terça-feira, 19 de dezembro de 2017

A Relação Homem/Objeto



Em “O Trabalho Alienado” Marx refere que: “quanto mais os tralhador se esgota a si mesmo, tanto mais poderoso se torna o mundo dos objetos, que ele cria perante si, tanto mais pobre ele fica na sua vida interior, tanto menos pertence a si próprio, o mesmo se passa na religião. Quanto mais o homem atribui a Deus, tanto menos guarda para si mesmo.”. Neste texto, Marx explica que, se previamente o artesão estava intrinsecamente ligado aos produtos do seu trabalho, agora esse mesmo trabalhador está totalmente desconectado dos objetos que manufatura.

A abordagem à relação trabalhador/produto é interessante porque parece-me puxar por uma versão comtemporânea deste fenómeno, que pode ser encontrada na teoria de Jean Baudrillard (em especifico nas obras “Sociedade de Consumo” e “O Sistema de Objetos”).
Nos tempos de hoje, a luta entre o operário e o burguês diluiu-se e tornou-se mais complexa, a primazia transferiu-se para uma outra luta, a do cidadão versus a empresa/entidade que incentiva o consumo. A relação entre homem e objeto adaptou-se a esta evolução.
         
Em “A Sociedade de Consumo”, Baudrillard refere que: “O processo de consumo pode ser analisado (...) como processo de classificação e de diferenciação social, em que os objetos/signos se ordenam, não só como diferenças significativas no interior de um código, mas como valores estatuários no seio de uma hierarquia. Nesta aceção, o consumo pode ser objeto de análise estratégica que determina o seu peso específico na distribuição dos valores estatuários (com a implicação de outros significantes sociais: saber, poder, cultura, etc.)”

Baudrillard analisa não a relação entre o operário e o produto que este fabrica, mas sim entre o trabalhador que (na contemporaneidade) se tornou consumidor e o objeto comercial. Ao cercar-se de objetos, o ser individual bloqueia a saída e entrada de vestígios naturais de personalidade. O indivíduo coloca à sua volta entidades ultras personalizáveis, que podem ser possuídas e domesticadas. O objeto age como um espelho perfeito, porque se adapta à imagem que o sujeito detentor do mesmo quer ver.

O esgotamento do interior do homem para o sustento do poder do objeto adota assim uma dinâmica diferente. A destruição quase total da conceção que o artesanato deve ter o cunho do artesão e a consequente despersonalização do objeto deu lugar à possibilidade de o sujeito definir a sua identidade, não através da expressão de caráter, emoções, e outras formas humanísticas de expressão, mas sim através da posse e organização de objetos de consumo.


Referências

- Karl Marx (1993) "O Trabalho Alienado" in Manuscritos Económico Filosóficos. Lisboa: Ed. 70.

Baudrillard, J. (1970). A Sociedade de Consumo (1991 ed.). (A. Morão, Trad.) Lisboa, Portugal: 70. página 60

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