segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Um produto do meio


Desde pequenos que somos ensinados a distinguir o bom e o mau, o certo e o errado. E nenhum destes termos nos parece dúbio, porque regulamos a nossa vida através deles e, segundo o nosso ponto de vista, tudo funciona como é suposto.
Tal como Karl Marx refere na sua teoria, a forma de pensar e atuar de cada um tem por base certas ideologias que constituem uma consciência distorcida e falsa da realidade. Esta consciência leva muitas vezes a uma hegemonia, ou seja, a uma adesão massiva de uma perspetiva da realidade, quando partilhada por um grupo grande de indivíduos. Cada indivíduo vive dentro de um determinado ambiente que, por ser restrito à sua família e amigos, acaba por se tornar num núcleo de ideais e filosofias específicas. Como convivemos diariamente com estes ideais, praticamos uma vida baseada nos mesmos e porque achamos que conhecemos muitas pessoas e vivemos numa enorme sociedade, convencemo-nos de que é natural que os outros façam e pensem da mesma forma que nós. Sendo o terrorismo e o Estado Islâmico um assunto tão falado recentemente, é importante perceber-se que a forma como pensam e vivem as pessoas que estão diretamente envolvidas neste mundo, não é arbitrária. Não querendo tomar uma posição defensiva quanto a este tema, penso que seja importante que se contextualize pensamentos, para que uma medida posterior consiga ser tomada e é este tópico que venho abordar.

Como referi inicialmente, quando entramos na escola, com apenas cinco ou seis anos de idade, somos ensinados a praticar o bem, a ajudar o próximo e a nunca menosprezar o outro, independentemente da sua religião, sexo ou característica. Eu, aprendi isto na minha escola, em Portugal. Aprendi que para alguns existe um Deus, mas nem todos acreditam na sua presença. Aprendi que a guerra é o último fim e que devo resolver os meus problemas e divergências com uma conversa.
Walid, criança muçulmana, cresceu numa escola exatamente ao mesmo tempo e foi-lhe transmitido que Alá é um ser superior e que nada mais importa que Ele, nem mesmo outra pessoa. Que deve dar a vida pela religião e que manusear uma arma é normal, porque é assim que deve defender os seus ideais. Os seus pais, avós e antecedentes cresceram assim também, o que torna conceito de “bem” muito diferente daquele que eu memorizei.

A “culpa” de tanto eu como Walid acreditarmos em noções opostas do “bem” é de alguém mas torna-se difícil perceber quem, pois a ideologia que defendemos já passou a uma hegemonia há muito tempo e contrariá-la tornar-nos-ia radicais dentro das “bolhas” em que vivemos. Posto isto, Walid segue uma vida baseada naquilo que lhe foi prometido e defende os seus ideais com toda a convicção, porque nada lhe parece mais correto. Se for preciso começar uma guerra, matar alguém ou tirar a própria vida, assim o fará. Esta forma do pensar tornou-o cego, incapaz de se questionar. Mas mais uma vez, tudo faz sentido. Porque foi assim que aprendeu e foi assim que sempre lhe foi transmitido. O fazer o bem para estas pessoas é seguir as convicções nas quais se apoiam e para elas, praticar o mal é não ver Alá como o juiz das suas vidas e abdicar de conflitos por “medo” ou “não querer magoar alguém”. Para mim, que vivo no Ocidente e tenho consciência daquilo que as Guerras e os conflitos produzem, seria impensável algum dia agarrar numa arma ou defender tal posição. Eu acredito em Deus, mas não espero que todos o façam, nem condeno alguém por não viver a minha fé. Mas isso sou eu. Eu e as pessoas que vivem ao meu redor.

Não quero com este comentário tornar-me generalista ou extremista, nem “encaixar” tudo no mesmo saco, porque sei que não é isto que acontece. Mas quis, de forma sucinta e concreta dar um exemplo de ideologia e hegemonia. Claro que a base do islamismo não é a guerra e não é isso que quero transmitir. Queria apenas reforçar a mensagem de que nós somos exatamente aquilo que aprendemos. E o exemplo da guerra é um exemplo atual. Existem muitos outros que poderia ter escolhido. Mas optei por este, independentemente da quantidade de pessoas que o possa praticar.

Concluindo, questiono-me: se Walid discutisse comigo e me apresentasse os seus argumentos, será que a minha ideologia e forma de ver o mundo podia sofrer alterações? Será que aquilo que eu tomo como hegemónico, se alteraria depois de uma conversa coerente e calma? Seria capaz de contrariá-lo e argumentar que aquilo em que acredito é o supostamente correto? A realidade é que se existe quem compre umas calças de ganga porque todos lhe dizem que é confortável e prático, existe também quem mate e morra porque lhe disseram que a sua vida é menos preciosa que um Deus soberano. E, no final do dia, continue a achar que fez o mais correto.


Referências 
Marx, K e Engels, F. (1932/1976). A Ideologia Alemã. vol. I. Lisboa: Presença, pp. 25-26

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