Desde pequenos
que somos ensinados a distinguir o bom e o mau, o certo e o errado. E nenhum
destes termos nos parece dúbio, porque regulamos a nossa vida através deles e,
segundo o nosso ponto de vista, tudo funciona como é suposto.
Tal como Karl
Marx refere na sua teoria, a forma de pensar e atuar de cada um tem por base
certas ideologias que constituem uma consciência distorcida e falsa da
realidade. Esta consciência leva muitas vezes a uma hegemonia, ou seja, a uma
adesão massiva de uma perspetiva da realidade, quando partilhada por um grupo
grande de indivíduos. Cada indivíduo vive dentro de um determinado ambiente
que, por ser restrito à sua família e amigos, acaba por se tornar num núcleo de
ideais e filosofias específicas. Como convivemos diariamente com estes ideais,
praticamos uma vida baseada nos mesmos e porque achamos que conhecemos muitas
pessoas e vivemos numa enorme sociedade, convencemo-nos de que é natural que os
outros façam e pensem da mesma forma que nós. Sendo o terrorismo e o Estado
Islâmico um assunto tão falado recentemente, é importante perceber-se que a
forma como pensam e vivem as pessoas que estão diretamente envolvidas neste
mundo, não é arbitrária. Não querendo tomar uma posição defensiva quanto a este
tema, penso que seja importante que se contextualize pensamentos, para que uma
medida posterior consiga ser tomada e é este tópico que venho abordar.
Como referi
inicialmente, quando entramos na escola, com apenas cinco ou seis anos de
idade, somos ensinados a praticar o bem, a ajudar o próximo e a nunca menosprezar
o outro, independentemente da sua religião, sexo ou característica. Eu, aprendi
isto na minha escola, em Portugal. Aprendi que para alguns existe um Deus, mas nem
todos acreditam na sua presença. Aprendi que a guerra é o último fim e que devo
resolver os meus problemas e divergências com uma conversa.
Walid, criança
muçulmana, cresceu numa escola exatamente ao mesmo tempo e foi-lhe transmitido
que Alá é um ser superior e que nada mais importa que Ele, nem mesmo outra
pessoa. Que deve dar a vida pela religião e que manusear uma arma é normal,
porque é assim que deve defender os seus ideais. Os seus pais, avós e
antecedentes cresceram assim também, o que torna conceito de “bem” muito
diferente daquele que eu memorizei.
A “culpa” de
tanto eu como Walid acreditarmos em noções opostas do “bem” é de alguém mas
torna-se difícil perceber quem, pois a ideologia que defendemos já passou a uma
hegemonia há muito tempo e contrariá-la tornar-nos-ia radicais dentro das “bolhas”
em que vivemos. Posto isto, Walid segue uma vida baseada naquilo que lhe foi
prometido e defende os seus ideais com toda a convicção, porque nada lhe parece
mais correto. Se for preciso começar uma guerra, matar alguém ou tirar a
própria vida, assim o fará. Esta forma do pensar tornou-o cego, incapaz de se
questionar. Mas mais uma vez, tudo faz sentido. Porque foi assim que aprendeu e
foi assim que sempre lhe foi transmitido. O fazer o bem para estas pessoas é
seguir as convicções nas quais se apoiam e para elas, praticar o mal é não ver
Alá como o juiz das suas vidas e abdicar de conflitos por “medo” ou “não querer
magoar alguém”. Para mim, que vivo no Ocidente e tenho consciência daquilo que
as Guerras e os conflitos produzem, seria impensável algum dia agarrar numa
arma ou defender tal posição. Eu acredito em Deus, mas não espero que todos o
façam, nem condeno alguém por não viver a minha fé. Mas isso sou eu. Eu e as
pessoas que vivem ao meu redor.
Não quero com
este comentário tornar-me generalista ou extremista, nem “encaixar” tudo no
mesmo saco, porque sei que não é isto que acontece. Mas quis, de forma sucinta
e concreta dar um exemplo de ideologia e hegemonia. Claro que a base do
islamismo não é a guerra e não é isso que quero transmitir. Queria apenas
reforçar a mensagem de que nós somos exatamente aquilo que aprendemos. E o
exemplo da guerra é um exemplo atual. Existem muitos outros que poderia ter
escolhido. Mas optei por este, independentemente da quantidade de pessoas que o
possa praticar.
Concluindo,
questiono-me: se Walid discutisse comigo e me apresentasse os seus argumentos,
será que a minha ideologia e forma de ver o mundo podia sofrer alterações? Será
que aquilo que eu tomo como hegemónico, se alteraria depois de uma conversa
coerente e calma? Seria capaz de contrariá-lo e argumentar que aquilo em que
acredito é o supostamente correto? A realidade é que se existe quem compre umas
calças de ganga porque todos lhe dizem que é confortável e prático, existe
também quem mate e morra porque lhe disseram que a sua vida é menos preciosa
que um Deus soberano. E, no final do dia, continue a achar que fez o mais
correto.
Referências
Marx, K e Engels, F. (1932/1976). A Ideologia Alemã. vol. I. Lisboa: Presença, pp. 25-26
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