Fui bastante poupado ao ódio tremendo que os adultos do meu tempo têm por Luís Vaz de Camões. Pela simples razão de nunca ter tido de o avaliar gramaticalmente, somente enquanto poeta.
Do primeiro Canto tudo o que se me chega através dos meus pais são divisões de orações, o que me deixa inquieto pela maneira como para eles, "O Poeta", não prescindirá de o ser para passar a encarnar apenas um malabarista de sujeito e predicado. Eram portanto os alunos do tempo, parece-me, como que adversários. Adversários de jogo. Ele rimando obras de encomenda , na Lisboa seiscentista, e meus pais em picardias imensas, em plena Europa de século XX, com um quebra cabeças épico.
Eu sou, todavia, daqueles que iriam espera a nau Fé que chegou a Lisboa em Abril de 1570, trazendo o poeta de torno ao mais global cais da altura. Porque por vezes, numa só estrofe se revela o engenho genial que lhe merece a coroa de louros.
Por entre exaltações e exageros, a jogada mais genial, estimo, estará no que parece prever com aquela advertência a D.Sebastião: "Não se aprende Senhor, na fantasia", e após " mas eu que falo humilde, baixo e rude, de vós nem conhecido nem sonhado"- que rematam a obra no canto Final. Claramente o Rei não o terá ouvido, tal como o próprio parece saber que não ouviria, e então a épica toda se transforma num instante numa obra trágica genialissima e ainda mais intemporal (e por isso mais genialissima). Se imprime na literatura como paradoxo e na história como enigma, tudo com um sabor a misticismo que as obras magnas ao final de alguns bons séculos habitualmente tomam.
Foi ele o narrador daquele coroa insuportavelmente rica e balofa de honras e profecias. Todo Os Lusíadas me parecem um contemplar desse irremediavel. "Este povo, que é meu, por quem derrama As lagrimas, que em vão cahidas vejo, Qm'i assaz de mal lhe quero, pois que o amo" Refere-se Vénus á Lusitânia, como quem diz "Quero querer-lhe mal, mas o guardo" (para mais tarde?). Junto de criticas ásperas ao tratamento dos Poetas na corte, e aos pintores também, (quando se refere das bandeiras que pintaram), cria-se a dinâmica camoniana. Um estar furioso de ingratidão perante o próprio povo amado, e alternar o amor por um desdém muito característico, que depois destes anos todos, ainda creio sentir em tudo e todos pela obra e a nação inseparáveis.
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