quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Os Lusíadas

Fui bastante poupado ao ódio tremendo que os adultos do meu tempo têm por Luís Vaz de Camões. Pela simples razão de nunca ter tido de o avaliar gramaticalmente, somente enquanto poeta.
 Do primeiro Canto tudo o que se me chega através dos meus pais são divisões de orações, o que me deixa inquieto pela maneira como para eles, "O Poeta", não prescindirá de o ser para passar a encarnar apenas um malabarista de sujeito e predicado. Eram portanto os alunos do tempo, parece-me, como que adversários. Adversários de jogo. Ele rimando obras de encomenda , na Lisboa seiscentista, e meus pais em picardias imensas, em plena Europa de século XX, com um quebra cabeças épico.
Eu sou, todavia, daqueles que iriam espera a nau Fé que chegou a Lisboa em Abril de 1570, trazendo o poeta de torno ao mais global cais da altura. Porque por vezes, numa só estrofe se revela o engenho genial que lhe merece a coroa de louros.
Por entre exaltações e exageros, a jogada mais genial, estimo, estará no que parece prever com aquela advertência a D.Sebastião: "Não se aprende Senhor, na fantasia", e após  " mas eu que falo humilde, baixo e rude, de vós nem conhecido nem sonhado"- que rematam a obra no canto Final. Claramente o Rei não o terá ouvido, tal como o próprio parece saber que não ouviria, e então a épica toda se transforma num instante numa obra trágica genialissima e ainda mais intemporal (e por isso mais genialissima). Se imprime na literatura como paradoxo e na história como enigma, tudo com um sabor a misticismo que as obras magnas ao final de alguns bons séculos habitualmente tomam. 
Foi ele o narrador daquele coroa insuportavelmente rica e balofa de honras e profecias. Todo Os Lusíadas me parecem um contemplar desse irremediavel. "Este povo, que é meu, por quem derrama As lagrimas, que em vão cahidas vejo, Qm'i assaz de mal lhe quero, pois que o amo" Refere-se Vénus á Lusitânia, como quem diz "Quero querer-lhe mal, mas o guardo" (para mais tarde?). Junto de criticas ásperas ao tratamento dos Poetas na corte, e aos pintores também, (quando se refere das bandeiras que pintaram), cria-se a dinâmica camoniana. Um estar furioso de ingratidão perante o próprio povo amado, e alternar o amor por um desdém muito característico, que depois destes anos todos, ainda creio sentir em tudo e todos pela obra e a nação inseparáveis. 

Sem comentários:

Enviar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.