-se de objetos, o ser individual bloqueia a saída e entrada
de vestígios naturais de personalidade. O indivíduo coloca à sua volta
entidades ultras personalizáveis, que podem ser possuídas e domesticadas. O
objeto age como um espelho perfeito, porque se adapta à imagem que o sujeito
detentor do mesmo quer ver.
O esgotamento do
interior do homem para o sustento do poder do objeto adota assim uma dinâmica
diferente. A destruição quase total da conceção que o artesanato deve ter o cunho
do artesão e a consequente despersonalização do objeto deu lugar à
possibilidade de o sujeito definir a sua identidade, não através da expressão
de caráter, emoções, e outras formas humanísticas de expressão, mas sim através
da posse e organização de objetos de consumo.
Referências
- Karl Marx (1993) "O Trabalho Alienado" in Manuscritos Económico Filosóficos. Lisboa: Ed. 70.
- Baudrillard, J. (1970). A
Sociedade de Consumo
(1991 ed.). (A. Morão,
Trad.) Lisboa, Portugal:
70. página 60
Sem comentários:
Enviar um comentário
Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.